
Três décadas de existência física — e, ainda assim, sinto que já caminho por estas terras há milênios. Há algo em mim que não pertence apenas a este tempo. Carrego o peso suave de uma alma antiga, boêmia, que vagueia por entre os séculos como quem cumpre promessas esquecidas, salda dívidas que talvez nem sejam mais minhas, e observa, com certo desencanto, a podridão sutil do mundo moderno.
Não tenho religião — e nem preciso. Algumas merecem meu respeito, outras, apenas silêncio. Minha fé não cabe em templos nem se curva diante de dogmas. Acredito em Deus e em Cristo, não como figuras de altar, mas como mestres eternos, faróis que apontam para algo maior do que palavras humanas conseguem alcançar.
Minha espiritualidade é um caminho que construo passo a passo, pedra por pedra, erro por erro — uma ponte entre o visível e o invisível, entre a matéria que se desfaz e a essência que permanece. É uma fé que transcende livros sagrados, e se revela no som do vento, no olhar de um estranho, na cicatriz que ensina, no silêncio que conforta.
Creio que a morte não é um fim, mas uma dobra no caminho — uma pausa entre capítulos.
Creio, também, que nada acontece por acaso, por mais cruel ou confuso que pareça. Há um sentido oculto até mesmo nas dores mais profundas e nas perguntas que ecoam sem resposta. Talvez não nos caiba entender tudo agora, mas sentir — isso sim — é o nosso maior dom.
Sou apenas uma alma em travessia. Nem sábia, nem perdida — apenas consciente de que há muito mais além da superfície, e de que viver, no fundo, é aprender a lembrar aquilo que a alma já sabia antes de nascer.
A construção do meu emocional não foi exatamente um passeio no Tape Porã com tererê e cadeiras de praia. Na verdade, continua bem longe disso. Mas quem precisa de facilidade ou imediatismo quando se pode lapidar a alma até o último suspiro, não é mesmo?
A infância? Digamos que foi aquele tipo de cenário que a gente tenta esquecer a todo custo, mas que, no fim das contas, vira combustível. Duro, amargo — inflamável.
A adolescência foi um campo de treinamento forçado, onde o amadurecimento não pediu licença: chegou chutando a porta. Nada de dramas novelescos, apenas uma dose generosa de realidade — daquelas que não se diluem nem com o tempo.
A verdade é que não foi fácil chegar até aqui. Carrego uma sensibilidade tão aflorada que às vezes me pergunto se é dom ou defeito de fábrica. Ainda assim, o que mais gosto é da minha própria companhia. É no silêncio comigo mesmo que revisito meus passos, tropeços, vitórias, pecados — esse curta-metragem enjoado que chamo de vida, com capítulos dramáticos e outros quase cômicos.
Sou apaixonado por minha esposa, Julia. Pela música. Pelo nascer e o pôr do sol, pelas matas e riachos, pelo silêncio e pela solitude. Tenho uma curiosidade quase insaciável por tudo que ainda não vivi — talvez essa seja minha maior motivação: o mistério do que ainda está por vir. O futuro, para mim, sempre pareceu mais promessa do que ameaça.
Enquanto os ponteiros do relógio seguem sua marcha implacável, tento trocar o velho hábito de roer unhas por batidas meio aleatórias em teclados alfabéticos. Escrever ainda é minha fuga preferida — um refúgio honesto para escapar, nem que por um instante, do peso da vida e do mundo. Dois caçadores incansáveis, sempre no meu encalço.
Este blog é meu abrigo. Um canto de desabafo, uma espécie de sepultura para versos órfãos, na ala dos indigentes — onde quase ninguém passa, e poucos se demoram. Aqui, deixo que minhas palavras, às vezes descompassadas, encontrem repouso.
Sei que sou o único visitante desse espaço. E talvez, no fundo, isso seja o mais honesto de tudo. Volta e meia dou uma espiada nas estatísticas, esse teatro vazio onde o único espectador sou eu. Um ou dois cliques por semana — todos meus. Um frágil suspiro de vida nesse palco digital, sem aplausos, sem críticas. Só o eco da minha própria presença.
Mas a surpresa é boa. Porque nem todo dia a gente se sente como uma arte que vale a pena ser apreciada — mesmo que só por si. Afinal, quem mais entenderia as nuances dessa história senão eu mesmo?
Sou, sem dúvida, meu mais fiel espectador.
Este blog é a minha obra. Reflexo da minha exaustão, da minha busca, e da minha entrega ao fato de que talvez não existam respostas definitivas. E por isso sigo. Porque, se até eu continuo aqui — mesmo em silêncio, mesmo na ausência de plateia — quem sou eu pra abandonar meu próprio palco?
No fim, isso tudo é quase uma piada interna: escrevo para o vazio, mas não há ninguém mais interessado nessa história do que eu. E talvez o único sentido de tudo isso seja justamente esse — a persistência de quem, mesmo sabendo que ninguém assiste, segue em cena.
Autor e espectador ao mesmo tempo.
O que mais poderia ser?

Nasci num domingo, 1º de maio de 1994 — o mesmo dia em que o Brasil se despedia de um ídolo: Ayrton Senna. Comecei minha jornada com um toque dramático, veja só. Coincidência ou profecia? Vai saber.
Minha infância inteira foi vivida na roça. E, ironicamente — ou não —, o lugar se chamava Lajeado Inferno. Talvez uma previsão poética do que estava por vir. Porque, convenhamos, a vida ali não era exatamente um paraíso rural de novela das seis. Aos oito anos, deixei aquele cenário interiorano e fui parar num lugar com um pouco mais de gente. Mas, em compensação, continuei sendo o mesmo menino tímido, um recluso social quase por vocação.
E, pra ser honesto, continuo sendo. Só que hoje em dia chamo isso de rabugice.
Não gosto de pessoas. Quanto mais longe delas, melhor. Não que eu deseje mal a alguém — nada disso. Mas virou um desafio ter que lidar com as amebas em que muitas mentes humanas se transformaram. Me sinto, de certa forma, como um velho de 90 anos preso num corpo de 30. Ou talvez já tenha vivido milênios — seja nesta encarnação ou em alguma versão alternativa de mim mesmo, perdida no tempo.
Foi nesse turbilhão de pensamentos — que borbulham incessantemente — que resolvi criar esse espaço. Um blog. Um lugar onde posso, sem filtro, sem maquiagem, vomitar tudo o que me incomoda. Tudo o que aperta o peito.
Aqui, não há preocupação com o politicamente correto, nem com a patrulha das boas maneiras. Não há poses. Só palavras.
Esse é meu canto. Meu território. Meu espelho sujo.
Relato meus momentos e fases — os mergulhos no pessimismo, as incoerências gritantes, as dependências emocionais, as crenças e descrenças que se entrelaçam no tecido frágil da minha existência. Faço isso porque, no fim das contas, sou um Maicon Rigon em permanente construção. Um ser humano em obra. Uma alma em processo.
Passei pela fase das paixões adolescentes, com todos os seus altos e baixos. Vivi tragédias que a vida, com seu humor ácido, resolveu me apresentar sem aviso prévio. Carrego, no peito e na mente, um reinado de incoerência e contradição. Mas sigo caminhando, mesmo que sem mapa, tentando encontrar algum sentido — ou pelo menos uma boa pergunta.
Neste espaço, deixo poemas, pensamentos soltos, frases que talvez só façam sentido pra mim. E, quem sabe, um ou outro artigo que possa ser útil a alguém, mesmo que sem querer.
Mas se, por acaso, alguém — além de mim — estiver lendo isso… então, toda essa loucura já valeu a pena.
Maicon Douglas Rigon – Janeiro de 2025
