Aproveitando esse domingo de Páscoa e esse clima no mínimo estranho pra época, resolvi falar de espiritualidade. Não sou religioso, bem longe disso. Apesar de ter nascido e crescido entre o catolicismo e a igreja evangélica, minha sensibilidade sempre esteve mais interessada em olhar pra dentro do que seguir qualquer manual pronto de fé.
E não, isso não me torna melhor que ninguém. Dentro de mim também moram nuvens pesadas, daquelas que prometem tempestades memoráveis. Só que, ao observar o que muitos desses caminhos tradicionais oferecem, sempre tive a impressão de estar diante de um pacote meio estranho: distração, alívio temporário, promessas de prosperidade em troca de uma parte do salário e, de bônus, um lugar organizado pra ser velado depois que tudo acabar.
Sempre disse que o mundo é pouco pra mim. Não por grandeza, mas por inquietação. Conversas rasas me cansam, almas sem gosto me dão sono. E na religião, pra mim, não poderia ser diferente. Nunca encontrei uma que me fizesse transcender de verdade, sair de mim sem precisar deixar de ser quem eu sou.
Templos, igrejas, prédios… tudo isso me parece mais cenário do que essência. São estruturas bonitas, sim, até admiro. Funcionam bem como ponto de encontro de pessoas com um objetivo em comum. Mas essa ideia de que existe algo especial ali dentro, quase exclusivo, nunca me convenceu. O mesmo encontro poderia acontecer numa sala qualquer ou no meio de uma mata. Aliás, a mata sempre me pareceu muito mais honesta nesse sentido. Menos julgamento, menos performance, mais presença.
Porque, convenhamos, nem sempre o objetivo desses encontros é exatamente encontrar Deus. Às vezes é mais sobre observar o tênis gasto de alguém, medir o comprimento da saia alheia ou disputar silenciosamente quem parece mais “evoluído”. Uma espiritualidade curiosamente preocupada com detalhes bem pouco espirituais.
Enfim.
Acabei construindo minha própria forma de perceber o divino. Algo que não cabe em prédio, nem em regra, nem em discurso pronto. Deus, pra mim, não mora num endereço fixo. Está no que é vivo. Numa flor abrindo sem pedir licença, numa árvore que insiste em crescer, na chuva fina de uma manhã cinzenta ou naquele pôr do sol exageradamente bonito.
Deus, pra mim, não é uma figura esperando ser encontrada. É presença. É estado. É aquilo que simplesmente é. Está no que é bom, no que é meu, no que sou eu também, com todas as minhas luzes e sombras.
Ainda assim, acho bonito o espetáculo. Os rituais da igreja católica, a simbologia, os papas, os santos, o Vaticano. Tudo isso tem um valor estético enorme, quase como uma grande obra de arte coletiva. Do mesmo jeito, já me emocionei com louvores evangélicos, e não vejo problema nenhum nisso. Sentir nunca foi o problema.
O problema, talvez, seja quando tentam transformar o sentir em regra, em molde, em produto.
No fim das contas, se existe mesmo um ser por trás de tudo isso, desconfio que ele não está muito preocupado com rótulos, templos ou performances. Provavelmente só esperaria algo bem mais simples, e ao mesmo tempo muito mais difícil: que a gente se amasse mais e fizesse o bem sem precisar de plateia.
O resto… parece mais invenção nossa mesmo.