Dizem que uma das coisas que nos diferencia dos primatas e dos demais animais é a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. A consciência. Essa faculdade extraordinária de observar a si mesmo, questionar o que sente, interpretar o que vive e, de quebra, criar problemas que talvez nem existissem se simplesmente não tivéssemos consciência deles.
Nada no mundo pode ser tão poderoso, nocivo e, em certas circunstâncias, fatal para nós mesmos quanto a nossa própria consciência. Os outros seres parecem viver mais entregues ao instinto. Nós não. Nós lembramos do que passou, antecipamos o que ainda nem aconteceu e, entre uma coisa e outra, conseguimos sofrer por ambas.
A mente humana é capaz de fazer praticamente qualquer coisa conosco. Ou melhor, é capaz de fazer aquilo que ensinamos a ela fazer. Ela pode ser uma prisão ou um lugar de silêncio. Pode transformar uma dificuldade em tragédia ou uma tragédia em aprendizado. Pode nos arrancar do eixo ou, depois de muito treinamento, simplesmente observar o caos sem sentir necessidade de participar dele.
É preciso treino. Muito treino.
Aprender a permanecer tranquilo quando a vida nos tira do roteiro é uma das formas mais difíceis de maturidade. Afinal, somos criaturas profundamente apegadas ao conhecido. Quando alguma coisa nos é arrancada da rotina, sentimos primeiro a falta. Depois, estranhamos o vazio. Mais tarde, o cérebro começa a reorganizar os móveis da casa interior e, quando percebemos, aquilo que parecia indispensável já não faz tanta falta assim.
É como um dente que se perde. No começo, a língua passa pelo espaço vazio dezenas de vezes por dia, como se estivesse conferindo se a ausência continua ali. Depois de algum tempo, o cérebro entende que aquele buraco agora faz parte da paisagem. O estranho passa a ser o normal. E talvez seja justamente isso que chamamos de tempo.
O tempo é, indiscutivelmente, um dos melhores remédios para os males da alma. Não cura tudo, é verdade. Algumas coisas ele apenas ensina a carregar com menos peso. Outras ele transforma em cicatriz. E há aquelas que, depois de muitos anos, já não doem, mas continuam sendo lembradas justamente porque um dia doeram.
Quanto à consciência, talvez a verdadeira liberdade esteja em conhecê-la suficientemente bem para não ser governado por ela.
Quando ela sabe, ainda que inconscientemente, quem somos, o que fazemos, quais são nossos limites e onde estão nossas fragilidades, torna-se muito mais difícil que alguém nos tire do eixo. Não porque deixamos de sentir, mas porque passamos a compreender o que sentimos.
Levei muitos anos para construir a minha própria sanidade mental. Não foi um processo bonito, linear ou particularmente confortável. Houve leitura de artigos, livros, palestras, aulas, estudos sobre a mente, as emoções, o comportamento humano e, principalmente, muita observação. Inclusive de mim mesmo, que talvez seja a forma mais desagradável de estudo.
Porque conhecer os outros é interessante. Conhecer a si mesmo é quase uma experiência de mau gosto.
Depois de algum tempo, certas situações começam a ficar curiosas. Chega a ser engraçado observar alguém fazendo uma leitura corporal de você, interpretando seus gestos, seu silêncio, seu olhar, sua postura e, a partir disso, construindo uma teoria inteira sobre quem você é.
A pessoa observa um movimento da sua mão e acredita ter descoberto sua personalidade.
Você sorri e ela acredita ter descoberto sua intenção.
Você permanece em silêncio e ela acredita ter descoberto sua fraqueza.
É quase comovente.
Enquanto alguém está tentando interpretar meia dúzia de sinais exteriores, você já percebeu muito mais sobre ela. Não porque tenha poderes sobrenaturais ou algum dom especial para ler mentes, mas porque comportamento revela padrões. O modo como alguém fala, reage, interrompe, justifica, acusa, elogia ou despreza diz muito mais do que aquilo que a pessoa imagina estar dizendo.
Com algum tempo de observação, começa-se a perceber o caráter por trás da postura, as inseguranças por trás da arrogância, os medos por trás da agressividade e, principalmente, a necessidade desesperada de parecer aquilo que se gostaria de ser.
Não, eu não me considero melhor do que ninguém.
Talvez essa seja justamente a diferença.
Não preciso ser superior para perceber determinadas coisas. E também não preciso convencer ninguém de que sou inteligente. A necessidade de provar inteligência costuma ser, aliás, uma das formas mais baratas de demonstrar insegurança.
Na minha parede há escassez de diploma. E, sinceramente, nunca tive muita necessidade de transformar certificados em troféus de personalidade. A inteligência acadêmica, por si só, tem para mim um valor bastante relativo. É como ser o último ser humano vivo na Terra e possuir um milhão de reais quando já não existe mais alimento, água ou alguém com quem gastar o dinheiro. O número continua impressionante no papel. Na prática, serve para absolutamente nada.
Conhecimento sem humanidade é apenas acúmulo. Diploma sem discernimento é apenas papel emoldurado. E inteligência que não produz lucidez, humildade ou capacidade de compreender a própria existência me interessa quase tanto quanto uma estante cheia de livros que ninguém jamais abriu.
Prefiro a inteligência que sabe a hora de calar. A que reconhece que não sabe. A que observa antes de julgar. A que consegue compreender uma pessoa sem precisar diminuí-la. Essa, infelizmente, não vem com certificado, não tem cerimônia de formatura e dificilmente encontra espaço suficiente em uma parede.
Aprendi a olhar mais e reagir menos.
A ouvir mais e explicar menos.
A deixar que as pessoas construam sobre mim as histórias que quiserem.
Afinal, cada um enxerga o outro a partir da própria experiência, do próprio caráter e das próprias limitações. Há quem encontre profundidade onde existe silêncio. Há quem enxergue arrogância onde existe indiferença. Há quem confunda tranquilidade com fraqueza.
E há quem simplesmente precise acreditar que é melhor do que você.
Não há problema.
Eu não pretendo disputar esse lugar.
Sobre o futuro, pelo menos uma coisa consigo prever com alguma segurança: essa pessoa provavelmente terá uma péssima impressão de mim. E eu, muito provavelmente, terei uma péssima impressão dela.
E talvez isso seja perfeitamente justo.
Nem todo encontro precisa produzir amizade. Nem toda convivência precisa produzir admiração. Algumas pessoas entram na nossa vida apenas para nos ensinar o quanto amadurecemos ao não reagir.
No fim, talvez a maior prova de sanidade não seja conseguir controlar os outros, mas perceber que não precisamos fazê-lo.
Porque, depois de tantos anos estudando a mente, cheguei a uma conclusão bastante simples, embora pouco confortável: a maior parte das pessoas passa a vida tentando controlar o mundo exterior enquanto é completamente incapaz de controlar o pequeno universo barulhento que carrega dentro da própria cabeça.
Eu, pelo menos, já tenho trabalho demais com a minha.
