
As primeiras imagens que me vêm à mente quando lembro daquele que foi, talvez, meu primeiro contato com a sociedade civilizada, minha primeira escola, são turvas. Flashes. Fragmentos. Pequenos recortes de um filme antigo cuja maior parte do rolo se perdeu em algum canto da memória.
Minha memória nunca foi das melhores. Existem fases inteiras da minha vida que parecem ter sido apagadas. Às vezes me pergunto se isso é algum mecanismo de defesa do emocional. Se for, agradeço. Nem tudo foram flores.
Mas voltando à escola. Lembro do primeiro dia de aula. Minha mãe precisou ficar comigo na sala durante todo o período. Acho que isso se repetiu por uns três dias. Quando finalmente chegou o momento de ela ir embora e eu ficar sozinho, chorei copiosamente ao descobrir que ela não voltaria dali a alguns minutos.
Era, de fato, meu primeiro contato com o mundo além do portão de casa. Rostos desconhecidos. Crianças estranhas. Professores estranhos. Rotinas estranhas. Tudo estranho. Para uma criança tímida, aquilo era quase uma operação militar de alto risco.
Eu morava no interior e percorria três ou quatro quilômetros de Kombi até a escola. Lembro das salas de aula. Do cheiro do giz. Do barulho das cadeiras arrastando. Do mimeógrafo, meu primeiro contato com o álcool, embora ainda não soubesse disso.
Um dia minha mãe me obrigou a levar flores para a professora. Contra a minha vontade, claro. Minha timidez era tão grande que entregar aquelas flores parecia uma missão mais difícil que atravessar a fronteira em tempo de guerra. Para ajudar, os quase quarenta graus dentro da Kombi do seu Edivino transformaram o buquê em uma homenagem póstuma antes mesmo de chegar ao destino.
Lembro do salão onde apresentávamos peças de teatro. Do parquinho. De uma pequena casinha de madeira que existia ali e que, aos olhos de uma criança, parecia um castelo.
Lembro também do primeiro amor. Da descoberta gradual da leitura. Dos livros que começaram a despertar meu interesse pela língua portuguesa. Dos primeiros microfones que encontrei pelo caminho e que, sem eu saber, apontavam discretamente para aquilo que viria a ser minha profissão anos depois.
Lembro também das lágrimas. Do bullying praticado por colegas que, sem intenção ou consciência, plantaram algumas inseguranças que me acompanham até hoje. Mas essa parte vou deixar passar. Não por falta de importância, mas porque não quero transformar lembranças em vitimismo. Cada época teve suas durezas e seus aprendizados.
A Escola Andrea Parise, da comunidade de Cinquentenário, está completando 70 anos de história. Setenta anos. Faço parte de uma parcela minúscula dessa trajetória. Meu pai estudou ali. Meu irmão estudou ali. Tios, primos, vizinhos e amigos também passaram por aquelas salas. Aquelas paredes carregam histórias que só elas conhecem. Histórias de gerações que enfrentaram estradas de barro, frio, poeira e chuva para estudar. Histórias de crianças que chegavam descalças. Outras, a cavalo. Histórias de famílias inteiras que encontraram na escola uma porta para um futuro diferente.
Quando penso nisso, percebo que a escola nunca foi apenas um prédio. Ela foi ponto de encontro. Foi palco de sonhos. Foi refúgio. Foi desafio. Foi descoberta. Foi memória.
Que saudade das professoras. Das senhoras da merenda. Dos colegas. Alguns deles.
Não gosto muito de voltar lá. Os poetas já cansaram de dizer que não se deve retornar aos lugares onde fomos felizes. Não porque eles tenham mudado, mas porque aquilo que buscamos reencontrar não está mais lá.
O que procuramos é o tempo. E o tempo, infelizmente, não mora em lugar nenhum.
Por isso prefiro guardar minhas poucas lembranças exatamente onde elas estão: imperfeitas, incompletas, às vezes embaçadas, mas vivas.
De algum modo, uma parte de mim continua sentada numa daquelas carteiras. O guri tímido, sardento e cheio de sonhos ainda está lá, sentindo o cheiro do giz, ouvindo o barulho do recreio e esperando a Kombi do seu Edivino surgir no fim da tarde para levá-lo de volta para casa.
Talvez crescer seja justamente isso: partir sem nunca ir embora por completo. Porque há lugares que deixamos para trás, mas que seguem vivendo dentro de nós. E a Escola Andrea Parise será para sempre um desses lugares.