Hoje vivi uma experiência que, há trinta anos, seria chamada apenas de “uma quarta-feira qualquer”. Em 2026, porém, ela atende por outro nome: trauma.
A companhia de energia já havia avisado sobre o desligamento programado. Nada de surpresa. Nada de tempestades derrubando postes ou caminhões arrancando fios. Eu sabia exatamente o que aconteceria. O que eu não sabia era que algumas horas sem luz e sem internet seriam suficientes para me fazer questionar toda a estrutura da vida moderna.
No início, encarei a situação com a confiança de um guerreiro veterano.
“Algumas horas sem energia? Tranquilo.”
Duas horas depois, eu já estava vagando pela casa como um espírito preso entre dimensões, abrindo a geladeira pela décima vez sem nenhum motivo específico e olhando para o celular como quem espera um milagre tecnológico.
É verdade que dormi durante boa parte da tarde. Talvez tenha sido um mecanismo de defesa do cérebro. Talvez meu organismo tenha entendido que, sem telas, não havia mais motivo para permanecer consciente.
Quando acordei, veio o verdadeiro desafio.
Silêncio.
Nenhuma notificação. Nenhum vídeo. Nenhum feed infinito recheado de opiniões que eu não pedi, notícias que não mudam minha vida e conteúdos que eu esqueço cinco segundos depois de consumir.
E foi aí que surgiu uma pergunta desconfortável:
Como as pessoas viviam antigamente?
Porque, sejamos honestos, nossos antepassados enfrentaram guerras, epidemias, fome e todo tipo de tragédia. Nós enfrentamos um roteador desligado.
A comparação é humilhante.
Hoje dependemos tanto das telas que a ausência delas produz uma sensação quase física de vazio. É como se a tecnologia tivesse criado uma demanda artificial por estímulos constantes. Estamos sempre consumindo alguma coisa: vídeos, textos, músicas, opiniões, memes, indignações fabricadas e debates irrelevantes.
Temos acesso a praticamente todo o conhecimento da humanidade, mas usamos boa parte desse poder para assistir alguém reagindo a outro alguém reagindo a um terceiro alguém.
É uma conquista tecnológica impressionante.
E um pouco deprimente também.
Não estou dizendo que a tecnologia é a origem de todos os males. Seria injusto. Ela facilitou a vida, aproximou pessoas e democratizou o acesso à informação. Mas é impossível ignorar que grande parte da ansiedade, da comparação constante e do esgotamento emocional moderno nasceu justamente dessa conexão permanente.
Somos uma geração que nunca está sozinha.
E talvez esse seja o problema.
No passado, as pessoas simplesmente viviam. Não porque fossem mais sábias ou evoluídas, mas porque não tinham alternativa. A vida acontecia na velocidade da própria vida. Sem notificações interrompendo pensamentos. Sem algoritmos disputando cada segundo de atenção. Sem a sensação constante de que existe algo mais interessante acontecendo em outro lugar.
Talvez aquela aparente ignorância produzisse uma felicidade mais genuína.
Ou, no mínimo, uma paz que hoje parece artigo de luxo.
Por isso admiro profundamente quem consegue passar horas em um quarto silencioso sem sentir a necessidade de preencher o vazio com algum estímulo artificial. Quem consegue apenas existir. Pensar. Observar. Sentir.
Essas pessoas merecem aplausos de pé.
Eu, infelizmente, ainda não faço parte desse grupo seleto.
Sobrevivi ao apagão, mas minha mente não resistiu por muito tempo. O silêncio começou a fazer barulho. Os pensamentos se multiplicaram. O furacão que habita meu peito decidiu aproveitar a falta de distrações para fazer hora extra.
Resultado?
Fui até o trabalho para me conectar à internet.
Uma atitude que não me enche exatamente de orgulho.
Pelo contrário.
Talvez eu precise praticar mais a solitude. Mais a desconexão. Mais a capacidade de conviver comigo mesmo sem recorrer imediatamente a uma tela para anestesiar qualquer desconforto.
Porque, no fim das contas, o apagão não desligou apenas a energia da casa.
Ele iluminou uma verdade que eu preferia não enxergar.
Talvez o problema não seja ficar algumas horas sem internet.
Talvez o problema seja descobrir que não sabemos mais o que fazer quando ela vai embora.