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Sobre Maicon Rigon

Radialista, poeta, pensador. Sou um apaixonado por minha esposa Julia, pelos primeiros raios da manhã e o suave adeus do sol ao entardecer, pelas matas silenciosas, pelos riachos que sussurram segredos e pelo conforto profundo da solitude. Carrego comigo uma curiosidade infinita pelo que a vida ainda reserva, um desejo insaciável de explorar o desconhecido que se esconde além do horizonte. Enquanto os ponteiros do relógio teimam em não descansar, tento transformar a ansiedade em poesia, trocando o roer de unhas pelo compasso das teclas, onde cada palavra se torna um pequeno refúgio. A poesia, afinal, continua sendo a melhor saída para quem, como eu, sente vontade de escapar da vida e do mundo, mesmo que ambos insistam em me seguir, incansáveis, passo a passo.

Entre o Excesso e o Vazio

Tem dias em que a emoção me transborda sem pedir licença.

Escorre pelos olhos
como quem tenta gritar
o que a voz já não alcança.

Ressuscita meus ancestrais,
as dores que herdei,
e aquelas que colecionei
com as escolhas que fiz
e com os silêncios que aceitei.

Tem dias em que sou
a própria personificação da emoção.

Em outros,
não sinto absolutamente nada.

É como se alguém arrancasse de mim
a capacidade de sentir,
de sofrer,
de amar,
de existir por inteiro.

Tem dias em que apenas sobrevivo.

Em outros,
sou o motivo de tudo,
o incêndio
e também as cinzas.

Tem dias em que as lágrimas explodem
como tempestades represadas.

Em outros,
permanecem imóveis,
enchendo um reservatório invisível,
esperando apenas
o peso exato
para romper.

Quem sou eu?
Emoção ou inércia?
Sentimento ou escuridão?
Não sei.

Talvez eu seja apenas
esse contraste interminável,
esse pêndulo cansado
entre o excesso
e o vazio.

Só sei que ainda gosto de sentir.

Porque sentir,
mesmo quando dói,
é a única prova
de que alguma parte de mim
continua viva.

O que realmente me assusta
não é a tristeza.

É o dia em que ela também partir.

É quando o silêncio
deixar de ser refúgio
e se tornar morada.

Quando não houver mais lágrimas,
nem dor,
nem esperança,
apenas um coração tão quieto
que já não saiba distinguir
a paz
da ausência.

O País do “Vai Dar Certo”… Até Afundar de Vez

Enquanto todo mundo está com os olhos grudados na Copa do Mundo, o Brasil respira por aparelhos.

Enquanto as pesquisas eleitorais dão mais vontade de correr para o banheiro do que para a urna, a economia vai ladeira abaixo. E o mais cruel é que convenceram as pessoas de que elas são ruins em administrar o próprio dinheiro. Quando na verdade elas apenas descobriram que sobreviver virou artigo de luxo.

Ninguém está trocando de carro, renovando o guarda-roupa ou gastando em restaurantes. O carrinho do supermercado já não leva “besteiras”, só o básico. E, ainda assim, a conta fecha no vermelho.

Os produtos encolhem, os preços crescem. A reduflação virou política informal de mercado: paga-se mais para levar menos. Enquanto isso, multiplicam-se as placas de “vende-se” e “aluga-se” em salas comerciais.

Nas redes sociais, brotam especialistas em política, economia, geopolítica e gestão pública na velocidade com que desaparece o poder de compra do brasileiro. Gente que mal consegue interpretar um texto, mas tem convicções inabaláveis sobre como salvar o país.

Meu único currículo para falar disso é ser brasileiro. Acordar cedo, pagar imposto até quando respiro e assistir, diariamente, à lenta decomposição de um sistema apodrecido em todas as esferas.

Enquanto isso, seguimos divididos em torcidas organizadas de Lula e Bolsonaro, como se o futuro de mais de 200 milhões de pessoas pudesse ser resumido a um Grenal político eterno.

Quem ainda tem um pouco de sanidade mental, uma reserva financeira e um inglês razoável talvez já tenha comprado uma passagem só de ida. Eu não tenho nem a reserva, nem o inglês suficiente. Então fico por aqui.

Assistindo, da primeira fila, o navio afundando…

E descobrindo, tarde demais, que nunca houve botes salva-vidas para todos.

Onde o Tempo Ainda Tem Cheiro de Giz

As primeiras imagens que me vêm à mente quando lembro daquele que foi, talvez, meu primeiro contato com a sociedade civilizada, minha primeira escola, são turvas. Flashes. Fragmentos. Pequenos recortes de um filme antigo cuja maior parte do rolo se perdeu em algum canto da memória.

Minha memória nunca foi das melhores. Existem fases inteiras da minha vida que parecem ter sido apagadas. Às vezes me pergunto se isso é algum mecanismo de defesa do emocional. Se for, agradeço. Nem tudo foram flores.

Mas voltando à escola. Lembro do primeiro dia de aula. Minha mãe precisou ficar comigo na sala durante todo o período. Acho que isso se repetiu por uns três dias. Quando finalmente chegou o momento de ela ir embora e eu ficar sozinho, chorei copiosamente ao descobrir que ela não voltaria dali a alguns minutos.

Era, de fato, meu primeiro contato com o mundo além do portão de casa. Rostos desconhecidos. Crianças estranhas. Professores estranhos. Rotinas estranhas. Tudo estranho. Para uma criança tímida, aquilo era quase uma operação militar de alto risco.

Eu morava no interior e percorria três ou quatro quilômetros de Kombi até a escola. Lembro das salas de aula. Do cheiro do giz. Do barulho das cadeiras arrastando. Do mimeógrafo, meu primeiro contato com o álcool, embora ainda não soubesse disso.

Um dia minha mãe me obrigou a levar flores para a professora. Contra a minha vontade, claro. Minha timidez era tão grande que entregar aquelas flores parecia uma missão mais difícil que atravessar a fronteira em tempo de guerra. Para ajudar, os quase quarenta graus dentro da Kombi do seu Edivino transformaram o buquê em uma homenagem póstuma antes mesmo de chegar ao destino.

Lembro do salão onde apresentávamos peças de teatro. Do parquinho. De uma pequena casinha de madeira que existia ali e que, aos olhos de uma criança, parecia um castelo.

Lembro também do primeiro amor. Da descoberta gradual da leitura. Dos livros que começaram a despertar meu interesse pela língua portuguesa. Dos primeiros microfones que encontrei pelo caminho e que, sem eu saber, apontavam discretamente para aquilo que viria a ser minha profissão anos depois.

Lembro também das lágrimas. Do bullying praticado por colegas que, sem intenção ou consciência, plantaram algumas inseguranças que me acompanham até hoje. Mas essa parte vou deixar passar. Não por falta de importância, mas porque não quero transformar lembranças em vitimismo. Cada época teve suas durezas e seus aprendizados.

A Escola Andrea Parise, da comunidade de Cinquentenário, está completando 70 anos de história. Setenta anos. Faço parte de uma parcela minúscula dessa trajetória. Meu pai estudou ali. Meu irmão estudou ali. Tios, primos, vizinhos e amigos também passaram por aquelas salas. Aquelas paredes carregam histórias que só elas conhecem. Histórias de gerações que enfrentaram estradas de barro, frio, poeira e chuva para estudar. Histórias de crianças que chegavam descalças. Outras, a cavalo. Histórias de famílias inteiras que encontraram na escola uma porta para um futuro diferente.

Quando penso nisso, percebo que a escola nunca foi apenas um prédio. Ela foi ponto de encontro. Foi palco de sonhos. Foi refúgio. Foi desafio. Foi descoberta. Foi memória.

Que saudade das professoras. Das senhoras da merenda. Dos colegas. Alguns deles.

Não gosto muito de voltar lá. Os poetas já cansaram de dizer que não se deve retornar aos lugares onde fomos felizes. Não porque eles tenham mudado, mas porque aquilo que buscamos reencontrar não está mais lá.

O que procuramos é o tempo. E o tempo, infelizmente, não mora em lugar nenhum.

Por isso prefiro guardar minhas poucas lembranças exatamente onde elas estão: imperfeitas, incompletas, às vezes embaçadas, mas vivas.

De algum modo, uma parte de mim continua sentada numa daquelas carteiras. O guri tímido, sardento e cheio de sonhos ainda está lá, sentindo o cheiro do giz, ouvindo o barulho do recreio e esperando a Kombi do seu Edivino surgir no fim da tarde para levá-lo de volta para casa.

Talvez crescer seja justamente isso: partir sem nunca ir embora por completo. Porque há lugares que deixamos para trás, mas que seguem vivendo dentro de nós. E a Escola Andrea Parise será para sempre um desses lugares.

Apagão Existencial: Como Sobreviver Algumas Horas Sem Wi-Fi e Descobrir Que Você Tem Problemas

Hoje vivi uma experiência que, há trinta anos, seria chamada apenas de “uma quarta-feira qualquer”. Em 2026, porém, ela atende por outro nome: trauma.

A companhia de energia já havia avisado sobre o desligamento programado. Nada de surpresa. Nada de tempestades derrubando postes ou caminhões arrancando fios. Eu sabia exatamente o que aconteceria. O que eu não sabia era que algumas horas sem luz e sem internet seriam suficientes para me fazer questionar toda a estrutura da vida moderna.

No início, encarei a situação com a confiança de um guerreiro veterano.

“Algumas horas sem energia? Tranquilo.”

Duas horas depois, eu já estava vagando pela casa como um espírito preso entre dimensões, abrindo a geladeira pela décima vez sem nenhum motivo específico e olhando para o celular como quem espera um milagre tecnológico.

É verdade que dormi durante boa parte da tarde. Talvez tenha sido um mecanismo de defesa do cérebro. Talvez meu organismo tenha entendido que, sem telas, não havia mais motivo para permanecer consciente.

Quando acordei, veio o verdadeiro desafio.

Silêncio.

Nenhuma notificação. Nenhum vídeo. Nenhum feed infinito recheado de opiniões que eu não pedi, notícias que não mudam minha vida e conteúdos que eu esqueço cinco segundos depois de consumir.

E foi aí que surgiu uma pergunta desconfortável:

Como as pessoas viviam antigamente?

Porque, sejamos honestos, nossos antepassados enfrentaram guerras, epidemias, fome e todo tipo de tragédia. Nós enfrentamos um roteador desligado.

A comparação é humilhante.

Hoje dependemos tanto das telas que a ausência delas produz uma sensação quase física de vazio. É como se a tecnologia tivesse criado uma demanda artificial por estímulos constantes. Estamos sempre consumindo alguma coisa: vídeos, textos, músicas, opiniões, memes, indignações fabricadas e debates irrelevantes.

Temos acesso a praticamente todo o conhecimento da humanidade, mas usamos boa parte desse poder para assistir alguém reagindo a outro alguém reagindo a um terceiro alguém.

É uma conquista tecnológica impressionante.

E um pouco deprimente também.

Não estou dizendo que a tecnologia é a origem de todos os males. Seria injusto. Ela facilitou a vida, aproximou pessoas e democratizou o acesso à informação. Mas é impossível ignorar que grande parte da ansiedade, da comparação constante e do esgotamento emocional moderno nasceu justamente dessa conexão permanente.

Somos uma geração que nunca está sozinha.

E talvez esse seja o problema.

No passado, as pessoas simplesmente viviam. Não porque fossem mais sábias ou evoluídas, mas porque não tinham alternativa. A vida acontecia na velocidade da própria vida. Sem notificações interrompendo pensamentos. Sem algoritmos disputando cada segundo de atenção. Sem a sensação constante de que existe algo mais interessante acontecendo em outro lugar.

Talvez aquela aparente ignorância produzisse uma felicidade mais genuína.

Ou, no mínimo, uma paz que hoje parece artigo de luxo.

Por isso admiro profundamente quem consegue passar horas em um quarto silencioso sem sentir a necessidade de preencher o vazio com algum estímulo artificial. Quem consegue apenas existir. Pensar. Observar. Sentir.

Essas pessoas merecem aplausos de pé.

Eu, infelizmente, ainda não faço parte desse grupo seleto.

Sobrevivi ao apagão, mas minha mente não resistiu por muito tempo. O silêncio começou a fazer barulho. Os pensamentos se multiplicaram. O furacão que habita meu peito decidiu aproveitar a falta de distrações para fazer hora extra.

Resultado?

Fui até o trabalho para me conectar à internet.

Uma atitude que não me enche exatamente de orgulho.

Pelo contrário.

Talvez eu precise praticar mais a solitude. Mais a desconexão. Mais a capacidade de conviver comigo mesmo sem recorrer imediatamente a uma tela para anestesiar qualquer desconforto.

Porque, no fim das contas, o apagão não desligou apenas a energia da casa.

Ele iluminou uma verdade que eu preferia não enxergar.

Talvez o problema não seja ficar algumas horas sem internet.

Talvez o problema seja descobrir que não sabemos mais o que fazer quando ela vai embora.

Crônicas de Um Suicida Sem Coragem

Existe uma lenda moderna de que todo ser humano já pensou em suicídio ao menos uma vez na vida. Sempre achei essa informação otimista demais.
No meu caso, isso seria como dizer que alguém “já tomou água” na vida.

Mas calma. Não precisa acionar familiares, SAMU, CAPS, padre ou pastor. Meu psicológico está ótimo. Funcionando perfeitamente. Talvez perfeitamente demais. Meu verdadeiro problema sempre foi o excesso de lucidez. Tem gente que enlouquece por fugir da realidade. Eu me desgasto justamente por enxergá-la sóbria demais.

E existe um abismo colossal entre pensar e fazer.

Pensar é rotina. Fazer exige coragem. E meu histórico de covardia segue impecável.

A ideia me visita várias vezes ao dia com a intimidade de um velho amigo inconveniente. Não me assusta mais. Pelo contrário: às vezes ela senta comigo em silêncio enquanto tomo chimarrão. Penso nos métodos, nas consequências, no texto de despedida, na trilha sonora do vídeo que eu publicaria minutos antes. Um projeto artístico mórbido, talvez. Uma última tentativa desesperada de transformar fracasso em estética artística.

Mas não se preocupem. (Ou não comemorem ainda.)
Eu não teria coragem.
Nunca tive.

No máximo, me resta certa inveja silenciosa daquele sujeito aleatório que nesse exato instante está tendo um infarto fulminante sem nem precisar planejar nada. Sorte grande. Morrer distraído parece um privilégio.

Uma vez misturei comprimidos com cerveja. Quatro, cinco… não lembro direito. Também não era uma tentativa real. Era só um protesto juvenil e patético. Um grito lançado ao céu dizendo: “olhem pra mim, eu estou profundamente insatisfeito”.

Ninguém ouviu direito.
E talvez eu também não quisesse ser salvo. Só queria que percebessem o incêndio.

Hoje, mais velho, fiz algo pior: aceitei a insatisfação como parte permanente da mobília. Ela não é mais uma fase. Virou decoração interna. Mora em mim como infiltração antiga (ninguém resolve porque já acostumou com a mancha na parede).

Às vezes imagino alternativas menos definitivas. Um “não suicídio”. Fazer um empréstimo irresponsável, desaparecer pelo mundo, beber em países cujo idioma eu não entendo, cometer os erros que economizei durante 32 anos de disciplina inútil.

Mas aí percebo o defeito do plano:
por onde eu for, eu também vou.

E o grande drama sempre foi esse. Não quero fugir da cidade, da rotina ou das pessoas. Quero fugir de mim. Da minha cabeça. Da eterna sensação de estar sobrevivendo dentro de uma vida que nunca realmente começou.

Então sigo aqui. Vivendo por falta de coragem de morrer e, ironicamente, morto demais para viver direito.

Talvez essa seja a verdadeira tragédia moderna: não o desejo de morrer, mas a absoluta incapacidade de desaparecer.

Os Intervalos de Luz Entre um Suspiro e Outro

A verdade é que, volta e meia, surge em mim algo parecido com a fé nos desesperados, como escreveu Vinicius de Moraes em “Ausência”. Não é exatamente fé, nem entusiasmo, muito menos uma revelação. É mais discreto. Uma espécie de satisfação momentânea que não resolve a vida, não reorganiza o mundo, mas também não pede licença para existir. Apenas acontece.

Isso costuma aparecer quando o mundo, por algum descuido, decide aliviar a pressão. Quando vejo algo bonito na natureza. Um nascer do sol que insiste em repetir o espetáculo sem cobrar ingresso. Uma chuva calma molhando as árvores, apenas cumprindo seu papel de lavar o ar e, de passagem, um pouco do meu excesso de pensamento. A brisa de uma noite de lua cheia, que atravessa a pele com uma delicadeza quase insolente, lembrando que a realidade também sabe ser gentil quando quer.

E acontece, principalmente, quando vejo o sorriso sincero da minha esposa por uma coisa simples. Um detalhe banal. Um gesto pequeno. Esses instantes que não entram em manchetes, não viram discurso e não sustentam teoria nenhuma, mas têm o poder estranho de desarmar qualquer armadura interna. Há sorrisos que não resolvem problemas, mas suspendem temporariamente a gravidade da existência.

Acredito que, se existir um Deus, talvez ele prefira aparecer nesses momentos. Não com estrondo, não com explicações, não com promessas grandiosas. Mas nessas frestas de silêncio em que a vida, por um instante, para de nos apertar o pescoço. Se há transcendência, talvez ela esteja menos nas respostas e mais nesses pequenos intervalos de luz que atravessam a rotina como quem não quer nada.

Escrevo isso quase como uma defesa preventiva da minha reputação. Porque, apesar da tendência ao ceticismo e de certa inclinação natural ao sarcasmo, não sou tão rabugento quanto posso parecer. Em alguns momentos de distração, quando as preocupações resolvem fazer uma pausa estratégica, eu até consigo sentir que a passagem por aqui não foi um equívoco burocrático do universo. Que talvez haja sentido, mesmo que ele não venha embalado em manual de instruções.

Não transformo isso em filosofia. Não faço dela um credo. Ela é frágil demais para virar bandeira. Mas, por alguns instantes, basta. Por alguns instantes, vale a pena ter nascido. Não porque tudo esteja resolvido, mas porque, de vez em quando, alguma coisa brilha. E esse brilho, ainda que breve e teimoso, é suficiente para lembrar que a vida não é apenas pressão e ruído.

Depois o cotidiano volta, naturalmente, com suas exigências e contradições. Mas fica o registro silencioso de que existe algo capaz de me interromper por dentro. E talvez esse seja o milagre mais discreto de todos: continuar desconfiado do mundo e, ainda assim, ser surpreendido por ele.

A Matemática do Que Nunca Dá Certo

Se há um balde a um metro
e uma bolinha amassada na minha mão,
não é física, é destino.
A gravidade me conhece pelo nome.

Se existem mil bilhetes
e novecentos e noventa e nove premiados,
não preciso conferir números:
já sei que o silêncio vai me escolher.

Minha vida tem estatística própria.
Quando algo dá certo para todos,
eu viro exceção.
Quando algo pode falhar,
eu já estou no campo de provas.

Não é azar de detalhe
é estilo de existência.

Já perdi o ônibus parado na porta.
Já peguei fila que andava,
e a minha congelou.
Já sentei na melhor posição possível
para ver o pior ângulo do mundo.

No show, sempre o telão com defeito.
Se há quatro telas,
a que pisca é a minha.
Se há quatro cadeiras ruins,
a pior parece ter GPS.

Já falhei com pessoas que amei
sem a menor intenção de falhar.

Não por descuido,
nem por desinteresse,
mas por esse jeito torto do destino
que transforma boa vontade
em desencontro,
e esforço
em atraso.

Às vezes eu chego inteiro,
mas a vida chega antes
e muda o lugar das coisas.

Já queimei o chuveiro
no dia mais frio do ano.
Como se o inverno dissesse:
“ah, é você!”

Um amigo perguntou
se não tenho medo de avião cair,
de doença grave,
dessas tragédias que viram manchete.

Respondi com a calma de quem conhece o próprio roteiro:

Com essa sorte?
Todos os aviões em que eu entrar vão pousar em segurança.
E certamente vou chegar aos 90.
E o pior:
com a lucidez intacta, nítida demais,
vendo tudo, entendendo tudo,
sentindo cada detalhe do mundo
até o último segundo
como se o destino, por ironia,
me condenasse não ao fim,
mas à permanência.

Entrego-me à lucidez

Não tenho medo dela.
Acompanha-me desde a infância.
A criança quieta, calada,
não estava ausente
estava pensando.

E como pensava.

Enquanto tantos corriam
para longe de si mesmos,
eu permaneci.
Abri a porta às minhas angústias,
puxei uma cadeira,
servi-lhes café amargo.
Desde então,
nunca mais partiram.

A lucidez não é minha amiga.
Amigos poupam.
Amigos mentem com delicadeza.
A lucidez, não.
É companheira de viagem:
dessas que não carregam tua mala,
mas apontam, com exatidão cruel,
o peso que há dentro dela.

Dormimos no mesmo quarto,
dividimos o mesmo teto,
o mesmo travesseiro,
o mesmo ar.
À noite, ouço sua respiração
misturada à minha,
como se fôssemos dois condenados
algemados pelo destino.

Ela não me intimida.
Encaro-a nos olhos,
fixamente,
sem baixar a cabeça,
sem fingir coragem.
Coragem, afinal,
é apenas o nome elegante
que damos ao medo
quando ele decide ficar.

A lucidez já levou muitos.
Fez pescoços aceitarem cordas,
fez corpos conversarem com o vazio,
fez pontes cumprirem
sua vocação mais sombria.

Conheço seu histórico.
Ainda assim, permaneço.

Sou insistente.
Sou teimoso.
E, acima de tudo,
sou incuravelmente curioso.

Quero ver
até onde ela pretende ir.
Que novas feridas
ainda pode nomear.
Que verdades
ainda restam para arruinar.

Entrego-me a ela,
mas sob uma condição:
que eu permaneça aqui.
Por curiosidade,
por teimosia,
ou por essa estranha vaidade
de querer assistir ao fim
com os próprios olhos.

Esse é o nosso trato.

Lucidez:
a inimiga que escolhi
levar comigo até o túmulo.

E, se depois dele
ela ainda existir,
já não haverá mundo
para ferir meus sentidos.

Não haverá angústia.
Nem noites em claro.
Nem esse nó antigo
apertando a garganta
metáfora tantas vezes,
talvez um dia matéria.

Haverá, enfim,
o grande silêncio.

E nele,
quem sabe,
até a lucidez
se cale.

Intimidade com o Escuro

Há uma tristeza dentro de mim
Que, como galho enxertado, vingou
Não é visita, nem passagem
Criou raiz, floresceu em silêncio
E hoje me habita por inteiro

Já não a distingo de mim

Aprendi seus hábitos
O peso exato dos seus passos
O som quase mudo com que chega
E a forma como se deita
Sem pedir licença
No lado mais fundo do peito

Fiz dela companhia
Daquelas que não se escolhe
Mas que, de tanto ficar
Acaba ficando certa

Ela me olha com firmeza
Todos os dias
Como quem sabe demais
E diz pouco

Deixe-me a sós com ela
Há coisas que não se mostram
Nem a quem se ama

Tenho medo que te toque
Que te leia
Que te leve um pouco de mim
E te ensine esse idioma escuro
Que ninguém deveria aprender

Quero te proteger
Do que em mim é noite constante

Fique com a tua luz
Mesmo que eu nunca mais a alcance

Porque eu…
Eu já me tornei este lugar

Onde a tristeza não ecoa
Ela mora

E, às vezes, penso
Que sem ela
Eu não saberia existir

Não me reconheço leve
Não me imagino inteiro
Não me desenho em cores

Fui moldado nas sombras
E quem me ensinou a ser
Foi ela

Minha mais fiel presença
Minha mais antiga verdade

A tristeza que me fez
Talvez, um dia, por cansaço ou piedade
Desate seus nós em mim
E me conduza de volta
Ao nada de onde veio

Porque o nada…
Ainda que vazio
Não fere
Não insiste
Não permanece

Espiritualidade Sem CEP Fixo

Aproveitando esse domingo de Páscoa e esse clima no mínimo estranho pra época, resolvi falar de espiritualidade. Não sou religioso, bem longe disso. Apesar de ter nascido e crescido entre o catolicismo e a igreja evangélica, minha sensibilidade sempre esteve mais interessada em olhar pra dentro do que seguir qualquer manual pronto de fé.

E não, isso não me torna melhor que ninguém. Dentro de mim também moram nuvens pesadas, daquelas que prometem tempestades memoráveis. Só que, ao observar o que muitos desses caminhos tradicionais oferecem, sempre tive a impressão de estar diante de um pacote meio estranho: distração, alívio temporário, promessas de prosperidade em troca de uma parte do salário e, de bônus, um lugar organizado pra ser velado depois que tudo acabar.

Sempre disse que o mundo é pouco pra mim. Não por grandeza, mas por inquietação. Conversas rasas me cansam, almas sem gosto me dão sono. E na religião, pra mim, não poderia ser diferente. Nunca encontrei uma que me fizesse transcender de verdade, sair de mim sem precisar deixar de ser quem eu sou.

Templos, igrejas, prédios… tudo isso me parece mais cenário do que essência. São estruturas bonitas, sim, até admiro. Funcionam bem como ponto de encontro de pessoas com um objetivo em comum. Mas essa ideia de que existe algo especial ali dentro, quase exclusivo, nunca me convenceu. O mesmo encontro poderia acontecer numa sala qualquer ou no meio de uma mata. Aliás, a mata sempre me pareceu muito mais honesta nesse sentido. Menos julgamento, menos performance, mais presença.

Porque, convenhamos, nem sempre o objetivo desses encontros é exatamente encontrar Deus. Às vezes é mais sobre observar o tênis gasto de alguém, medir o comprimento da saia alheia ou disputar silenciosamente quem parece mais “evoluído”. Uma espiritualidade curiosamente preocupada com detalhes bem pouco espirituais.

Enfim.

Acabei construindo minha própria forma de perceber o divino. Algo que não cabe em prédio, nem em regra, nem em discurso pronto. Deus, pra mim, não mora num endereço fixo. Está no que é vivo. Numa flor abrindo sem pedir licença, numa árvore que insiste em crescer, na chuva fina de uma manhã cinzenta ou naquele pôr do sol exageradamente bonito.

Deus, pra mim, não é uma figura esperando ser encontrada. É presença. É estado. É aquilo que simplesmente é. Está no que é bom, no que é meu, no que sou eu também, com todas as minhas luzes e sombras.

Ainda assim, acho bonito o espetáculo. Os rituais da igreja católica, a simbologia, os papas, os santos, o Vaticano. Tudo isso tem um valor estético enorme, quase como uma grande obra de arte coletiva. Do mesmo jeito, já me emocionei com louvores evangélicos, e não vejo problema nenhum nisso. Sentir nunca foi o problema.

O problema, talvez, seja quando tentam transformar o sentir em regra, em molde, em produto.

No fim das contas, se existe mesmo um ser por trás de tudo isso, desconfio que ele não está muito preocupado com rótulos, templos ou performances. Provavelmente só esperaria algo bem mais simples, e ao mesmo tempo muito mais difícil: que a gente se amasse mais e fizesse o bem sem precisar de plateia.

O resto… parece mais invenção nossa mesmo.