Por vezes me pego pensando na vontade quase indecente de ser eu mesmo. Uma vontade que não dá em poste, não faz barulho, mas corrói. Aquela de, ao abrir os olhos pela manhã, não precisar escolher qual personagem vestir antes de por os pés no chão. Porque, na verdade, a gente não escolhe roupa: escolhe versão.
Tem dias em que a vontade é simples: ser grosseiro quando for preciso, devolver a estupidez com juros e correção monetária, bocejar na cara de quem merece mais silêncio do que atenção. Nada demais, apenas honestidade em estado bruto. Mas não. A gente engole. A gente filtra. A gente edita a própria existência como se fosse um release institucional.
As pessoas nos sugam com a delicadeza de um aspirador industrial. Sobem em cima, se escoram, testam limites como se fôssemos elásticos. E nós? Sorrimos. “Tá tudo bem.” Afinal, somos educados. Civilizados. Sensíveis. Traduzindo, treinados para suportar mais do que deveríamos e reagir menos do que gostaríamos.
Curioso como temos coragem para tudo, menos para nós mesmos. Recomeçamos do zero como se fosse rotina, encaramos a podridão humana com estoicismo de vitrine, assinamos financiamentos em 48 vezes que terminam em três vidas. Mas na hora de dizer um “não” sem vírgula, um “chega” sem rodapé… cadê a coragem? Evaporou.
Aí começa o tribunal invisível.
“O que vão pensar de mim?”
“Será que fulano vai se ofender?”
Fulano, inclusive, que não perde um segundo de sono antes de pisar em você com a leveza de um elefante em dia de mau humor.
Vivemos pisando em ovos enquanto, do outro lado, há quem pratique sapateado na nossa cabeça. E quando, por um raro alinhamento de planetas, a gente reage, responde à altura, devolve na mesma moeda, ousa existir sem pedir licença, pronto, sentença decretada. Passamos a noite em claro, reabrindo o caso na consciência, revisando cada palavra como se fôssemos réus de um crime hediondo chamado “autenticidade”.
É nesse ponto que conheço a inveja. Sim, inveja. Daqueles que abrem a boca e disparam verdades como quem não tem nada a perder, e talvez não tenham mesmo, perderam o medo. Não carregam culpa, não colecionam remorsos, não pedem desculpa por ocupar espaço no mundo.
Crueldade? Pode ser. Mas, olhando bem, talvez seja só coragem sem maquiagem.
E nós aqui, especialistas em diplomacia emocional, seguimos aparando arestas que nem deveriam ser nossas. Lapidando o comportamento para caber no gosto alheio, como se a vida fosse uma eterna entrevista de emprego para um cargo que ninguém sabe qual é.
No fim das contas, a tal “terrível vontade de ser eu mesmo” não tem nada de terrível. Terrível mesmo é passar uma vida inteira sendo aprovado por todo mundo, menos por si.