Manual Prático para Envelhecer em Paz e Longe de Gente

Como eu me imagino com 80 anos? Primeiro ponto importante: não nutro a menor esperança de chegar lá. Mas, caso o universo resolva me castigar com tamanha longevidade, a cena já está perfeitamente montada na minha cabeça.

Vejo um senhor de barba grisalha respeitável, porque o cabelo, educadamente, despediu-se de mim lá pelos 25. Moro sozinho em um apartamento modesto, porém funcional, especialmente a parte mais importante da casa: a geladeira, sempre cheia de cervejas. Há também um computador, fiel companheiro, onde posso vomitar sentimentos, pensamentos e rancores diversos. Nada publicável, nada lapidado. Só verdade crua, dessas que ninguém pede para ler.

Filhos? Nenhum. Não quero plateia para a decadência nem olhares de pena bem-intencionados. Vida social? Deus me livre duas vezes. Prefiro matas, riachos, trilhas esquecidas. Dormir na beira de um rio, com uma caixa de isopor abastecida, obviamente. Olhar o céu noturno, contar estrelas que não se deixam contar e insistir, em reflexões intermináveis, em decifrar o mistério de tudo, sabendo muito bem que não vou chegar a lugar nenhum. E está tudo certo.

Pessoas? Quanto menos, melhor. A grande vantagem da idade é ganhar a credencial oficial para não interagir com absolutamente ninguém. Exceto, talvez, o pessoal do posto de saúde e do mercado. Embora, pensando bem, nem isso seja necessário. Dá para pedir cerveja em casa. A tecnologia, quando bem usada, é uma benção.

Quero me despedir do universo do mesmo jeito que atravessei a vida inteira: sozinho. Sozinho mesmo acompanhado. Sozinho mesmo no meio da multidão. Meu interior sempre foi o meu único território habitável e, se o Alzheimer não resolver me sabotar, quero ficar com ele até o último suspiro.

Amigos? Talvez um ou outro maluco disposto a compartilhar essa filosofia de botequim existencial. Desde que ajude a manter o estoque, claro. Dinheiro? Apenas o suficiente para que nunca falte cerveja. Luxo é exagero. Amor? Pouco o conheci em vida. Não vai ser no final que ele vai aparecer pedindo desculpa pelo atraso.

E quando o corpo não suportar mais o próprio peso, quando tudo começar a ranger e falhar, quero simplesmente deitar em alguma mata qualquer e deixar que a natureza, prática como sempre, resolva o resto. Que os corvos façam o serviço final. Sem drama, sem cerimônia, sem despedidas. Afinal, coerência também é uma forma de elegância.

E se um dia alguém der de cara com um dos meus escritos, fique tranquilo: não foi um gênio incompreendido, foi só mais um sujeito que fez questão absoluta de nunca ser normal.

Autópsia de um Sobrevivente Emocional

Vez ou outra me pego refletindo sobre o quanto do Maicon Rigon da infância ainda mora em mim. É um inventário confuso de sensações. Em alguns dias, nada parece ter mudado. Ainda sou aquele guri tímido, introspectivo, econômico nas palavras, mas com o peito em ebulição, um caldeirão de sentimentos. Em outros, me enxergo diferente. Um homem quase idoso por dentro, com a impressão de já ter atravessado tudo o que havia para atravessar, mas carregando intacta a herança do menino. Pouco falante, alérgico a interações vazias, profundamente entediado por qualquer coisa que não tenha densidade.

O curioso é que o peito já não explode tanto. E não é esse discurso confortável de quem virou pedra depois de tropeçar demais na vida. É mais frio que isso. Em algum momento, passei a compreender a insignificância da vida e da humanidade como um todo. E o mais perigoso não foi entender. Foi aprender a viver isso em plenitude, sem dramatização, sem catarse. Às vezes me assusto com a minha própria falta de emoção. Me sinto um monstro quando passo por um mendigo ou vejo um cachorro perdido e não sinto nada. Nenhum nó na garganta, nenhuma urgência heroica. Me culpo com zelo quase religioso. Eu deveria chorar. Eu deveria ajudar. Eu deveria tentar salvar o mundo antes do almoço. Mas não. Sigo. Fecho os olhos para a lama com uma tranquilidade que me condena em silêncio.

Também não sinto saudade. Não daquela que dizem ser prova de amor. Não sinto falta de familiares, amigos, rostos conhecidos, vozes queridas. A ausência não dói, não aperta, não chama. Poderia facilmente viver o resto dos meus dias sem o contato com nenhum ser humano. E isso não me soa como castigo, mas como uma hipótese perfeitamente aceitável. Às vezes até confortável. O que deveria me assustar mais não é essa possibilidade, é o fato de ela não me assustar em nada.

Não sei a explicação científica disso. Talvez traumas da infância, amores não correspondidos na adolescência, tragédias existenciais mal resolvidas, ou só o desgaste natural de quem pensou demais e sentiu de menos depois. Enfim.

Só espero que não seja uma crise existencial dos trinta e poucos, e que daqui a pouco eu não morra de amores pela vida e tatue no braço esquerdo uma frase cafona do Carpinejar. Gosto dessa escuridão. Ela não me pesa. Não me oprime. Faz parte de mim. É o mais verdadeiro que consigo ser. Felicidade em excesso, para mim, soa como desespero maquiado, como falsidade iluminada demais para ser honesta.

Por fim. Acho que aquele guri nunca morreu. Ele ainda está aqui, sentado num canto escuro, observando tudo com a mesma seriedade silenciosa. Quem morreu fui eu como projeto inteiro. O resto é continuidade automática, uma versão funcional de alguém que já não acredita muito, mas segue vivendo por pura teimosia estética.

Entre Tábuas, Bilhetes e o Incômodo de Existir no Tempo

Já escrevi em outro momento sobre essa minha paixão nada saudável por coisas antigas. Lugares, objetos, cenários, músicas, artes em geral. Mas chamar de paixão talvez seja até um eufemismo elegante. É algo mais próximo de uma obsessão silenciosa, dessas que a psicologia deve rotular com um nome bonito, em latim, para dar ares de normalidade ao que claramente não é. Alguma engrenagem mal ajustada da infância, alguma saudade de um tempo que nem vivi. Mas pouco importa.

Estamos em reforma na empresa. Derrubaram um revestimento acústico e, sem querer, abriram uma fenda no tempo. Paredes que não viam a luz havia mais de vinte e cinco anos reapareceram, nuas, ásperas, honestas. No meio delas, um bilhete pendurado, deixado por um colega em 2001. Um pedaço de papel esquecido, sobrevivente de governos, modas, crises, tecnologias e promessas que não se cumpriram.

Aquilo me acertou como um soco seco no estômago. Não pela parede em si, mas pelo que ela carregava em silêncio. Olhei para aquele espaço como quem encara uma cápsula do tempo improvisada. Passei a mão devagar, quase com respeito, como se o toque pudesse absorver duas décadas de vida, vozes, pressas, risos e cansaços entranhados no reboco. Um gesto inútil, eu sei. Mas profundamente humano.

Sou pouco viajado. O motivo é simples e nada romântico. Trabalho, boletos, limites financeiros. Ainda assim, fico imaginando qual seria minha reação diante de algo realmente histórico. Ruínas deixadas por povos que desapareceram sem pedir licença. Monumentos erguidos por mãos anônimas, movidas por fé, medo ou vaidade. Talvez eu não chorasse. Talvez ficasse apenas em silêncio, que é a única forma sincera de reverência que conheço.

O curioso é que não consigo colocar em palavras o que isso tudo provoca em mim. E olha que me dou bem com elas. Mas, nesse ponto, elas escapam, escorrem pelos dedos, se recusam a obedecer. Talvez porque algumas sensações não querem ser explicadas. Querem apenas ser sentidas, como um incômodo permanente no peito.

Se isso for um distúrbio mental ou um traço torto da personalidade, espero sinceramente nunca ser curado. Gosto de olhar o mundo com esse filtro meio melancólico, meio ácido. Gosto de lembrar que tudo o que vejo, por mais novo, já foi outra coisa. Já serviu a outros propósitos. Já foi cenário de histórias que ninguém mais conta. Já foi palco de acontecimentos que só o céu e, quem sabe, a eventual existência de um Deus foram capazes de testemunhar.

Talvez seja isso. Não é amor pelo passado. É respeito pelo tempo. Uma consciência incômoda de que somos apenas mais uma camada fina sobre a parede. E que, cedo ou tarde, alguém vai derrubar o revestimento e encontrar vestígios de nós. Um rabisco, um bilhete esquecido, ou apenas o silêncio.

Solitude Gourmet para Almas Barulhentas

Os grandes filósofos do mundo sempre enalteceram a solidão. Falavam dela como um templo. Um território sagrado onde o homem, despido de plateia, encontrava a própria verdade. Diziam que era somente nela que se alcançava alguma forma de plenitude, ou pelo menos um vislumbre honesto de si mesmo. Curiosamente, a palavra voltou à moda. Mas, como tudo hoje, precisou de maquiagem. Agora atende por “solitude”. Soa europeu, minimalista, quase terapêutico. Cabe numa bio de Instagram com foto em preto e branco.

Permitam-me discordar com entusiasmo.

A solidão dos filósofos não tinha Wi-Fi. Não tinha algoritmo sugerindo o próximo pensamento. Não tinha notificações piscando como vaga-lumes histéricos implorando atenção. Era silêncio real. Silêncio que doía. Silêncio que ampliava cada ruído interno. Era o homem sentado diante da própria consciência, sem filtro, sem trilha sonora, sem a possibilidade de deslizar o dedo para fugir do desconforto.

Hoje chamam de solidão ficar jogado no sofá maratonando séries policiais enquanto o celular vibra a cada dez segundos. Chamam de solitude assistir a reels de danças, receitas milagrosas e frases motivacionais que não sobrevivem a uma segunda leitura. Dizem que estão sozinhos enquanto conversam simultaneamente com vinte pessoas, opinam sobre tudo e são bombardeados por um fluxo infinito de ideias prontas. Isso não é solidão. É superlotação mental.

Nesse submundo digital você pode estar fisicamente só, mas espiritualmente acompanhado por uma multidão de vozes que pensam por você, sentem por você e até se indignam por você. É a solidão mais barulhenta da história da humanidade. Uma solidão com trilha sonora, com publicidade direcionada e com roteiro escrito por terceiros.

Eu desafio qualquer entusiasta da “solitude gourmet” a experimentar a verdadeira solidão. Feche tudo. Desligue tudo. Sente-se num quarto vazio. Sem música. Sem tela. Sem distração. Apenas você e o eco dos próprios pensamentos. Faça isso por algumas horas. Depois me conte sobre a experiência transcendental. A maioria não suportaria quinze minutos sem tentar negociar com o próprio tédio.

Sabem por quê? Porque enlouqueceriam.

A verdadeira solidão exige a tua essência por completo. Não aceita máscaras sociais, personagens bem ensaiados ou versões editadas de si mesmo. Não há curtidas para suavizar suas contradições. Não há comentários para validar suas desculpas. É você diante do espelho cru da existência, percebendo o quanto é pequeno, incoerente e, muitas vezes, medíocre. É olhar sem o filtro de Instagram para a própria vaidade, para os próprios vícios, para a coleção de pecados cuidadosamente justificados ao longo da vida.

É na solidão autêntica que descobrimos o que realmente somos quando ninguém está olhando. E isso raramente é bonito. A solidão verdadeira não é estética. Não rende boas fotos. Não vira legenda inspiradora. Ela confronta. Expõe. Humilha. E, se você tiver coragem suficiente para não fugir, ela também lapida.

Se não nos assustarmos com o que vemos nesse mergulho, podemos transformar essa descoberta em crescimento. Podemos corrigir rotas, rever valores, abandonar ilusões. Mas isso exige maturidade. Exige disciplina. Exige uma honestidade brutal que não cabe no feed.

A maioria prefere a solidão performática. A que pode ser exibida. A que rende status de pessoa profunda e independente. A solidão que vem acompanhada de delivery, streaming e conexão 5G. Uma solidão confortável, higienizada e perfeitamente compartilhável.

Portanto, encerro com meu mais sincero e ácido desprezo às pessoas que se vangloriam de aprender a ser sozinhas enquanto jamais enfrentaram um minuto do silêncio ensurdecedor que mora dentro de si. Falar de solitude é fácil. Difícil é sobreviver à própria companhia quando o mundo finalmente se cala.

E quase ninguém quer que o mundo se cale. Porque, no fundo, o barulho externo é apenas a forma mais eficiente de fugir de si mesmo.

Finitude: o único privilégio verdadeiramente democrático

O simples fato de termos a mais absoluta certeza de que, em algumas décadas, na melhor das hipóteses, não estaremos mais aqui, já deveria ser suficiente para olharmos o mundo e as pessoas com outro tipo de respeito. Ou de deboche. Ou ambos. Em pouco tempo, a matéria orgânica que chamamos de corpo estará apodrecendo dentro de uma caixa de concreto enfiada no chão. A parte superior, aquela que chamamos de rosto e que por algum motivo estranho virou a nossa identidade oficial, estará reduzida a um crânio bem desenhado, absolutamente neutro, sem opinião, sem mágoas e sem boletos. Quem optar pela cremação nem isso deixará de herança.

Essa conversa nojenta e mórbida serve apenas para me lembrar de que não faz o menor sentido perder noites de sono quando brigo com minha esposa ou quando o salário do mês mal cobre as contas. No final, nada vale a pena mesmo. E não no sentido adolescente da frase, mas no sentido literal, concreto, enterrável.

Esse pessimismo pode chegar até você como um balde de água gelada. Prefiro chamar de realismo. Se levássemos essa lógica ao pé da letra, provavelmente nos mataríamos, morreríamos cedo ou, na versão mais civilizada, acabaríamos presos. A sociedade só funciona porque somos mestres em autoilusão. Inventamos importância, propósito, metas, status, hierarquias invisíveis e pequenas mentiras emocionais para justificar o esforço de levantar da cama. E está tudo bem. É o preço da convivência.

O ponto aqui é simples e ao mesmo tempo indigesto. Tudo o que acontece na nossa existência vale absolutamente nada. Não entro na questão espiritual, isso é outra história e outro tipo de consolo. Mas o bilionário e o mendigo de rua caminham para o mesmo desfecho silencioso, sem aplausos e sem diferenciação no roteiro final. O túmulo não se impressiona com currículo.

E talvez só isso já bastasse para aprendermos a levar tudo menos a sério. A errar com mais leveza, a fracassar com mais humor, a discutir menos como se estivéssemos defendendo verdades eternas quando, no fundo, estamos apenas adiando o inevitável. Estamos como uma criança presa na cadeirinha do almoço, hipnotizada por um celular berrando Galinha Pintadinha, enquanto a mãe aproveita a distração para enfiar o garfo com comida goela abaixo. A vida faz exatamente isso. Nos entretém com cores, sons, dramas e pequenas urgências enquanto empurra, com paciência e método, o fim para dentro. A finitude não é uma tragédia. É um alívio. O único elemento verdadeiramente justo dessa bagunça toda.

Manual Prático para Não Ser Eu

Numa das minhas imersões em mim mesmo, dessas que mais parecem afogamentos silenciosos, percebi que, na infância, eu queria ser muita gente. Queria ser o Silvio Santos, o Chaves, o Chapolin, o Ratinho, o Máskara. Vestia as roupas, copiava os gestos, imitava as vozes e, no teatro solitário do quarto, fingia com convicção que não era eu. O personagem era tão bem encarnado que eu desaparecia por completo. Não era fantasia, era substituição. Eu não interpretava, eu me anulava.

Com o tempo, isso deixou de ser brincadeira e virou método. Passei a fazer o mesmo com pessoas reais, gente admirável, gente admirada. Queria ser como elas. Não por inveja, nem por ciúme, tampouco por competição. Era algo mais limpo e, justamente por isso, mais perigoso. Eu admirava tanto que tentava copiar. E, ao copiar, me apagava outra vez. Um desaparecimento educado, quase elegante. Distúrbio de personalidade? Talvez.

Hoje, curiosamente, esqueci tudo isso. Não porque tenha alcançado a plenitude de ser quem sou, longe disso. Esqueci porque entrei no automático da vida. Vivo no modo econômico de emoções. Pouco sinto, quase não paro, raramente respiro fundo. Existe uma vantagem nisso. Assim, consigo sobreviver à podridão do mundo e à insuportabilidade do cotidiano. A anestesia ajuda a atravessar os dias. O problema é que, mais uma vez, o preço é o mesmo. Eu me anulo por completo.

A reflexão que me atravessou veio como um incômodo tardio. E se eu passasse a viver como eu mesmo? E se eu passasse a me admirar, a gostar de ser quem sou, com todas as falhas mal acabadas e os cantos tortos? E se aqueles personagens da infância tivessem sido apenas ensaios para o papel principal, o Maicon Rigon? E se, pela primeira vez, eu tivesse prazer em habitar a mim mesmo?

Talvez viver seja isso. Um longo e cansativo processo de desaprender a ser os outros. Um exercício diário de não fugir do próprio rosto no espelho. Não sei se consigo. Ainda não consegui. Mas a ideia existe, e isso já é alguma coisa.

Perdoem-me por alugar um triplex da sua cabeça em pleno sábado ensolarado de janeiro. Fica apenas a provocação. Não alcancei essa versão de mim, mas ela entrou oficialmente na lista. A lista dos sonhos que ainda pretendo realizar antes de me tornar apenas memória.

A Saudade de Não Entender o Mundo

Depois de um tempo ausente, resolvi voltar para escrever sobre a dádiva da ignorância. Sim, dádiva, palavra estranha para algo que passamos a vida inteira tentando abandonar, mas que, ironicamente, é o que mais nos faz falta.

A maior saudade da minha vida é de quando eu não sabia de nada. Eu devia ter uns seis ou sete anos. O mundo ainda não tinha sido explicado, rotulado, estragado. As coisas simplesmente eram. Eu as olhava, mesmo as menores, as mais banais, como se fosse a última vez. Ou talvez a primeira de verdade.

Lembro da primeira vez em que vi o sol nascer. Não foi apenas um evento astronômico, foi quase um delito. Eu tinha a sensação de estar fazendo algo proibido, como se estivesse desafiando uma regra invisível do mundo adulto. A impressão era a de ser o único acordado em toda a existência. E, de certa forma, eu era. Não porque o resto do mundo estivesse literalmente dormindo, mas porque ninguém mais estava vendo. Não como eu via. Não com aquele espanto cru, sem filtros, sem cinismo.

Naquele instante, o mundo não era um lugar, era um acontecimento.

Hoje, depois de tantos anos, cá estou eu. Dormindo também. Como o resto da humanidade. Não apenas no corpo, mas no olhar. Desperdiçando pores e nascimentos de sol porque dormir até as nove parece mais urgente quando se vive permanentemente cansado, não de esforço físico, mas de consciência. Saber demais cansa. Entender demais anestesia.

A vida adulta nos promete lucidez, mas entrega exaustão. Em troca da compreensão, perdemos o encanto. Em troca da experiência, ganhamos desconfiança. Passamos a chamar de maturidade aquilo que, muitas vezes, não passa de uma desistência elegante de se maravilhar.

Tenho saudade daquela criança que nada sabia do mundo. Que nada sabia da podridão das pessoas, das intenções ocultas, das pequenas crueldades normalizadas. Saudade de quando o mal ainda não tinha nome e, por isso, não ocupava tanto espaço. Hoje sabemos demais, e quase nada disso nos torna melhores. Apenas mais duros. Mais cínicos. Mais prontos para dormir enquanto o sol nasce.

O mais cruel é perceber que não foi o mundo que mudou tanto. Fomos nós. O mundo sempre foi imperfeito, mas antes ele ainda tinha o direito de nos surpreender. Agora, tudo parece previsível, calculado, gasto. A ignorância não era falta, era proteção. Um véu delicado que nos permitia existir sem o peso constante de entender tudo.

Queria voltar a ser aquela criança. Não para fugir da realidade, mas para reencontrar a capacidade de vê-la sem esse fardo pesado de desencanto. Queria reaprender a olhar antes de julgar, a sentir antes de explicar, a acordar antes do mundo, nem que fosse só para lembrar que ainda existe algo sagrado em estar vivo.

Talvez crescer não seja aprender mais, mas lembrar do que esquecemos. E talvez a verdadeira sabedoria esteja em admitir que, em algum ponto da vida, saber demais nos fez perder exatamente aquilo que mais importava.

O que é a vida?

Uma pergunta simples demais para respostas pequenas. Daquelas que surgem numa roda de amigos depois da décima terceira cerveja, quando a lucidez já foi embora, mas a consciência, essa desgraçada resiliente, resolve ficar. Mesmo bêbado, continuo sóbrio o suficiente para ser assombrado por ela.

Por que tudo existe se o nada parecia uma opção tão elegante? Como isso tudo começou? Foi acidente, projeto, tédio divino? Existe um criador ou essa é só a nossa necessidade infantil de colocar um responsável no caos? E se existe, quem teve a péssima ideia de criar o criador? Provavelmente outro criador. E assim seguimos numa fila infinita de gerentes cósmicos, nenhum disponível para atendimento.

Nascer, crescer, morrer. Um roteiro curto, repetitivo e sem direito a reembolso. No meio disso, espera-se que sejamos honestos, bondosos, éticos. Curioso como a moral nos é cobrada com rigor, mesmo sabendo que o destino final do justo e do canalha é rigorosamente o mesmo. O túmulo é o grande igualador social. Democrático até demais.

Há algo de profundamente injusto na ideia de que tudo termina aqui. Todo esse esforço emocional, todas as dúvidas, culpas, afetos e traumas, tudo isso para virar silêncio. Um investimento alto demais para um retorno tão duvidoso.

Minha espiritualidade, essa entidade incômoda, sempre foi honesta comigo. Nunca prometeu finais felizes, apenas verdades duras e desconfortáveis. Já meu lado obscuro, muito mais persistente, adora cochichar que tudo é em vão, que o universo não se importa, que a existência é só um acidente prolongado. E talvez ele esteja certo. O que é ainda pior.

Sentimentos e consciência. Esse luxo caro e inútil que só os humanos parecem pagar. Nunca vi um cachorro em crise existencial olhando para o pôr do sol e se perguntando sobre a origem do ser. Nunca vi um macaco angustiado com o sentido da própria finitude. Talvez o problema seja exatamente esse. Pensamos demais. Refletimos demais. Criamos abismos onde poderíamos simplesmente deitar e dormir. Quem sabe viver como primatas ou cachorros fofos não seja sabedoria disfarçada de ignorância.

Talvez essas respostas nunca venham. Pelo menos não neste plano. E se houver outro, onde a consciência sobreviva, onde os sentimentos atravessem a morte junto conosco, aí sim estarei completamente ferrado. Porque nada é mais cansativo do que existir. Exceto, talvez, existir para sempre sabendo disso.

A Contabilidade Secreta do Amor

Se eu amar alguém
E esperar na volta um valor equivalente,
Que pese na mesma balança,
Não é amor —
É contrato.
É negócio travestido de sentimento.

O amor verdadeiro, esse sim,
Habita nos gestos mudos,
Na proteção que o outro jamais notará,
No cuidado gratuito,
No afeto que não exige recibo.

E se o retorno vier torto,
Ou nem vier —
Se vier desdém, indiferença, desprezo —
Aí está a prova final:
Se o teu peito ainda pulsar por essa pessoa,
Mesmo ferido,
Mesmo ignorado,
Então mereces que o universo,
Num descuido qualquer,
Te devolva o amor que ofereces
Sem cálculo e sem vaidade.

Essa história bonita
De “valorizar-se”,
De “priorizar-se”,
Funciona bem nos vídeos de autoajuda,
Nos discursos higienizados
De influenciadores famintos por aplausos
De almas autocentradas.

Mas se, por um instante que seja,
Tiveres o privilégio de sentir o amor que não negocia,
O amor que não pede troco,
O amor que simplesmente é,
Então tua breve passagem por aqui
Já se justificou inteira.

Debaixo da Armadura

Tá bom, vai — eu confesso.
Essa casca de durão é só fachada,
um couro grosso que o tempo ensinou.
A rabugice, essa sim, é verdadeira,
mas a história de ter virado pedra
depois das rasteiras da vida…
ah, isso é puro teatro.

Ainda me derreto com cachorros fofos,
ainda desabo em vídeos de reencontros —
soldados voltando pros braços de pais e esposas,
como se o mundo enfim respirasse de novo.
E é nesses instantes que percebo:
a vida ainda pulsa aqui dentro.

E onde pulsa vida,
há coração.
Há emoção.
Há uma teimosia bonita
que insiste em recomeçar,
mesmo que no automático,
mesmo que só por hábito,
mesmo que doendo,
mesmo que sem garantia.

Porque o recomeço também é instinto,
é músculo treinado,
é semente que brota
mesmo na terra mais cansada.

E enquanto houver esse coração — torto, ferido, mas vivo —
haverá fagulha.
Haverá respiro.
Haverá esperança.