Como eu me imagino com 80 anos? Primeiro ponto importante: não nutro a menor esperança de chegar lá. Mas, caso o universo resolva me castigar com tamanha longevidade, a cena já está perfeitamente montada na minha cabeça.
Vejo um senhor de barba grisalha respeitável, porque o cabelo, educadamente, despediu-se de mim lá pelos 25. Moro sozinho em um apartamento modesto, porém funcional, especialmente a parte mais importante da casa: a geladeira, sempre cheia de cervejas. Há também um computador, fiel companheiro, onde posso vomitar sentimentos, pensamentos e rancores diversos. Nada publicável, nada lapidado. Só verdade crua, dessas que ninguém pede para ler.
Filhos? Nenhum. Não quero plateia para a decadência nem olhares de pena bem-intencionados. Vida social? Deus me livre duas vezes. Prefiro matas, riachos, trilhas esquecidas. Dormir na beira de um rio, com uma caixa de isopor abastecida, obviamente. Olhar o céu noturno, contar estrelas que não se deixam contar e insistir, em reflexões intermináveis, em decifrar o mistério de tudo, sabendo muito bem que não vou chegar a lugar nenhum. E está tudo certo.
Pessoas? Quanto menos, melhor. A grande vantagem da idade é ganhar a credencial oficial para não interagir com absolutamente ninguém. Exceto, talvez, o pessoal do posto de saúde e do mercado. Embora, pensando bem, nem isso seja necessário. Dá para pedir cerveja em casa. A tecnologia, quando bem usada, é uma benção.
Quero me despedir do universo do mesmo jeito que atravessei a vida inteira: sozinho. Sozinho mesmo acompanhado. Sozinho mesmo no meio da multidão. Meu interior sempre foi o meu único território habitável e, se o Alzheimer não resolver me sabotar, quero ficar com ele até o último suspiro.
Amigos? Talvez um ou outro maluco disposto a compartilhar essa filosofia de botequim existencial. Desde que ajude a manter o estoque, claro. Dinheiro? Apenas o suficiente para que nunca falte cerveja. Luxo é exagero. Amor? Pouco o conheci em vida. Não vai ser no final que ele vai aparecer pedindo desculpa pelo atraso.
E quando o corpo não suportar mais o próprio peso, quando tudo começar a ranger e falhar, quero simplesmente deitar em alguma mata qualquer e deixar que a natureza, prática como sempre, resolva o resto. Que os corvos façam o serviço final. Sem drama, sem cerimônia, sem despedidas. Afinal, coerência também é uma forma de elegância.
E se um dia alguém der de cara com um dos meus escritos, fique tranquilo: não foi um gênio incompreendido, foi só mais um sujeito que fez questão absoluta de nunca ser normal.