Depois de um tempo ausente, resolvi voltar para escrever sobre a dádiva da ignorância. Sim, dádiva, palavra estranha para algo que passamos a vida inteira tentando abandonar, mas que, ironicamente, é o que mais nos faz falta.
A maior saudade da minha vida é de quando eu não sabia de nada. Eu devia ter uns seis ou sete anos. O mundo ainda não tinha sido explicado, rotulado, estragado. As coisas simplesmente eram. Eu as olhava, mesmo as menores, as mais banais, como se fosse a última vez. Ou talvez a primeira de verdade.
Lembro da primeira vez em que vi o sol nascer. Não foi apenas um evento astronômico, foi quase um delito. Eu tinha a sensação de estar fazendo algo proibido, como se estivesse desafiando uma regra invisível do mundo adulto. A impressão era a de ser o único acordado em toda a existência. E, de certa forma, eu era. Não porque o resto do mundo estivesse literalmente dormindo, mas porque ninguém mais estava vendo. Não como eu via. Não com aquele espanto cru, sem filtros, sem cinismo.
Naquele instante, o mundo não era um lugar, era um acontecimento.
Hoje, depois de tantos anos, cá estou eu. Dormindo também. Como o resto da humanidade. Não apenas no corpo, mas no olhar. Desperdiçando pores e nascimentos de sol porque dormir até as nove parece mais urgente quando se vive permanentemente cansado, não de esforço físico, mas de consciência. Saber demais cansa. Entender demais anestesia.
A vida adulta nos promete lucidez, mas entrega exaustão. Em troca da compreensão, perdemos o encanto. Em troca da experiência, ganhamos desconfiança. Passamos a chamar de maturidade aquilo que, muitas vezes, não passa de uma desistência elegante de se maravilhar.
Tenho saudade daquela criança que nada sabia do mundo. Que nada sabia da podridão das pessoas, das intenções ocultas, das pequenas crueldades normalizadas. Saudade de quando o mal ainda não tinha nome e, por isso, não ocupava tanto espaço. Hoje sabemos demais, e quase nada disso nos torna melhores. Apenas mais duros. Mais cínicos. Mais prontos para dormir enquanto o sol nasce.
O mais cruel é perceber que não foi o mundo que mudou tanto. Fomos nós. O mundo sempre foi imperfeito, mas antes ele ainda tinha o direito de nos surpreender. Agora, tudo parece previsível, calculado, gasto. A ignorância não era falta, era proteção. Um véu delicado que nos permitia existir sem o peso constante de entender tudo.
Queria voltar a ser aquela criança. Não para fugir da realidade, mas para reencontrar a capacidade de vê-la sem esse fardo pesado de desencanto. Queria reaprender a olhar antes de julgar, a sentir antes de explicar, a acordar antes do mundo, nem que fosse só para lembrar que ainda existe algo sagrado em estar vivo.
Talvez crescer não seja aprender mais, mas lembrar do que esquecemos. E talvez a verdadeira sabedoria esteja em admitir que, em algum ponto da vida, saber demais nos fez perder exatamente aquilo que mais importava.
