Reflexãozinha dominical

Sinto, desde sempre, que minha caminhada por aqui será breve — embora eu não saiba o que significa “breve” num mundo onde cem anos ainda cabem dentro de um suspiro. É como se eu estivesse vivendo com uma lâmina encostada na pele: cada gesto, cada olhar, cada som entra fundo demais, como uma agulha afiada atravessando a carne. Talvez seja por isso que tento sorver tudo: degustar o tempo, os corpos, as emoções, como se cada instante fosse um gole raro e caro. Mas eis o paradoxo: o que é “pouco” para um ser humano? Morrer aos 31 ou aos 91? Até cem anos me parece ridiculamente insuficiente para explorar esse circo grotesco que chamam de mundo.

Os prazeres são tantos — carnais, emocionais, espirituais — e ainda assim parecem amostras grátis de um banquete infinito ao qual nunca teremos acesso completo. A “espiritualidade genuína”, se é que existe, deve rir de nós como uma velha empregada que observa o patrão tropeçar no tapete. Quero provar tudo antes de me tornar um corpo frio costurado por um legista mal-pago.

No fundo, pouco me importa o que vem depois. Provavelmente voltarei ao mesmo lugar onde estava em 1920 ou na época de Cristo — sabe onde? Pois é, nem eu. Mas o mundo girava, sem mim. As coisas aconteciam. Mesmo sem minha percepção de existência. Gira agora, com essa minha presença descartável. E vai continuar girando quando eu deixar de existir, com a mesma elegância desinteressada de um ventilador quebrado.

Talvez, depois, eu volte para esse lugar neutro, sem dor, sem lembrança, sem essa palhaçada chamada consciência. Um anonimato cósmico tão absoluto que nem sequer será “meu”. Quem sabe até eu já esteja lá agora, sonhando este sonho que vocês chamam de vida.

Mas enfim, é domingo. Reflexãozinha leve para abrir o apetite. Não deem bola. A vida é curta — ou longa demais. Difícil saber.

Poema sem título

Apelidaram de orgasmo o ápice de um corpo em êxtase,
Mas ainda não há nome para o que sinto contigo.
Porque “prazer” se alcança até sozinho,
E é muito pouco para definir.

É mais que pele,
É mais que carne.
É uma explosão que a boca não sabe pronunciar.
Até tenta,
Mas sempre resulta em gemidos indecifráveis.

Quando entrelaço meu corpo no teu,
Não é só sexo,
Não é só amor,
É a fusão dos dois —
O ápice de um e de outro.
Mas ainda falta o verbo
Que defina o delírio de nós dois.

O olhar que grita, a alma que responde,
O suor que se mistura, o corpo que já não sabe
Onde começa um e onde termina o outro.
É fome e sede,
É o gosto do instante,
Do agora,
Do impossível de se nomear.

Mas a pele, ah, a pele…
Com o toque que fere e salva,
Com o cheiro que se entranha
Como se o meu corpo fosse feito
Só para o teu.

É a união do corpo e da alma,
O vazio e o preenchimento,
A busca e o encontro.

Ainda não deram nome
Ao nosso amor insano,
Ao delírio que desafia a língua.
Mas, se um dia esse nome existir,
Que ele seja uma homenagem a ti —
Que te celebre em pelo menos duas sílabas,
E que seja cantado,
Gravado no coração da língua portuguesa.
E de língua entendemos bem não é mesmo?

Deem um nome a essa loucura, por favor!
Para que se eternize,
Não só em mim,
Mas em todo aquele
Que um dia ousou
Gozar e amar ao mesmo tempo.

Mantimentos

Vomitar palavras
até que se tornem algo —
um artesanato de sentidos
à beira da loucura ou da demência.

Há tanto a dizer
em infinitas combinações possíveis.
Imagine
enfileirar letras capazes de destruir
ou reconstruir alguém,
como quem maneja delicadamente um bisturi ou um pincel.

Afinal, o que importa mais?
O emissor ou o receptor?
Um poema de Machado,
Pessoa ou Clarice,
lido por alguém sem sensibilidade
é como lançar uma semente em chão árido:
não brota, não floresce,
mas guarda potencial em silêncio.

Enfim, continuo amando as palavras
mais do que tudo.
Elas me aliviam do peso da vida
e da sombra da morte.

E quando sou receptor,
leio poemas como quem se alimenta
e guarda mantimentos numa dispensa
para o resto da vida —
provisões de eternidade
para dias de fome interior.

Altar do Teu Céu

Teu cheiro me chama,
Sussurra-me por caminhos que não sei nomear,
Mas sei que me conduzem a algum lugar
Onde as palavras se perdem,
E onde os sentidos encontram abrigo.

Onde mora teu silêncio,
Lá, meu coração se inclina,
Porque é no vácuo das palavras
Que o mundo se revela em olhares,
Em gestos que falam mais que qualquer verso.

Teu cheiro me arrasta
Para algum lugar que não sei definir,
Talvez seja o que ousaram chamar de céu,
Mas já provei uma fresta dele no brilho do teu olhar,
Um aperitivo do infinito que me espera.

Sim, teu olhar é uma janela aberta para o eterno,
Um portal que me leva ao céu,
Ao paraíso —
Não pelo que rezam os homens,
Mas pelo altar que é teu corpo,
Onde me ajoelho e suplico
Para que a porta do teu céu
Nunca se feche diante de mim.

E se há melancolia na vida,
Que ela seja apenas sombra diante do teu clarão,
Porque amar-te é mergulhar no absoluto,
É arder no fogo que teu ser acende em mim,
É perder-se e, ao mesmo tempo, encontrar o infinito
Em cada curva tua,
Em cada respiro que rouba meu silêncio.

Teu cheiro me chama…
E eu sigo, cego e devoto,
Por caminhos que só teu amor ilumina,
Até que eu me perca de vez
No altar do céu que mora em ti.

A Hipocrisia da Hierarquia: O Homem e Seus Míseros Reflexos

Imagina, então, um homem envelhecido. Não importa a idade exata, mas ele beira os 80, e seu corpo arrastado pela vida reflete cada uma das escolhas que fez. Um boné amarelo e esfumaçado, a pele marcada pelos anos de sol e desleixo, um cheiro que denuncia o descaso — álcool misturado com a falta de banho, ou talvez com a falta de tudo, inclusive de consideração. Ele anda devagar, como se o peso da existência estivesse, por fim, dando-lhe algum tipo de vingança. Mãos calejadas, encardidas pelo contato com a madeira da madeireira onde passou a maior parte da vida, embriagadas pela mesma bebida que lhe dá conforto, mas o afasta da realidade. E, quem sabe, da humanidade.

Agora, você está na praça central da cidade. É domingo, a tarde quente, e o velho se arrasta por ali, sem direção, sem companhia, talvez sem esperança. Como você o trataria? Qual seria o seu olhar? O que diria a ele? Ou melhor, o que você pensaria enquanto o vê passar? Ele é invisível, não é? Não pela sua idade, mas pela condição em que se encontra. Qualquer vestígio de respeito que poderia receber evaporou há muito tempo. E o que se faz com quem não tem mais nada para oferecer? O que se faz com quem já não é mais um “alguém”, mas sim apenas um “qualquer um”?

Agora, imagine o mesmo homem. O mesmo boné, o mesmo odor, a mesma expressão que denuncia um sofrimento vivido, mas há algo diferente. Seu passado é outro. Ele fez história. Fez fortuna. Agora é o empresário aposentado, o político influente, o dono de uma vasta rede de imóveis na cidade. Ele era uma figura sempre presente nas reuniões de Rotary e Lions, na primeira fileira das grandes cerimônias. Todos os olhos estavam sobre ele, e todos o respeitavam — ou fingiam que o respeitavam. A conta bancária dele, com mais zeros do que um ser humano deveria ser capaz de contar, talvez fosse maior que o PIB de uma cidade pequena. Mas, ainda assim, seu comportamento é o mesmo: desleixado, imune às regras da civilidade, e, talvez, de uma humanidade mais profunda.

Agora me diga: seria o tratamento que você daria a ele o mesmo que você daria ao primeiro velhinho? Ou, no fundo, seu olhar seria diferente? Você falaria com ele de maneira igual? O tom de voz não mudaria? O sorriso no rosto não seria mais largo, mais falso, mais preocupado com a impressão que você deixa do que com a realidade do homem em si? Se sim, você, sem dúvida, é uma exceção. Uma raridade. Ou talvez uma ilusão de virtude que se desfaz ao encarar a profundidade da sua hipocrisia.

Porque no final das contas, a verdadeira medida de um ser humano não está em como ele trata quem pode lhe dar algo. Não está em como ele trata os seus pares, seus amigos, ou até mesmo seus filhos. A verdadeira medida de um ser humano está em como ele trata o porteiro, o garçom, o mendigo na esquina. Está em como ele conversa com quem não pode lhe oferecer nada, além de um sorriso, um gesto de respeito, ou um simples olhar de dignidade.

É fácil ser educado com quem pode fazer você subir na vida. Difícil é manter a compostura quando se trata de quem não tem nada a oferecer. E, quando queremos realmente conhecer alguém, a melhor maneira de o fazer é observar como ele trata os invisíveis — aqueles que estão à margem, aqueles que não importam, ou melhor, aqueles de quem ele não pode esperar nada. E é nesse ponto que se revela o verdadeiro caráter, o verdadeiro interesse.

Se você, ao ler isso, se sente desconfortável, talvez esteja mais perto da verdade do que imagina. Porque, como bem disse Friedrich Nietzsche: “Se você mata uma barata, você é um herói. Se você mata uma borboleta, você é mau. A moralidade tem critérios estéticos”. E, meu caro, não há mais nada estético na sociedade do que as hierarquias.

O incômodo da alegria alheia

Nunca foi meu objetivo parecer agradável, santo ou o bom samaritano. Se ao leres este texto achares que sou um poço de arrogância e prepotência, estás perigosamente próximo da verdade. Escrever sobre meus prós seria infinitamente mais confortável — um desfile de virtudes, benevolências e feitos dignos de palmas. Mas sempre preferi habitar meu lado obscuro, aquele subterrâneo onde deposito a podridão que carrego e que quase ninguém vê.

Hoje, por exemplo, resolvi confessar o incômodo que me causa a felicidade alheia. Sim, soa infantil, coisa de criança invejosa porque o coleguinha tem um doce e eu não. O sentimento é o mesmo — só que mais sofisticado, mais cínico, menos inocente. Nunca invejei nada de concreto: nem dinheiro, nem bens, nem amores alheios. Sempre achei que a felicidade nasce de dentro pra fora. Já vi milionários se suicidarem em apartamentos de luxo e mendigos cantarolarem desafinados debaixo de pontes. A equação nunca fecha.

Mas o excesso de felicidade… ah, isso sim me corrói. Talvez seja inveja, confesso — não da felicidade em si, mas da capacidade que alguns têm de ignorar deliberadamente a podridão do mundo. A ignorância, já dizia um poeta, é de fato uma dádiva. Quanto mais barulhenta a felicidade de alguém, quanto mais histérica sua capacidade de externar contentamento, menor costuma ser sua intimidade com a realidade. Essa frase é clichê, decorada, batida — todo ser alfabetizado já ouviu. Mas o detalhe que se perde é outro: a arte que alguns dominam de vestir personagens para anestesiar a própria consciência. Uma fuga teatral daquilo que realmente são.

Eu, ao contrário, não consigo. Tudo o que li, vivi, constatei, meditei e filosofei me impede de sustentar momentos de felicidade por mais de três minutos. A realidade está sempre à espreita, como uma arma engatilhada na nuca, pronta para disparar no instante em que ouso relaxar.

E então, ao ver os outros rirem alto, comemorarem efusivamente, publicarem suas doses diárias de euforia, o incômodo me atravessa. Não por desejar o que eles têm — mas por invejar a estupenda capacidade que possuem de acreditar nos próprios papéis. De encarnar caricaturas cuidadosamente montadas para fugirem de si mesmos. De serem felizes, mesmo que de mentira.

Talvez, no fundo, o problema não seja a felicidade deles. Talvez seja apenas eu, lúcido demais para me permitir ser feliz.

Raio-X da Ilusão

Olho com atenção para os meus semelhantes todos os dias. Reflito, observo cada gesto, cada movimento, cada palavra solta ao acaso. São justamente nas pequenas atitudes que faço um raio-X momentâneo da alma de quem cruza meu caminho. Não é ciência, tampouco filosofia — é uma espécie de defesa instintiva, um preconceito que carrego comigo como um escudo.

E a conclusão, invariavelmente, é sempre a mesma: todo mundo acredita ser eterno. Claro que ninguém acordaria disposto a enfrentar o dia se a primeira imagem da manhã fosse o próprio corpo estendido dentro de um caixão. Para que possamos viver em sociedade e representar com algum talento a farsa de sermos “pessoas normais”, precisamos construir ilusões diárias — e, mais do que construí-las, precisamos alimentá-las religiosamente.

Mas quando, por descuido, um lapso de lucidez nos atravessa como um raio, revelando a verdade nua e crua, corremos apavorados para as nossas zonas de conforto. Família, dinheiro, trabalho, religião. São muletas cuidadosamente erguidas, ainda que inconscientes, para não nos rendermos à tentação de apressar o fim com um tiro, uma garrafa ou um punhado de comprimidos.

Eu, por exemplo, nunca consegui me encaixar plenamente nesse teatro. Claro, também tenho minhas ilusões, mas se pudesse atender fielmente aos meus pensamentos mais íntimos — aqueles que vêm direto do porão da alma — mandaria tudo ao inferno sem pestanejar.

Tenho casa, carro, e gasto cada centavo que ganho. Não possuo reserva alguma, só um cofre de dívidas e a sensação de estar sempre à mercê de um país que é um assalto a céu aberto. O Estado brasileiro é a prova viva de que, além de nascer mortal e consciente disso, ainda tivemos o azar de nascer aqui. É o pacote de tragédias completo.

No fim, claro, todos encontramos nossas válvulas de escape. Eu também tenho as minhas fugas, ilusões e pequenas distrações. Mas a melancolia é persistente e sempre me puxa de volta para o chão. Como disse um poeta: “Felicidade? Somente em raros momentos de distração”. Deixo meu pensamento voar, mas ele sabe que, mais cedo ou mais tarde, terá que voltar para a gaiola. Rio das banalidades do cotidiano, mas no silêncio sempre me visita aquele aperto de realidade como um balde de água absurdamente gelado.

Se ao ler estas linhas você pensou: “Ele se acha melhor que todo mundo”, então não entendeu absolutamente nada do que eu quis dizer. A mensagem é justamente o contrário: não sou nada. E você também não. Daqui a algumas décadas — oitenta anos, talvez menos — este corpo que hoje enfeitamos com cremes caros, tinturas, barbas feitas na gilete ou sobrancelhas desenhadas, não passará de pó misturado à terra, carne apodrecida e ossos frágeis ao lado de pregos enferrujados. Todo o cuidado, toda a vaidade, todo o esforço em parecer algo… se dissolve na mesma lama que engole ricos, pobres, gênios e imbecis.

Os que se acham demais, que caminham olhando os outros de cima para baixo, só despertam em mim dois sentimentos: pena e desprezo. O teatro de ilusões deles é tão elaborado que supera de longe o meu. Tornaram-se atores de si mesmos, intérpretes convictos de uma farsa que acreditam ser realidade. Vivem tão mergulhados no papel que confundem máscara com rosto, ensaio com vida.

E, no fim das contas, só resta reconhecer: Rita Lee não errou uma vírgula. Da lista seleta da Forbes à relação vexatória de devedores da Prefeitura, do magnata que nada em champanhe ao mendigo que se afoga na sarjeta, do papa ao pecador — todos acabam iguais, reduzidos à mesma matéria orgânica. Tudo, inevitavelmente, vira bosta.

Receita

Sou um covarde
No sentido literal da palavra,
É como ter a receita do bolo,
Mas medo de fazê-lo,
Um bolo sonhado por anos,
Dos mais saborosos possíveis,
Pra ser degustado sozinho,
Apreciado,
Com prazer,
Com vontade,
Com fome —
Uma fome que se retraiu ao longo dos anos.

Sou um covarde,
Tenho todos os ingredientes,
Mas não me atrevo a misturá-los,
Falta-me coragem,
Falta-me iniciativa.

O fogo da cozinha me chama,
Mas algo dentro de mim diz para esperar,
Adiar,
Morar no futuro que nunca chega,
Como se o bolo perfeito pudesse se preparar sozinho.

Esse poema não é sobre bolos,
É sobre mim.
Sobre os medos que fermentam sem que eu os toque,
Sobre os desejos que apodrecem na prateleira da inação,
Sobre o som do relógio que ecoa no vazio da minha hesitação.

E talvez o maior medo,
Não seja falhar,
Mas descobrir que, no fundo,
Nem a receita é o que me faltava.
Era o ato de começar.
O erro de não tentar.

Esse poema, no fim,
É sobre a vida inteira que não fiz,
Sobre o bolo que nunca será assado,
Mas que vive,
Em algum caderno amarelado
No baú das minhas covardias.

O Homem que Pedia Desculpas por Respirar

Um dos maiores traumas que carrego da infância não tem a ver com palmadas, cintos ou chinelos voadores — mas com algo infinitamente mais sofisticado: o veneno do não merecimento. Carrego em mim essa pequena herança de família, como quem herda uma prataria antiga, só que em formato de cicatriz.

Aprendi cedo a ter vergonha da felicidade, como se sorrir fosse um crime passível de prisão em flagrante. Qualquer manifestação de bem-estar precisa ser vivida em silêncio, quase como um ritual secreto, ou, se possível, podada já no primeiro broto. Cresci acreditando que a alegria deveria ser mantida em cativeiro.

E tudo começou com um gesto aparentemente banal. Nos raros momentos em que meu pai me dava um presente, ou até mesmo uns dez reais para o pastel da escola, ele completava a cena com a frase:
Tu não merece, mas vou te dar.

Curtinho, direto, quase elegante na crueldade.
Para ele era piada, humor de corredor. Para mim, uma sentença perpétua. Dizia aquilo rindo, mas na minha cabeça de criança soava mais doloroso que um cinto. Porque a surra passava; a frase ficou.

Resultado: cresci com a convicção de que não mereço absolutamente nada de bom. Até sei que a psicoterapia defende a lógica do enfrentamento, que “nomear o trauma” seria o primeiro passo para superá-lo. Pois bem, já dei nome, sobrenome e CPF para o meu. Só que, ao contrário do manual de autoajuda, ele continua morando aqui, feito inquilino folgado que não paga aluguel.

Hoje, se tiro férias, a sensação é de estar cometendo latrocínio. Se abro uma cerveja numa sexta-feira à tarde, sinto que acabei de atropelar uma criança de colo. E se ouso viajar… bom, aí já imagino meu rosto estampado em cartazes da Interpol. Procurado por sorrir.

É como se houvesse uma lei silenciosa gravada no meu peito: eu nunca serei suficiente. E mesmo quando for, ainda assim não será o bastante. Horrível, sim. Mas nada que já não se some à minha longa coleção de horrores cotidianos.

No fim das contas, virei especialista na arte de pisar em ovos. O detalhe é que peso quase 130 quilos.

O Silêncio Como Arte: Não É Timidez, É Preguiça

Na infância, fui um absoluto retrato da introspecção. O barulho do mundo lá fora me incomodava tanto que eu preferia me esconder no meu próprio silêncio. Esse “refúgio” era, na verdade, uma prisão forjada pelas mãos impiedosas do que chamaram, numa tentativa de modernidade desconcertante, de “bullying”. Fui moldado por um silêncio que se tornava cada vez mais denso e pesado, até que ele me consumiu por completo. Quando cheguei à pré-adolescência, praticamente me calei dentro do meu quarto, afastando-me de tudo e de todos. No fim das contas, sempre fui de poucas palavras, e hoje me pergunto: isso é trauma? Ou apenas uma característica irreversível da minha essência?

O que sei com certeza é que sempre carreguei comigo uma ideia simples e direta: pessoas excessivamente barulhentas são, na verdade, cavernas ecoando os grilos dentro delas. Aqueles que fazem um “cri cri cri…” ensurdecedor, um som insuportável de vazio. Quem tem de gritar a todo momento, quer se fazer ouvir de alguma maneira, porque no fundo tem medo de ser irrelevante.

Com o tempo, aprendi a cultivar o silêncio como uma escolha – não como uma consequência do medo ou da insegurança. A verdade é que, mesmo nas raras ocasiões em que resolvo quebrar o meu silêncio, faço-o com a mesma convicção de um político num palanque no sábado à noite antes das eleições. Grito, gesticulo, e defendo com fervor as minhas opiniões. Mas aqui vai o segredo: eu sei quem está me ouvindo. Eu sei que as palavras serão respeitadas e compreendidas. E, francamente, não vejo motivo para desperdiçar minha energia com quem sequer tem capacidade de entender o que estou dizendo. Isso pode parecer arrogante ou prepotente para quem está de fora, mas, na minha ótica, é apenas um reflexo do meu eu sem filtros – sem a necessidade de agradar quem quer que seja.

Confesso que ultimamente tenho tentado, com muita dificuldade, me policiar um pouco. Estudei sobre como lidar com as banalidades da vida pra não parecer excessivamente chato. Convenhamos, ninguém merece acordar numa segunda-feira de ressaca para discutir o sentido da existência. Moldei um conjunto de máscaras e personagens que me ajudam a tornar possível uma sobrevivência em sociedade.

A paciência é um luxo que poucos podem se dar ao direito de desfrutar. Gostaria de estar mais disposto a ouvir, a entender, até mesmo quando me encontro frente a frente com a boçalidade e a ignorância. E que ironia, essa ignorância pode vir de doutores, dos mais ilustres e cultos entre nós.

Então, por fim, se me vires em silêncio, não me confundas com alguém tímido. Não sou um ser que treme na frente dos outros, um coitado que esconde sua alma. Não, não. O meu silêncio é muito mais profundo do que isso. Ele é, na verdade, preguiça. Preguiça de perder tempo com conversas que não valem a pena. E, cá entre nós, a maioria das conversas por aí não valem mesmo.

Agora, se me permite, volto ao meu silêncio. Não é falta de atitude, apenas a escolha de não me cansar com o inútil barulho do mundo.