A Última Verdade Está nos Olhos

Um olhar diz tudo.
Pra quem sabe ler silêncios.
Esconde-se entre linhas geométricas:
cílios, rugas, íris —
mapas cifrados de quem já viveu demais.

Brilha, sim.
Mas pra quem enxerga fundo,
e não se assusta com o abismo refletido.

Um olhar é código morse:
um piscar, uma pausa,
e você passa a madrugada
tentando decifrar.

É janela da alma,
mas só mostra a pontinha do iceberg.
Todo o resto — naufragado por dentro.

Num olhar cabe uma vida:
passado, presente, futuro.
Erros mal enterrados,
acertos solitários,
pretensões que nunca vão sair do papel.

Sou fã de olhares.
Mas daqueles que ardem de verdade.
Os que mentem já lotaram o mundo,
fantasiados de harmonia e equilíbrio,
como se a alma não gritasse por trás.

Os olhares sinceros viraram espécie em extinção,
escondidos sob óculos escuros
ou dentro de gente que desaprendeu a sentir.

Sou fã de olhares.
Mas dos que doem.
Dos que estão aqui,
sem filtro nem anestesia.
Dos que existem.
Dos nus.

Dos que, mesmo calados,
têm a decência de não mentir.

Minha Memória é um HD Externo com Mau Contato (E Isso Talvez Seja Maravilhoso)

Já afirmei por diversas vezes — provavelmente mais do que consigo lembrar — que tenho essa estranha e um tanto poética capacidade de viver todos os momentos com altíssima intensidade. O famoso “estar aqui e agora”. Sou um entusiasta da contemplação. Natureza, pôr do sol, uma brisa idiota soprando folhas num canto qualquer… momentos de amor com minha esposa (esses especialmente merecem replay mental, se possível). Gosto de saborear o instante como um vinho caro — mesmo quando estou tomando café solúvel com pão velho.

Minha mente digere tudo de forma lenta e saborosa… mas depois vomita tudo rapidinho no esquecimento.

E é aí que entra o grande porém: minha memória. Ah, ela. Uma companheira caprichosa e negligente. Um tipo de Alzheimer amador e precoce que resolveu se instalar em mim aos 31 anos de idade, sem sequer me dar o prazer de uma consulta médica ou um diagnóstico oficial. Esqueço nomes, rostos, números, eventos importantes e cenas que eu mesmo protagonizei — como se minha vida fosse um filme em que eu só assisti ao trailer e já esqueci do enredo.

Esses dias alguém me perguntou onde eu estava em 2015. Eu ri. De nervoso. Não sei. Não faço ideia. Poderia ter estado em qualquer lugar — na roça, na cidade, na cadeia, num retiro espiritual — que não me lembro. 2010? Mistério. 2005? Lembro vagamente de ser criança, mas posso estar confundindo com algum filme da Sessão da Tarde. Só tenho certeza de que estava vivo. E, com sorte, alimentado.

Mas veja bem — talvez essa falha seja minha salvação. Um glitch existencial que me protege de mim mesmo. Não remoí remorsos porque não lembro o que fiz de tão ruim assim. Aquela cena constrangedora? Aparentemente nunca aconteceu. Aquela vez em que eu disse algo estúpido, ou me humilhei publicamente? Arquivado em algum lugar obscuro da mente, inacessível até com senha de administrador.

A memória ruim me poupa. Me limpa. Me recomeça.

Claro que algumas memórias insistem em sobreviver como baratas nucleares — as piores, evidentemente. Traumas, vergonhas épicas, erros do tipo que nos acordam às 3h da manhã suando frio. Essas nem um Alzheimer terminal conseguiria deletar. Mas o grosso da porcaria que acumulei ao longo da estrada? Está tudo empoeirado num canto esquecido da mente. E que assim permaneça.

Enquanto isso, sigo firme no agora. Intenso. Vivo. Esquecido. Mas de algum jeito, incrivelmente presente.

Poeta invisível

Sem o drama do desamparo, por favor,
Nem os egos inchados de quem se acha demais,
Apenas decidi falar sobre os poetas
Mas não sobre os grandes nomes,
Os ovacionados, os reverenciados,
Aqueles que, até depois de mortos, ganham ruas, praças e monumentos.

Falo dos que, como eu,
Nunca verão suas palavras imortalizadas em papel,
Nunca terão um busto em praça pública,
Nem uma biblioteca com seu nome grifado na fachada.

Falo dos que, como eu,
São quase analfabetos em sua essência.
Não li o bastante, nunca fui um erudito.
Aprendi apenas a arranjar palavras,
Ajustando-as de modo que se amassem num formato
Que me fosse, ao menos, satisfatório.

Satisfatório, ao menos para mim,
Porque quando a escrita não espera aplausos,
Aglutina-se um mérito mais puro.
Quando escrevo para os outros, escrevo por eles.
Quando escrevo para mim, ah, isso sim, é mais verdadeiro.

Antigamente, as pessoas tinham diários secretos,
Escondidos em gavetas, sem a intenção de serem achados.
Hoje, meu diário é este campo digital,
Recheado de palavras atiradas ao vento,
Um cemitério de pensamentos esquecidos.

Não espero que uma mulher atraente leia
E me convide para o altar no dia seguinte.
Nem que ela tatue meu nome, sem pensar,
Na parte de trás do corpo,
Onde os segredos se escondem.

Não espero ser citado em discursos fúnebres,
Ou que meu nome brilhe em obituários
Com tiragens limitadas a 1000 exemplares.
E tampouco espero que meus versos se tornem
Aquelas frases tolas que ganham likes em feeds vazios.

O que espero,
É que essas palavras, ao se descerem de mim,
Levassem com elas, ao menos um pouco
Do peso que a vida me impôs,
E que, em sua travessia,
Deixassem suas aflições
Em qualquer outro lugar
Que não dentro de meu peito.

Ecos de Um Ser Que Passou

Ser um fracassado… tem seu valor.
Desde que se reconheça,
desde que se abrace o próprio naufrágio.

Sou um fracasso — completo — como marido.
Fracassei em amar direito,
em ser porto, em ser abrigo.
Como filho? Um silêncio entre dois abismos.
Como neto, fui ausência,
esquecimento vestido de carne e nome.
Como irmão, provavelmente um eco distante,
alguém que existiu — mas nunca o suficiente.

E como ser humano?
Talvez apenas isso:
um ser… humano demais para pertencer,
demais para escapar.

Como aluno, sobrevivi
pela piedade nos olhos das professoras.
Minhas notas foram orações sussurradas
por quem via em mim algo que nem eu via.

Profissionalmente?
Ah… sou um desastre com crachá.
Meus programas têm alma, mas não vendem.
Sou um vendedor que fala bem
mas vende o vazio entre as palavras.

Minha voz… razoavelmente agradável,
é o verniz que encobre o ruído da falha.

Pra mim mesmo, porém —
ah, aí eu sou rei.
Sou monarca de um reino de escombros.
Sou meu único fã,
me aplaudo no silêncio da madrugada,
me admiro como quem observa
um incêndio bonito demais pra apagar.

Porque no fim,
serei minha única companhia.
Meu último sussurro.
Meu último olhar.

E meu maior fracasso?
Ter acreditado
que entre os humanos,
havia espaço pra um de nós.

A Ilusão do Conforto: O Circo do Dinheiro e a Comédia da Vida

Ah, o domingo… o dia em que as musas da inspiração aparecem, mas nem sempre como queríamos. Hoje, vamos falar sobre o que realmente precisamos para viver. Ou melhor, o que nos fazem acreditar que precisamos. Porque, no fim das contas, estamos todos correndo atrás do ouro, como bons ratos de laboratório do capitalismo. Mas o que é o ouro, senão uma distração conveniente para que possamos ignorar o vazio existencial? Aliás, quem sou eu para questionar? Gosto de dinheiro, sim, com a mesma paixão que um escravo da era moderna tem pelo seu salário, que mais parece um prêmio de consolação.

A verdade é que, quando olhamos para o frenético desfile de egos inflados e a hipocrisia transbordante da humanidade, é de se perguntar: o que, exatamente, estamos fazendo? Vamos lá, gastamos a vida inteira com a velha mania de consumir, para, no fim, acharmos que estamos “confortáveis” o suficiente. Acha que aquele Honda Civic, que você parcelou em 48 vezes, vai te fazer feliz no leito de morte? Lamento informar, mas quando a sua respiração ficar lenta e pesada, o único luxo que você vai sentir falta será do ar fresco, não do Bluetooth do carro.

E é aí que mora a tragédia da coisa toda: o apego. Desde cedo, a sociedade nos ensina a nos agarrar a tudo. Pessoas, objetos, status. Um ciclo vicioso de querer possuir, possuir e, claro, possuir mais. Já fui assim. Já recitei aquelas frases clichês como “não posso viver sem você” ou “sem isso eu não sou ninguém”. Hoje, com um pouco mais de experiência (e muito mais sarcasmo), percebo que o único absoluto é o “nada”. Quando a poeira assentar e a verdade nua e crua for visível, você vai perceber que o único apego válido é o que temos por nossa própria essência, que, aliás, ninguém pode vender em parcelas.

Agora, imagine-se naquele leito de hospital, ouvindo o médico, com aquela cara de quem já sabe o destino, sussurrar algo sobre como você não vai sobreviver à noite. Não vai dar a mínima para o seu apartamento de luxo em Capão da Canoa ou para as ações da sua carteira de investimentos. O que vai ser importante ali, no final das contas, será o cheiro de café preto numa madrugada chuvosa, o som de um rio em algum canto remoto, o abraço dos seus entes queridos. Tudo o que não tem preço. E isso, por algum motivo, é o que realmente importa. Surpresa, não?

Na época da escravidão, nossos ancestrais não recebiam salários, mas tinham comida e moradia, um pacote completo para sobreviver. E nós, em 2025, somos pagos (ou melhor, sub-pagos) para comprar comida e moradia. Uau! Uma verdadeira evolução, não é? E o que mais? Ah, claro, poderemos fazer compras no supermercado e pagar as parcelas do financiamento da casa. O futuro nunca pareceu tão brilhante!

Para concluir, vou te dar a solução para uma vida plena e rica de significado: equilíbrio emocional e espiritual. Imagine a felicidade absoluta em uma cama simples, com um colchão confortável, uma geladeira cheia de cerveja e um fogão para esquentar o resto da sua vida. Eu diria que isso é o suficiente para qualquer ser humano que não esteja hipnotizado pela ilusão do “ter”. Porque o que sobra disso tudo? Apenas uma grande, estridente ilusão.

E, por fim, como a hipocrisia nunca foi a minha praia, vou continuar a minha jornada. Vou buscar dinheiro, é claro, mas não vou esquecer de gastá-lo de maneira bem… inútil. Afinal, é isso que a vida moderna exige de nós: um circo de aparências. E adivinha? Tá tudo bem.

Manual de Sobrevivência Urbana: Como Evitar Adolescentes e Manter Sua Sanidade

Finalmente, um preconceito que posso confessar sem medo de acordar com a Polícia Federal batendo na porta: adolescentes. Não sei se a psiquiatria já batizou essa fobia com algum nome pomposo, mas sei que é um sentimento antigo, que mora em mim com o conforto de um inquilino que não paga aluguel.

Talvez seja porque, como já afirmei em outros textos, sempre fui um velho rabugento desde criança. Ou talvez os “bulings” (que na minha época não tinham nome em inglês, era só humilhação gratuita mesmo) tenham deixado sequelas. Seja como for, a coisa é tão grotesca que, se estou na rua e vejo um bando de adolescentes vindo na minha direção, atravesso para a outra calçada sem nem olhar para os lados. Se um caminhão de lixo me atropelar nesse processo, paciência — provavelmente a conversa com o motorista será mais agradável do que cruzar com o grupo.

Infância eu nunca tive, e adolescência… bem, acho que passei dos 12 aos 20 anos em modo stand-by, introspectivo, tentando descobrir como escapar daquele inferno social onde ninguém te respeita, mas todos exigem respeito. Só que isso, curiosamente, não é o que mais me incomoda hoje. Respeito é um conceito que desprezo de qualquer um.

O que me provoca náuseas é a mutação contemporânea do adolescente médio: verdadeiras amebas ambulantes com a autoestima de um faraó e a sabedoria de uma pedra de aquário. Acham-se donos da razão, da verdade e, por algum motivo místico, acreditam que qualquer pessoa com pós, doutorado ou até um Nobel ainda sabe menos do que eles. É uma prepotência de beira de estrada, mas sem o glamour do pastel com caldo de cana.

Exceções existem? Sim, raríssimas, como pérolas perdidas num mar de TikToks. Mas também, sejamos justos: não dá para esperar muito mais de pais que foram adolescentes tão ou mais insuportáveis. A boa notícia é que a taxa de fecundidade humana está despencando — com sorte, teremos cada vez menos espécimes dessa fase da vida andando por aí, confundindo opinião com sabedoria e arrogância com personalidade.

Vivemos num mundo em franca decadência moral, ética e em todos os outros sentidos que restaram. Dizer que “os adolescentes são o futuro da pátria” hoje é tão otimista quanto dizer que a seleção brasileira vai ganhar fácil a próxima Copa. Como diria Seu Madruga: “Tô vendo que a nossa seleção vai perder de novo.”

Nunca Tive Infância (E Ainda Bem)

Geralmente, quando alguém solta a frase “você nunca teve infância”, a intenção é ferir ou desmerecer o sujeito. Pra mim, soa quase como um elogio. Não que eu tenha me tornado um adulto infantilizado que coleciona carrinhos da Hot Wheels com 31 anos nas costas, nem aquele palhaço sem graça que se acha “engraçadão” por fazer piadas sobre tudo. Nada disso. Na verdade, o velho rabugento que hoje habita meu ser já morava em mim quando meu saco nem imaginava que um dia teria pelos.

A infância, aquela vendida nos comerciais de brinquedos com música alegre de fundo, iogurtes coloridos e crianças loiras pulando em câmera lenta, nunca foi minha. O que eu vi quando abri os olhos pro mundo foi bem diferente: brigas, silêncio pesado, portas batendo, a depressão crua da minha mãe e o cheiro de álcool e cigarro impregnado no hálito do meu pai. A trilha sonora era o som de copos quebrando e não risadas infantis.

Das poucas lembranças que consigo resgatar — borradas, como fotos reveladas com pressa — está eu, com um ônibus de brinquedo, sentado num banco velho. Ou empurrando a bicicleta porque ainda não sabia andar nela. Eu fingia que era um carro, dirigindo na estrada de terra. Era o que dava pra ter de “imaginação” ali. Chaves e Chapolin eram meu refúgio nas tardes da TV brasileira. Ou até mesmo as novelas do “Vale a pena ver de novo”.

Meus colegas faziam fila na porta da minha casa querendo brincar comigo. Eu sempre inventava uma desculpa, fingia dor de barriga, dizia que ia sair. Qualquer coisa pra evitar aquele teatrinho infantil. Nunca me atraiu. Eu achava uma perda de tempo. Enquanto eles brincavam de pique-esconde, eu escondia minha vontade de não estar ali.

Nunca fui diagnosticado com nada, nunca procurei. Talvez a psiquiatria tenha uma explicação bem embasada e um nome em latim pra isso. Mas a verdade é simples: eu nunca senti falta das coisas que se supõe que uma criança deveria gostar. Minha mente sempre esteve um passo à frente — e não é arrogância dizer isso. Eu só queria outra coisa. Algo mais denso, mais complexo, mais parecido com o que eu sou hoje.

O razoável sempre me deu sono. E mesmo quando era a única opção, eu preferia o silêncio. Que criança lê Fernando Pessoa escondido? Pois é. Ninguém espera que um pirralho recite Tabacaria. Mas eu lia. E gostava. Como se fosse um ensaio do que viria a ser o Maicon adulto.

No fim das contas, não ter tido infância nunca me doeu. Ao contrário: eu sempre quis ser velho. Adulto. Sóbrio. Isolado. Eu. E acho que consegui. Aos 31 anos, carrego uma alma que parece ter nascido aposentada.

No final das contas, não vejo a hora de chegar aos 70 e finalmente ter a credencial oficial para ser o velho rabugento que sempre fui — só que com respaldo social, desconto em farmácia e vaga exclusiva para estacionamento.

A Odisseia do Ser Imperfeito

Um dia, e provavelmente sob o feito do álcool, vou escrever um artigo no qual esmiúço a podridão que habita em meu ser. Porque é isso que as pessoas fazem, não é? Escondem seus monstros, suas falhas, por trás de um sorriso ensaiado e uma vida impecavelmente editada. Elas se preocupam em parecer quase santas, em cultivar uma imagem intocada. Eu, por outro lado, prefiro ir na direção contrária. Confessar as minhas infâmias, meus pecados. Um conjunto de falhas, de defeitos, de vacilos que formam esse monstro, na maior parte do tempo adormecido, que habita meu ser.

Não, não se assuste. Não são coisas cabulosas ao ponto de alguém bater na minha porta com uma ordem de busca, tampouco mereço o selo de “perigoso”. São condenações que fiz para mim mesmo. Talvez para alguns, isso seja nada. Para mim, é tudo. São erros que jamais poderei me perdoar, falhas que pesam em minha alma, mais do que eu gostaria de admitir.

Mas hoje, sem a ajuda do álcool, apenas reflito sobre isso: as pessoas têm uma necessidade quase patológica de parecer perfeitas. Mas a verdade é que todas, SEM EXCEÇÃO, carregam dentro de si, nem que seja uma pequena fagulha de pecado, de podridão. Algo que preferem esconder, jamais expor ou publicar. Eu, por outro lado, nunca fiz questão de esconder. Meus defeitos, quando não tão evidentes, os mantenho ali, em um canto escuro, apenas por preguiça. Porque, convenhamos, é mais fácil fazer de conta que tudo está sob controle. A velha história do “você jamais entenderia”.

Agora, “Poema em Linha Reta” talvez resuma toda essa conversa enjoada. Porque o que mais tenho feito é aplaudir os falhos, os descuidados, os que estão sempre um passo atrás da perfeição. Os que têm cicatrizes, as que não são apenas visíveis na pele, mas na alma. Os “perfeitos”, ah… esses me deixam completamente indiferente. Quero saber das tuas angústias. Das tuas dúvidas. Dos remorsos que fazem rolar lágrimas silenciosas, madrugada após madrugada, mesmo quando a luz do dia tenta apagar essas sombras. O ser humano é falho. Ele erra muito mais do que acerta. Mas, como bem sabemos, nada disso aparece nos stories de domingo.

Será isso um nojo? Pode ser. Nojo da perfeição forjada. Do puritanismo imposto. Da hipocrisia que se veste de roupa de grife. Do “certo” que todos tentam vender, mas que ninguém nunca parece viver. Não me venha com a farsa da vida imaculada. Estou mais interessado nas suas rachaduras, nos teus erros, nas falhas que te fazem real. Porque, no fim, a perfeição é só uma cortina de fumaça. E sempre detestei fumaças — nem fumar, que sempre achei elegante, consigo.

E talvez, um dia, eu beba demais e escreva isso de novo, só que de forma mais suja, mais crua. Porque, no fim, só quem é imperfeito pode entender a beleza do abismo. E eu? Bem, eu já estou lá.

Cartas do subsolo

Sim, eu sei exatamente onde você está.
Já morei aí — não de aluguel, mas de corpo inteiro.
Fui inquilino do caos,
respirei enxofre como quem busca ar,
e quer saber?
Talvez eu nunca tenha saído.

Só mudei o jeito de habitar o inferno.
Deixei de gritar.
Aprendi a andar em brasa com os pés descalços
e sorrir com a boca cheia de cinzas.
Virei a anedota do sapo fervido —
só que eu sabia que a água estava quente.
Fiquei mesmo assim.

Hoje, o inferno teme o meu nome.
É ele quem me deve noites.
É ele quem desvia o olhar.
Porque eu o conheço até onde ele próprio se perde.
Conheço o cheiro mofado das suas entranhas,
o timbre falso da sua promessa de alívio.
Sei que o fundo tem porão.
E já dormi lá.

Ele não tem mais trunfos.
Eu vi todos os seus disfarces —
inclusive aquele que usava o meu rosto.

Agora, rimos juntos.
Dividimos uma cerveja,
um gole de café requentado na amargura,
mas ele sabe:
a piada agora é sobre ele.

O problema de viver atolado na lama
é que a gente se habitua —
ao fedor, à textura,
ao calor insuportável da própria decomposição.

O problema de já ter cruzado os portões do abismo
é que o abismo também nos atravessa.
Um demônio cochila dentro de mim.
Não fala, mas respira.
Uma escuridão mora em silêncio,
fechada a cadeado num baú de ossos e promessas quebradas.
E às vezes…
às vezes é nesse baú que eu volto a morar,
quando o mundo aqui fora fica bom demais pra ser confiável.

Porque quem já conheceu o inferno
nunca volta inteiro.
Volta afiado,
volta sujo,
volta lúcido demais pra ser feliz.

Saudades do Que Nem Vivi (e Isso Me Irrita)

Deveria existir um CID exclusivo pra essa doença — se é que ainda não inventaram um. Algo entre nostalgia patológica e reencarnação mal resolvida. Sou, com orgulho e uma pontinha de desespero, um amante do passado. Talvez uma alma reencarnada pela milésima vez, fazendo turismo temporal por aqui, tentando entender que diabos é esse século XXI com seus emojis, stories e gente que acha que “vintage” é comprar camiseta desbotada por 300 reais.

Sou amante do passado em todos os sentidos. Música, roupas, vocabulário, objetos, hábitos, relações sociais, dramas existenciais que duravam mais que a bateria do celular. Entro num prédio antigo e minha vontade é de beijar o chão, abraçar a parede e sussurrar: “me conta tudo, seu lindo, me mostra o que esses olhos de concreto já viram.” Imagina as confissões que essas estruturas poderiam fazer, se tivessem boca ou, sei lá, uma conta no Instagram.

Quando vejo uma pessoa idosa, minha cabeça dispara um filme na velocidade da luz: penso nela ouvindo o Repórter Esso, assistindo ao homem pisar na Lua pela TV preto e branco, dançando com roupas esquisitas e fumando sem culpa em salões cheios de fumaça e jazz. Sinto inveja, sim, daquela presença de mundo que não tive — como se tivessem jogado spoilers da vida pra todo mundo, menos pra mim.

Me ressinto de não ter estado ali, suado em um show da Elis ou do Raul, ou simplesmente existido em um tempo onde Michael Jackson ainda era só um ser humano, não um holograma de saudade. Hoje a gente assiste tributos em 4K, mas o impacto é em 144p emocional.

No fundo, essa minha ladainha romântica é só um desabafo: eu realmente queria ter nascido antes. Ser mais velho. Mais vivido. Mais amarelado pelo tempo. Claro, não dá pra garantir que, se tivesse vindo ao mundo em 1930, eu teria o mesmo olhar apaixonado. Vai ver eu seria mais um homem amassado pela rotina, odiando a guerra, a censura e a falta de desodorante eficaz. Talvez eu nem notasse a beleza ao redor — assim como a maioria não nota hoje.

Vai ver é só uma crise dos 30 — versão existencial retrô. Talvez quando eu chegar aos 90, tudo que eu mais queira seja voltar pra época atual e dizer “nossa, 2025 era incrível e eu tava ocupado demais reclamando que nasci tarde.”

Mas, enquanto isso, sigo aqui, meio anacrônico, meio melancólico, tropeçando nesses pensamentos como quem caminha por uma rua de paralelepípedos: um pouco desconfortável, mas encantado por cada pedra que carrega o peso de passos que não dei — e mesmo assim insisto em sentir.