Herança invisível

Uma das maiores manifestações de honestidade que vivi vem de alguém que, ironicamente, carregava muitos defeitos visíveis: meu pai. Problemas com álcool, de temperamento difícil, pouco dado ao afeto — minha infância foi um terreno instável, permeado por silêncios desconfortáveis e uma constante tensão no ar. Mas, ao mesmo tempo, cresci observando, muitas vezes calado, que sob aquela casca áspera habitava um homem incapaz de trair um princípio que, de tão escasso, hoje virou quase relíquia: a honestidade.

A vida financeira aqui em casa nunca foi generosa. O dinheiro sempre contado, as dívidas sempre presentes, e as vontades sempre adiadas. Mas, justiça seja feita, nunca nos faltou o essencial. Ainda assim, ontem à noite, me vi diante de uma tentação moderna: recebi, por engano, um PIX. Não era uma fortuna, mas era o suficiente pra bancar uma daquelas pizzas gigantes com refrigerante e cerveja — e ainda sobrava pro delivery.

Não levou 30 segundos pra que eu já estivesse nas redes sociais caçando o nome do remetente. Sem sucesso. Foi então que descobri, no próprio aplicativo do banco, a opção de devolver o valor na mesma operação. Fiz isso sem hesitar. Sem pensar muito. Porque não precisava pensar.

Mais tarde, refletindo sobre o ocorrido (não por vanglória, porque devolver o que não é seu não deveria ser ato heroico), lembrei do meu velho pai. No velório dele — cena cinza que nunca mais saiu da minha cabeça — ouvi um comentário que me pegou de jeito. Foi do ex-patrão dele, com os olhos marejados:

“Teu pai vivia apertado. Às vezes pedia adiantamento do salário, mas eu, na correria, nem anotava. Na hora do pagamento, esquecia completamente. Mas ele não esquecia. Sempre vinha me lembrar e fazia questão de descontar direitinho. Ele nunca levou um centavo que não fosse dele.”

Na hora, engoli seco. Aquilo me comoveu de um jeito estranho, porque eu — que convivi tanto tempo com meu pai — jamais soube disso. Ele não fazia alarde, não esperava medalhas. Apenas era.

Não tive o pai ideal. Longe disso. Mas tive um pai que, mesmo com todos os seus erros e limitações, me ensinou com gestos silenciosos o que é ter caráter. E talvez isso seja mais raro — e mais valioso — do que qualquer infância perfeita.

O calendário da minha saudade

Existem músicas que ultrapassam o som. Elas nos atravessam. Raspam na alma. E doem bonito.

Há uma em especial que, nos primeiros três segundos de introdução — nem bem o tempo de um suspiro — já eriçam os pelos do meu braço, e parece que cada artéria do meu coração se retrai e pulsa diferente. Não, não é um hit pop, nem trilha sonora de filme algum. Muito menos coisa da moda. É uma canção romântica escondida nos corredores esquecidos da música gaúcha. Uma joia obscura, simples, quase tosca mas profundamente humana: “Calendário da Saudade”, de Sidney Lima.

Sidney, que partiu cedo demais — vítima de um acidente de trânsito em 1989, aos 40 anos — talvez nunca soubesse o tamanho da cicatriz que deixaria na memória dos que, como eu, foram tocados por sua voz. E por essa canção.

Não direi que é a música da minha vida, mas chega perto. Muito perto.

A primeira vez que a ouvi foi por tabela, ou quem sabe por destino. Eu tinha 10 ou 11 anos. Era madrugada ainda quando o rádio ecoou alto pela casa — volume ensurdecedor às 5h30 da manhã. Meu pai, como sempre, com o rádio ligado na antiga frequência AM 890 da Rádio Noroeste de Santa Rosa, onde ironicamente — ou poeticamente — eu viria a trabalhar anos depois.

Naquele dia, estávamos eu e minha mãe dormindo em outro quarto. Eles haviam brigado — mais uma vez. E quando brigavam, ela ia dividir o quarto comigo. Dormir? Difícil. Não apenas pelo volume proposital do rádio, mas pela dor que saturava o ar, densa como fumaça de cigarro. A fumaça dele, que ainda sinto às vezes, misturada ao cheiro úmido de tristeza da manhã fria.

E então, tocaram os acordes.

Não entendo bem de instrumentos, mas aquele som… uma mistura de sintetizador com órgão — ou talvez um lamento em forma de tecla — cortou o silêncio entre nós dois. Aqueles segundos iniciais se fixaram em mim como uma agulha em carne viva. Eram notas que diziam mais do que qualquer grito. A voz de Sidney Lima veio logo depois, carregada de uma dor tão elegante e tão crua que parecia cantar tudo o que eu ainda não sabia nomear.

A letra? Uma ode dramática ao amor perdido. Uma ferida aberta que sangra versos. Uma dor de cotovelo que virou arte. E ali estavam duas palavras que grudaram em mim e na minha mãe: “calendário” e “saudade”. Por anos, seriam as únicas pistas que teríamos para tentar reencontrar aquela canção fantasma.

E reencontramos.

Hoje, sempre que escuto Calendário da Saudade, é como se eu abrisse uma porta para aquele quarto abafado. A luz da fresta invadindo o escuro, a presença de minha mãe acordada em silêncio ao meu lado, a solidão do meu pai escondida atrás de uma canção colocada no último volume. E aquela criança no meio disso tudo, ouvindo pela primeira vez o que é amar e perder sem ter vivido nenhum dos dois.

Essa canção mora em mim. É parte da minha história, da minha mãe, do cheiro do cigarro e das rachaduras daquele lar. Não é só música. É memória viva. É dor antiga. É a trilha sonora de um tempo em que eu ainda não sabia que estava sendo moldado por sons e silêncios.

E por isso, talvez, seja mais do que uma canção.
Talvez seja o próprio calendário da minha saudade.

Silvio Santos morreu. E com ele, a última parte da minha infância.

Demorei quase um ano para escrever sobre isso, mas hoje tomei coragem. Não foi por falta de palavras — eu sempre as tive. Talvez medo de abrir uma ferida que, mesmo sem sangrar visivelmente, ainda pulsa. O que você está prestes a ler não é uma elegia comum. É um grito abafado. Um desabafo. Um luto íntimo. Um relato visceral de amor e perda. Não espero aplausos nem empatia — apenas um pouco de silêncio enquanto abro essa ferida que muitos talvez sequer compreendam.

A primeira imagem que tenho de Silvio Santos na TV remonta ao final dos anos 90. Eu tinha 4 ou 5 anos, talvez nem isso. Estava ali, hipnotizado diante da tela, vendo aquele homem de terno largo, gravata berrante e aquele microfone preso no peito. Era o “Topa Tudo Por Dinheiro”. E eu, como toda criança que se preza, fui sequestrado pelas cores, pelos sons e pela presença quase sobrenatural daquele apresentador que falava diretamente comigo. Não era a intenção da minha mãe, certamente. Mas não adiantava: eu já tinha opinião formada, gostos próprios e um ídolo inegociável.

Silvio virou minha religião particular. Um deus pagão da televisão. Se ele caía na água, eu pedia pra minha mãe encher a banheira pra repetir o batismo. Me vestia como ele, ajeitava o cabelo do mesmo jeito. Se ele desabotoava o paletó (e sempre era o do meio, depois dos anos 2000), eu fazia o mesmo. Não imitava a voz, porque não era sobre imitação — era sobre essência. Eu não queria ser parecido com Silvio. Eu queria ser ele.

E assim foi. Na escola, em casa, nos cadernos rabiscados, nas apresentações improvisadas com plateias de familiares resignados. Eu era o Silvio Santos mirim. Um mini-showman órfão da fama. Um devoto incansável, construindo um altar com cartolina e fita VHS.

Sem internet, o mito era mais saboroso. Não havia o desgaste da superexposição. Ver Silvio era um evento. Um presente semanal. Quando ganhei meu primeiro celular com câmera, comecei a registrar suas aparições como se fosse um paparazzo da memória. Eu queria arquivar tudo. Queria reter aquele homem. Fixá-lo no tempo, como se já pressentisse que um dia ele não estaria mais ali.

Com a chegada da internet na minha vida, entre 2007 e 2008, o fascínio virou obsessão. Descobri Silvio em fotos antigas, de férias, de bermuda, sem o personagem. Descobri o bastidor do mito. E em vez de quebrar a mágica, aquilo me fez amá-lo ainda mais. Não era só o comunicador que me atraía — era o homem, o pai, o patrão, o gênio. Um ser com múltiplas camadas que ainda assim era acessível, humano, brasileiro até o último fio de cabelo alinhado com laquê.

A vida foi passando, claro. A infância ficou em alguma gaveta, junto com os ternos infantis e os microfones de brinquedo. Vieram outros ídolos, outras responsabilidades. Mas Silvio nunca saiu de mim. Ele era a voz que me levou à comunicação. Era o estalo que me fez virar locutor de rádio. Era, e sempre será, o motivo pelo qual acredito no poder da palavra falada.

Então veio 19 de agosto de 2024. Um sábado. A data maldita.

Eu já sabia que ele estava internado, em estado delicado. Minha rotina de fã obsessivo seguia intacta: pesquisar todos os dias “Silvio Santos” no Google e aplicar o filtro “últimas 24 horas”. Naquele dia, nenhum resultado novo. Um falso alívio.

Horas depois, no trabalho, entrei no site da Globo e lá estava:
“Morre apresentador e empresário Silvio Santos”.

Frio. Simples. Cru.
Uma nota rasa demais para um homem tão profundo.

Eu queria mesmo era que o mundo parasse. Que a rotação da Terra tivesse sua velocidade alterada. Que os anjos cantassem um coral de “Lá lá lá lá”. Que um clarão dividisse o céu ao meio para anunciar sua subida. Mas não. Silvio era humano. E, como humano, seu coração parou de bater.

Meu coração gelou. As mãos tremeram. O ar sumiu. Já havia perdido pai, mãe e avô. Mas ali foi diferente. Aquilo doeu de outro jeito. Silvio não sabia da minha existência, mas era meu parente mais presente. Estava comigo aos domingos, depois diariamente. Me formou como nenhum professor jamais conseguiu.

A morte dele não levou só um comunicador. Levou meu último elo com a infância. Enterrou junto uma parte da minha alma.

O mais agridoce é que mesmo na dor, eu sentia honra. A honra de ter sido seu contemporâneo. De ter presenciado seu auge. De ver, em tempo real, o homem que reinventou a televisão brasileira com uma naturalidade singular.

Silvio Santos era sedutor. Seduzia com gestos, com silêncios, com sua voz inconfundível e seu olhar meio sapeca, meio calculista. Ele sabia o que fazia. Sabia manipular emoções como um maestro do absurdo. Era um showman nato. Um psicólogo de auditório. Um encantador de donas de casa e de sonhadores perdidos. Um bilionário com alma de camelô.

Agora ele se foi. E com ele, foi-se um pedaço imenso da cultura popular. Foi-se um Brasil que sabia rir de si mesmo, que ligava a televisão pra sonhar e não pra se indignar. Foi-se o último dos grandes.

Silvio Santos morreu. E são poucos os que compreendem o tamanho disso.

Hoje, só me resta agradecer.

Obrigado, Silvio.
Por tudo.

Lucidez: o Entorpecente Supremo

Frequentemente me flagro em silêncio, observando os detalhes mais inúteis — e por isso mesmo, indispensáveis — da vida e do mundo. Se me pedissem uma palavra que me definisse por inteiro, eu não hesitaria: observador. Em todos os sentidos. Um ser voltado para dentro, com as janelas do lado de fora sempre entreabertas, apenas o suficiente para que entre ar e não tumulto.

Sou introvertido. Calado. Silencioso. Não por timidez — essa já passou, se é que algum dia existiu — mas por pura preguiça mesmo. Preguiça de gastar palavras com quem não oferece sequer um pensamento que dure mais do que quinze segundos na minha cabeça. A maior parte das pessoas me parece uma longa pausa entre um vazio e outro. E eu não tenho mais saco pra isso.

Enfim. Voltando às observações: os últimos dias foram chuvosos por aqui. E numa dessas noites, estacionado dentro do carro, com o motor desligado e a cidade finalmente muda, fiquei ouvindo os pingos no teto e no para-brisa. Pensei: está tudo dentro da normalidade. E é lindo quando percebemos que o mundo não precisa de nós pra girar. Ele segue. Gira. Chove. Faz sol. Sem pedir licença. Sem se importar.

Essa mesma chuva — esse som de água se jogando no chão como quem se despede de algo — já caiu sobre milhões de cabeças ao longo da história. Desde quando o primeiro ser humano olhou pro céu e se assustou com um trovão, até hoje, quando olhamos para cima apenas para ver se estragou o tererê no Tape Porã. A humanidade é isso: a mesma cara de espanto com roupagens diferentes.

Olho para o céu e penso: as estrelas que vejo são as mesmas que viram Cristo andar por aqui, há dois mil anos. São as mesmas testemunhas dos primeiros símios que aprenderam a temer o fogo e a amar a fogueira. O céu — esse teto infinito — já encarou bilhões de olhos humanos. E nunca piscou de volta.

Sim, eu tenho essa mania boba de ver poesia em tudo. Olho para as pessoas e me pergunto: o que já testemunharam esses olhos? Quantas lágrimas carregam esses sorrisos? O que já suportaram esses ombros que hoje fingem leveza?

E o mundo… ah, o mundo. Se tivesse pensamento próprio, o que diria sobre nós? Sobre essa nossa mania de nos acharmos protagonistas num palco onde, claramente, somos figurantes? Qual é o propósito de tudo isso, se poderíamos, muito bem, não estar aqui? A presença humana nesse globo molhado não melhorou muita coisa, sejamos francos. Somos um ruído incômodo na orquestra da existência.

Pra encerrar esse devaneio — que, dependendo do ponto de vista, pode parecer um porre — deixo aqui uma constatação: esses pensamentos só me visitam quando estou sóbrio. Quando tomo meus latões de Budweiser, não reflito sobre a insignificância humana. Talvez porque, no fundo, eu saiba que o maior entorpecente já inventado não vem em lata. Chama-se lucidez.

O Prazer Duvidoso de Morrer em Vida

Manhã fria de domingo. Primeiro de junho de 2025. São exatamente 7h30. Faz 7 graus na minha cidade e eu já estou de pé desde as 4h da manhã, porque aparentemente meu cérebro decidiu que dormir até tarde é luxo de quem não tem pensamentos autodestrutivos demais para serem ignorados. Enquanto a maioria das pessoas normais ainda está em coma REM, eu estou aqui, tropeçando nas minhas angústias e batucando no teclado como se isso fosse me salvar de alguma coisa.

Tenho a sorte — ou a maldição — de trabalhar com algo que me permite escrever nesse intervalo insone entre a solidão e o chimarrão. Às vezes escrevo. Às vezes só fico encarando a tela como um zumbi emotivo, esperando que a inspiração me vomite alguma coisa no colo. E cá estou. Vomitando. Ou tentando.

Esse espaço aqui? Uma espécie de diário disfarçado de desabafo. Um confessionário eletrônico onde me iludo achando que é só pra mim mesmo, quando no fundo, torço sim pra que alguém leia e me aplauda como se eu tivesse acabado de inventar o conceito de humanidade. Ah, a hipocrisia. Ela nem sempre me encontra, mas quando aparece, senta no sofá da sala e toma um chimarrão comigo.

Hoje de manhã li uma frase do Carpinejar. Dizia que deveríamos atualizar nossa data de nascimento frequentemente. Finalmente algo que faz mais sentido do que qualquer manual de autoajuda vendido a 39,90 na livraria mais próxima. Eu, por exemplo, já morri tantas vezes que se minha certidão de nascimento fosse atualizada, precisaria de uma planilha do Excel só pra organizar. Estou enterrado em versões de mim mesmo que não faço questão de visitar nem no Dia de Finados.

Minha memória é um desastre completo — já escrevi isso aqui, mas vale repetir pra quem acabou de chegar no rolê. Se eu vejo vinte filmes por ano, lembro de dois. E olha lá. Um defeito de fábrica que, ironicamente, me ajuda a viver. Porque junto com as lembranças boas que evaporam, as dores também somem. Aquela dor lancinante que um dia me fez jurar que não viveria até o mês seguinte? Apagada. Enterrada junto com o idiota que eu era naquela época.

O problema é que a felicidade também sofre desse Alzheimer precoce. Tem momentos lindos que simplesmente escorrem pelo ralo da minha mente, como se nunca tivessem existido. E isso me faz pensar como será minha velhice — se eu tiver uma. Com 31 anos e já com lapsos de memória dignos de um episódio de “This Is Us”, imagina aos 80. Vou precisar de legenda até pra lembrar o meu nome.

Mas voltando ao Carpinejar.

Minha vida não foi feita só de funerais emocionais. Também nasci. Muitas vezes. Nasci ao conhecer gente que valia a pena. Ao ouvir conselhos que doeram na hora mas me salvaram depois. Ao tomar uma cerveja estalando num dia em que o calor me fazia querer desistir da humanidade. Nasci quando escrevi algo que prestava. Quando fui, sem querer, um alívio pra alguém. Quando modifiquei um dia ruim alheio com uma piada ou um gesto bobo. Entre esses renascimentos e enterros, sigo. Meio cínico, meio esperançoso, feito um sobrevivente de guerra que ainda tem munição emocional pra tentar de novo.

Um dia, claro, virá o nascimento definitivo. Ou a morte que não dá lugar pra mais nada. Mas até lá, quero morrer muitas vezes. Quero explodir versões antigas de mim como quem limpa o histórico do navegador antes de emprestar o computador. E nascer de novo. De preferência mais irônico, mais lúcido, mais eu.

Só peço aos deuses — ou ao algoritmo universal que rege esse caos — que não deixem morrer em mim essa vontade de renascer. Que minha existência, mesmo caótica, mesmo cínica, ainda tenha fôlego pra impactar alguém, deixar uma lasca de sentido em algum canto, mesmo que seja só num post perdido como esse.

Se for pra ser esquecido, que pelo menos seja depois de ter sido inesquecível por cinco minutos.

Trinta e Um Anos de Stand-by

Na semana em que completo 31 anos de uma existência que beira o modo avião, decidi brindar a ocasião com mais um daqueles desabafos autopiedosos que só interessam a mim mesmo — ou, com sorte, ao redator que um dia precisará escrever meu obituário e não souber por onde começar.

É tempo, portanto, de balanço: o que vivi? Pouco. O que senti? Tudo. O que valeu a pena? Quase nada. É esse o paradoxo indigesto que me acompanha: a impressão de ter experimentado todas as dores do mundo, mas não ter vivido nada que realmente importe. Uma espécie de rodízio emocional onde só servem a conta.

Talvez eu seja apenas mais uma alma velha — daquelas que voltam pra essa dimensão só pra pagar dívidas cármicas em carnê, sempre vencido. Quem sabe essa sensação crônica de tédio, desencanto e déjà vu seja só meu boleto espiritual se manifestando.

Dizem por aí que isso se chama “crise dos 30”. Mas cá entre nós: essa crise me acompanha desde os cinco. Eu não fui uma criança feliz, nem um adolescente luminoso. Aos 20, já tinha as rugas emocionais de um idoso cético. Se essa crise é um evento isolado, alguém esqueceu de me tirar dela. A verdade é que, ao contrário do que dizem, ela não chega aos 30 — ela só ganha crachá.

Já escrevi em outros carnavais (e velórios emocionais) que sou um melancólico de estimação, um ranzinza vintage, um pessimista convicto com talento para ironia de boteco. Não esperem de mim um post de gratidão, cheio de hashtags sobre a dádiva da vida. Agradecer por estar vivo seria como agradecer ao governo por me deixar gastar meu próprio salário. No máximo, posso admitir que sobreviver tem seus momentos cômicos — e nem todos são involuntários.

Mas, justiça seja feita: nesse filme arrastado, algumas cenas salvaram o roteiro. A chegada da Julia, por exemplo, que deu uma cor inesperada a esse cenário cinza que eu tanto cultivo. E também os incontáveis gestos de amor dos meus saudosos pais, Neli e Ivo — presenças eternas, mesmo na ausência, que ainda iluminam meus dias com aquela luz morna e teimosa de abajur antigo. Se não fosse por eles, talvez o protagonista já tivesse pedido pra sair nos primeiros episódios.

Olho para esses 31 anos e vejo um roteiro mal escrito, dirigido por um estagiário de quinta categoria. A história anda, mas não vai. Muita coisa aconteceu, mas nada de fato aconteceu. A ansiedade por chegar logo aos últimos capítulos talvez seja a única motivação legítima que me faz levantar da cama. Curiosidade mórbida, digamos. Porque, sejamos honestos: até agora, esse filme tá mais pra drama existencial do que qualquer outra coisa — e sem nem uma trilha sonora decente.

Mas sigo aqui, esperando o clímax ou, pelo menos, uma reviravolta digna de série ruim da Netflix que nunca ficou no TOP 10.

O evangelho segundo os fofoqueiros

Antes que venham os insultos, fiquem tranquilos: não estou aqui para destilar ódio gratuito num ambiente que, ironicamente, ajudou a moldar minha infância — ainda que aos trancos, tropeços e com muito julgamento disfarçado de “preocupação cristã”. O que se segue é apenas um desabafo. Um grito mudo de quem mergulhou fundo na própria espiritualidade e emergiu com os olhos limpos, vendo tudo com muito mais clareza. Se isso ofende, sintam-se confortáveis para se ofender — é o mínimo.

Sempre me chamou a atenção a hipocrisia escancarada das pessoas do interior. Aquele tipo de hipocrisia que vem com cheiro de pão recém-saído do forno e sotaque carregado de santidade dominical. Homens e mulheres que fazem questão de estar nas primeiras fileiras da igreja, como se o lugar marcado garantisse assento VIP no céu. Mas bastam os primeiros passos até o corredor da comunhão para que comece o espetáculo mais tradicional dessas paróquias: a inspeção corporal alheia. Da cabeça aos pés. Olhar clínico, quase de raio-X — só falta o avental e a prancheta. O julgamento é silencioso, mas estrondoso. Uma espécie de revista íntima socialmente aceita. E o mais curioso é que há quem passe pano, dizendo: “Ah, coitadinhos… são ignorantes, não têm estudo.” Como se ignorância fosse escudo pra canalhice.

E sim, todo mundo que cresceu numa cidadezinha sabe: é exatamente assim. Em comunidades recheadas de descendentes de italianos e alemães que se acham a última bolacha do pacote (e nem é a mais recheada). Gente que se exala em arrogância como quem usa perfume importado: forte, enjoativo, e sem necessidade. Talvez se sintam superiores por terem algumas hectarazinhas de terra herdadas — que, convenhamos, no Mato Grosso não valem um cafezinho. Ou por possuírem tratores que foram lançamentos na época em que o Collor ainda era presidente. E claro, tem o grande diferencial espiritual: o dízimo gordo, em notas de cem, bem contadas, bem dobradas. Porque Deus, aparentemente, tem conta bancária.

E o que dizer daqueles senhores estrategicamente posicionados nas escadarias da igreja antes da missa começar? Um verdadeiro “Jornal Nacional da Fofoca” em versão agro. Durante vinte minutos, vomitam preconceitos com a mesma naturalidade com que comem pão e salame. Misoginia, racismo, homofobia e outros temperos que, por algum motivo misterioso, não anulam a santidade dominical de ninguém. Quando o sino toca, o personagem entra em cena: rosto compenetrado, mãos postas, olhar celestial. E a peça começa. Lá dentro, o julgamento continua, claro — às vezes nos olhos, às vezes num cochicho. Nunca falta uma sentença pronta. Deus, aparentemente, é só mais um nome na boca de quem já condenou o mundo inteiro com base no comprimento da saia ou na cor do cabelo.

Sério mesmo que essas pessoas acham que estão com a passagem carimbada pro paraíso? Que basta fingir por quarenta minutos todo domingo e tá tudo certo com o universo?

Eu, honestamente, não entro em igreja há anos. E mesmo assim, sinto dentro de mim uma espiritualidade mil vezes mais honesta do que a daqueles que recitam orações decoradas com a mesma emoção de quem recita a lista do supermercado. Não é sobre se achar melhor. É só que… talvez eu tenha parado de mentir pra mim mesmo — o que já me dá uma vantagem absurda.

Falo com Deus todos os dias. Do meu jeito. Sem ensaio, sem roteiro, sem precisar parecer mais puro do que realmente sou. Confesso meus erros, minhas falhas, minhas dores. Porque espiritualidade de verdade não precisa de platéia. E muito menos de plateia julgadora vestida de santo de ocasião.

Meu desprezo é reservado — e sem culpa nenhuma — aos hipócritas de missa e jaleco de moralidade. Aqueles que vestem o figurino do bom cristão por menos de uma hora por semana, mas passam os outros seis dias e 23 horas julgando a vida alheia. A ignorância, às vezes, merece compaixão. Mas essa… essa merece mesmo é julgamento divino. Um daqueles bem severos. E tomara que o Criador faça com eles o que eles fizeram a vida toda com os outros: julgue. Sem piedade. Sem entender o contexto. Sem ouvir defesa.

Porque justiça divina, meu caro, talvez seja só um espelho bem limpo.

Melancolia

Aproveitei essa manhã chuvosa de domingo para pesquisar sobre melancolia. Ingenuamente, confesso. Me deparei com definições que mais pareciam prontas pra ficha clínica: “estado de grande tristeza e desencanto geral; depressão”, ou ainda “estado mórbido caracterizado pelo abatimento mental e físico, manifestação de vários problemas psiquiátricos”. Segundo os especialistas, sou praticamente um caso de internação com laudo carimbado. E, no entanto, continuo aqui — sem camisa de força, mas com um tédio secular no olhar.

Sempre me considerei melancólico, sim. Não dessa forma dramática de manual de psicologia, mas num sentido mais… existencial. Eterno. Quase poético, se não fosse tão incômodo.

Desde criança me senti um adulto disfarçado de gente pequena. Enquanto a gurizada se esfolava em campos de futebol ou faziam calos na bunda andando de bicicleta, eu observava. Quieto. Alheio. Achava tudo ridículo — e, pior, barulhento. Odiava o alvoroço, as risadas sem motivo, as gracinhas repetidas. Sempre fui do tipo que acha mais digno um silêncio bem colocado do que três horas de conversa fiada temperada com ignorância.

Eu era um ser exótico na sala de aula: monossilábico, introspectivo, mas que se transformava quando o assunto realmente valia a pena. Nessas raras ocasiões, minha alma esticava as pernas e se espreguiçava. Mas era só. Rapidamente voltava ao meu modo de economia de energia social.

Fui criado com a televisão como babá emocional — mas, por favor, sem desenhos animados. Nunca tive paciência para mundos coloridos e vozes esganiçadas. Preferia a dramaturgia adulta, o caos ensaiado dos programas de auditório, Silvio Santos, Ratinho, Gugu e outras decadências televisivas da época. Enfim, uma infância moldada por um Brasil que não sabia se ria ou chorava de si mesmo.

Quanto à melancolia: vocês nunca vão me ver cantarolando, assoviando, ou explodindo em êxtase como um comercial de refrigerante. Sei que, por vezes, posso ser interpretado como alguém mal-educado, arrogante ou egocêntrico — mas nem sempre é essa a intenção. A alegria existe, sim, mas mora num canto escuro do peito — ali onde ninguém enxerga, e é melhor assim. O meu mundo interno é tão vasto que qualquer tentativa de colocá-lo pra fora me parece constrangedora. Conversas pequenas? Peço desculpas, mas não tenho estrutura psicológica. Aqueles diálogos de elevador, com perguntas que ninguém quer mesmo responder, são um tipo de tortura autorizada. E o pior: obrigatória.

Por muito tempo achei que era arrogância minha. Me achava um lixo por não conseguir fingir empatia social. Achava que era eu o problema, um poço de arrogância, olhando os outros de cima. Mas com o tempo, entendi: o problema não é me achar melhor. É só que não me interesso por nada que não seja real.

Prefiro dez minutos em silêncio — organizando o caos interno, trocando olhares com meus próprios pensamentos — a duas horas ouvindo alguém tentar parecer interessante. A maioria das conversas é só uma batalha de egos mal disfarçados. Um ringue de gente vazia disputando quem tem o vazio mais decorado.

Gosto de um texto do Bukowski, aquele velho sujo e sincero, que dizia: “Vão bater na sua porta, sentar numa cadeira e consumir seu tempo sem lhe acrescentar em nada. Quando muitas pessoas nulas aparecem e seguem aparecendo você tem que ser cruel com elas, pois elas estão sendo cruéis com você.” Assino embaixo. E coloco moldura.

Sinto falta de pessoas de verdade — mas não do tipo que recita Nietzsche em mesa de bar ou que enfeita conversa com palavras que soam bem no dicionário. Falo de gente que sabe o peso de um olhar. Que entende que o silêncio às vezes é a coisa mais barulhenta do mundo. E que atitude vale mais que qualquer parágrafo bem escrito.

Por isso, me poupem de jantares onde egos se empanturram de si mesmos. Se me verem lá, saibam: é por obrigação. E estou odiando cada segundo, desejando a queda de energia, o fim do mundo, ou pelo menos que a sobremesa venha logo pra eu poder fugir.

Tenho dito, e repetido: cansei das pessoas. Não das pessoas em si, mas desse grande teatro ambulante em que todos estão atuando num roteiro ruim, fingindo gostar uns dos outros, trocando sorrisos que só servem pra mostrar os dentes. E o pior: temos que aplaudir no final.

A sociedade exige que convivamos. Que sejamos cordiais, sorridentes, produtivos. Que paguemos IPTU, IPVA, IR, e ainda agradeçamos a oportunidade de sermos sugados lentamente. Então sim, eu visto minha máscara todo dia — cada vez com mais nojo, é verdade, mas visto. O baile de máscaras é obrigatório. E, infelizmente, ninguém nos deixa sair antes da última música tocar.

Grande bosta!

O dicionário define egocentrismo como um conjunto de atitudes ou comportamentos que indicam que um indivíduo se refere essencialmente a si mesmo. E, sinceramente, é o que mais tenho visto por aí: uma galera forçando a barra até o último fio de dignidade. Ajudando os outros, claro, mas apenas se houver um fotógrafo, uma plateia ou, no mínimo, uma boa oportunidade de colocar a hashtag certa no Instagram. Porque, convenhamos, fazer o bem sem esperar retorno é quase um desperdício, né? Só faltam pedir aplausos pela gentileza.

Acredito que eu esteja avançando de maneira constante na construção diária de uma mentalidade mais equilibrada, para evitar ser contaminado por essa doença. Quanto menos barulho interno e externo, melhor. Aliás, se eu fosse mandado para uma ordem superior de viver o resto da minha vida numa mata, sem ver outro ser humano por décadas, eu seria o cara mais feliz do mundo. Desde que, claro, tivesse Wi-Fi, cerveja, energia elétrica e um carro para eu fugir para a cidade de vez em quando (porque, né, ninguém é de ferro). (Risos).

Mas, voltando ao ponto – esse assunto que parece ser uma verdadeira epidemia: tem gente que realmente sente uma paixão quase… visceral pela própria imagem, pelos feitos heroicos que criou para si mesmo e por qualquer “diferença” que possa fazer, mesmo que essa diferença não mude nada para ninguém além de seu próprio ego. E olha, carrego por esses indivíduos uma mistura de pena e um desprezo tão grande quanto o tamanho de sua própria vaidade. Sério, dá até pra ouvir o eco de seu ego ressoando por quilômetros.

Por outro lado, sou capaz de aplaudir de pé os verdadeiros heróis anônimos. Aqueles que fazem a diferença no mundo e sequer têm tempo para pensar em cartazes, medalhas ou selfies de conquistas. Voluntários, assistentes sociais, cientistas, até mesmo religiosos (porque, em alguma medida, a igreja ainda deve servir para algo bom). Essas pessoas que, ao final de suas jornadas, vão morrer no anonimato, sem um reconhecimento sequer – e que honestamente estão pouco se importando com isso.

E, para finalizar, vou aplaudir a todos eles, e a mim mesmo, que estou aqui escrevendo nesse site sabendo que ninguém irá ler. E, claro, ninguém jamais fará uma estátua em minha homenagem na Praça Aquiles Turra, com inscrições clichês e frases vazias. E sabe o que mais? Estou cagando e andando pra isso.

Vamos manter o tom?

Em comemoração aos gloriosos 6 anos deste espaço, decidi dar uma repaginada no nome do blog. Agora, ele se chama “No Tom do Rigon”, porque, convenhamos, nada mais justo do que o meu nome estampado, já que cada linha escrita aqui carrega o meu tom único e irrepetível.

Estou pensando em dedicar mais tempo para atualizar este espaço – até porque, sejamos sinceros, não sou a única cabeça fervilhando pensamentos de toda sorte nesse mundão. Então, por que não compartilhar com vocês, meus queridos leitores. E se, por algum milagre do destino, alguém se identificar com minhas incoerências, fica o convite: seja bem-vindo ao clube! Sem regras, sem filtros, só a pura e maravilhosa falta de sentido que só quem é digno de tanta genialidade sabe apreciar.