Perdoem-me a falta de modéstia, mas é impossível não compartilhar um pouco da minha grandiosidade com vocês. (Risos estilo Chaves).
1 – Durante mais de 5 anos, comandei o maior império virtual sobre a vida e obra do cantor Amado Batista. O Blog Amado Batista, o Eterno Seresteiro figurou por diversas vezes no TOP 100 dos sites mais acessados no Brasil, lá pelos idos de 2010. Eu comandava uma equipe de 3 editores: Jaquisson da Cruz, José Assuerio e Luciano Silva estavam sempre prontos para atualizar o conteúdo. Até o próprio Amado acessava para ficar por dentro do que acontecia na sua vida.
2 – Sou radialista há 12 anos. Atualmente, apresento o Faixa Nobre de segunda a sexta-feira na Rádio Noroeste de Santa Rosa – RS, das 13h às 15h. Apresentei por quase 10 anos um programa chamado “Clube da Noite”, das 20h às 22h. Foi meu início no rádio. Também empresto minha voz para prefixos, chamadas e notícias da Empresa Jornalística Noroeste. Algo que pode-se chamar de “locutor padrão” da emissora.
3 – Tenho um canal no YouTube desde 2008, com mais de 60 mil inscritos. Ali, você encontra de tudo: trilhas raras de programas de TV, poemas e declamações que eu mesmo recito, músicas de artistas que me agradam – porque, claro, todo o conteúdo ali é de altíssimo nível e 100% do meu gosto pessoal.
4 – Sou completamente viciado em músicas sertanejas românticas das décadas de 60, 70 e 80. A raiz sertaneja é algo que me arrebata, e foi até a inspiração para o programa Cadeira de Balanço, que compartilho com o Zelindo Cancian aos sábados à tarde na Rádio Noroeste. Uma parceria que já dura 12 anos.
5 – Cerveja, gente. Só cerveja. Eu sei, eu sei, é super elegante falar de vinhos, whiskys e outros destilados. Acho bonito também, mas se esse for o assunto, me sinto um pinto no brejo! Minha bebida preferida é a cerveja, e se for puro malte, melhor ainda. A minha queridinha? Serramalte. Pena que, assim como meus sonhos, ela também sumiu.
6 – Ah, os carros… Minha outra grande paixão. Hoje, tenho um Corolla XLI 2004 automático, meu sonho de infância. Pode me chamar de “velho”, “carro de aposentado”, mas esse carro é o meu xodó. Tem muita coisa que poucos zero km tem. Ele é confortável, macio, e absolutamente elegante. E sim, eu sou um senhor de 90 anos dentro de um corpo de 30. Aceitem!
7 – Silvio Santos. Esse homem me faz ter uma admiração quase inexplicável. A morte dele em agosto de 2024 me deixou em luto por uma semana. Na infância, me vestia como ele e apresentava os meus programas imaginários. Eu era o “Silvio Santos” do meu quarto, com cartazes na parede, livros e recortes de jornal. Se eu fosse ele, provavelmente também me amaria. Nos primórdios da internet, época do MSN e Orkut, tinha fã-clubes espalhados pelo país. Amigos que fiz e que acabei perdendo o contato. Mas os trago comigo com saudade.
8 – Televisão: ah, a boa e velha televisão. Cresci nos anos 90, e a TV era minha melhor amiga. Xuxa, Ratinho, Gugu, e claro, Silvio Santos, moldaram minha infância. Não posso esquecer de Chaves e Chapolin, que já dispensam apresentações. Quando a internet chegou, virei um estudioso de televisão, me metendo até a editar portais de audiências do IBOPE. Se tem uma coisa que sei fazer, é analisar números de audiências da TV aberta.
9 – Sou praticamente um eremita social. Tenho poucos amigos – e eles são os mesmos desde a infância e adolescência. Sou caseiro, detesto festas e eventos. Se me procurar, vou estar em um bar simples, tomando um litrão de cerveja e devorando um Xis Calota com a minha esposa. Ou, quem sabe, um picadão que serve quatro pessoas, mas que damos conta sozinhos. Essa é a minha ideia de diversão. Fica a dica.
10 – E, finalmente, odeio aquelas listas do tipo “10 curiosidades sobre mim”. Quem escreve isso normalmente quer mesmo é aparecer. Sério, quem se importa? Alguém realmente está tão interessado nas minhas “curiosidades”? Duvido. Se é pra saber algo sobre mim, pergunte diretamente.
BÔNUS: Faltou muita coisa, como, por exemplo, minha épica e frustrada jornada pelo universo político. Mas, claro, como este espaço não é nem um pouco pornográfico, vamos deixar essa história para uma próxima oportunidade.Até porque, convenhamos, qualquer zonão de beira de estrada, com cerveja quente e aquele aroma inconfundível de mijo ressequido, tem mais estrutura e organização do que a política de pequenos municípios.
Eu e minha esposa, Julia, compartilhamos um desejo em comum: não ter filhos. E, pasmem, esse foi um dos principais fatores que nos uniu. A ideia de trazer uma nova vida ao mundo em 2025? Uma atitude de total e absoluta coragem ou talvez de total falta de noção. A não ser, é claro, que você tenha uma fortuna acumulada e coragem para enfrentar um futuro incerto. Como eu não tenho nem uma coisa nem outra, resolvi abrir mão da ilusão de ter “quem me cuide” na velhice. (Risos) A famosa frase que meus parentes (que vejo uma vez por ano) soltam como um mantra: “Ah, você vai ver, quem vai te cuidar quando ficar velho?” Ah, sim, eles, com seus conceitos de vida antiquados, machistas e religiosos enraizados lá no século XIX, mas que respeito… Porque, convenhamos, ignorância também é uma arte. Conheço velhos e velhas, com uma dúzia de filhos, sozinhos e abandonados em lares de todo Brasil. Sejamos menos hipócritas!
A decisão é nossa, e os outros que se virem com a deles. Egoísmo puro? Talvez. O mundo está cada vez mais insuportável, uma verdadeira selva de amebas ambulantes, sem vontade de pensar, só de consumir e repetir. Não acho justo trazer alguém ao mundo sem que essa pessoa tenha pedido para nascer. Fizeram isso comigo no passado, e agora estou aqui, sem outra escolha além de viver.
Para alguns, soa quase como uma blasfêmia, ou como dizer ser admirador de Adolf Hitler. No entanto, minha esposa, que sempre teve uma grande paixão por crianças, fez uma escolha diferente: ela decidiu direcionar esse amor para sobrinhos, filhos de amigos e vizinhos. E isso, para nós, está mais do que certo. Respeitar as escolhas individuais e compreender que existem diferentes formas de viver a vida é essencial para uma convivência saudável e sem julgamentos. No final, o que importa é a felicidade e o bem-estar de cada um, independente do caminho escolhido.
Julia até que se dá bem com as crianças. Elas adoram ela. Comigo o lance é diferente. Sempre me senti um pouco deslocado perto delas, especialmente as mais novas. Isso porque, com elas, não posso recorrer ao roteiro habitual de conversas triviais, como “Como estão as coisas na escola?” ou “E no trabalho?”. Também não me identifico com aquela atitude de fazer gracinhas ou bajular as crianças, algo que parece ser tão comum entre as pessoas, especialmente mulheres neurotípicas. Isso simplesmente não sai de forma natural para mim. Quando tento imitar esse comportamento, para evitar parecer rude ou frio, sinto que fica muito forçado (porque é). Na verdade, raramente sinto a onda de afeição que muitos parecem experimentar na presença de crianças. Posso ver uma e achar que ela é adorável (de uma forma não esquisita), mas é só isso. Não sinto necessidade de expressar.
Talvez a psicologia possa explicar que isso tenha a ver com algo da minha própria infância, quem sabe traumas ou experiências que marcaram o meu “eu” criança. Mas isso, deixo para a psicoterapia.
Buenas, voltando ao “Não querer ter filhos”: Tem uma frase de Machado de Assis que resume toda essa história enjoada: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” Eu sei, é forte, mas absolutamente real.
Vamos seguir em frente, sem filhos, sem arrependimentos e, mais do que tudo, com uma ponta de pena daqueles que, com a vida em pedaços de tantos jeitos, ainda acreditam que ter um filho será a solução mágica para todos os problemas. Eu, pessoalmente, sou mais da filosofia de ser o capitão do meu próprio navio – ou pelo menos tentar evitar o naufrágio sozinho. E, nesse mar de incertezas, prefiro ser o único a determinar meu rumo, sem esperar que a chegada de outra pessoa seja a âncora que vai me salvar.
Ah, as pessoas… Ultimamente, elas têm me dado uma preguiça quase moral. Eu tentei, juro que tentei, garimpar um adjetivo mais interessante, algo mais exótico, mas nada, a palavra é preguiça mesmo. Todos, absolutamente todos, com suas vidas ridículas, acreditando que são os donos do universo. E o pior é que eles realmente acham que estão fazendo alguma diferença.
Olho no olho de cada um e vejo… bom, nada. Não há alma, não há humanidade. Nenhum resquício de espiritualidade. Nos momentos raros em que consigo enxergar algo, é apenas a ânsia desesperada por mais dinheiro, mais poder, tudo isso só para alimentar um egocentrismo incontrolável. Quanta profundidade!
Não estou dizendo que todo mundo precise decorar “Tabacaria” de Fernando Pessoa, ou recitar cânticos tibetanos como se a iluminação estivesse na ponta da língua. Mas, sei lá, falta algo. Uma pitada de tempero. Aquela chama que faz tudo ser um pouco mais interessante, um pouco menos previsível. Todos são iguais, com os mesmos objetivos, os mesmos sonhos, as mesmas ideologias rasteiras. Mergulhados na mediocridade coletiva, como se fossem peças de um grande quebra-cabeça chamado vida, mas sem nunca entender o jogo.
Tudo se torna ainda mais desesperador quando percebo que eu também faço parte dessa multidão. Que eu também sou considerado por mim um bosta. Simplesmente por estar no mesmo universo que eles. Por não ter coragem de começar um revolução, nem mesmo dentro da minha própria vida.
Das máscaras que tanto condeno nos outros tenho uma coleção. Para os amigos, uma. Para a esposa, outra. Para os colegas de trabalho, uma terceira. Mas no fundo, quem sou eu mesmo? Quando consigo ser eu? Quando estou sozinho, em silêncio. Num quarto escuro comigo mesmo. Quando estou absorto numa reflexão ou simplesmente contemplando um pôr do sol, ou observando a simplicidade das coisas. Com a cabeça cheia de pensamentos e um turbilhão de sensações. Sem companhia, sem plateia. Apenas eu e minha essência, que é bem simples, quase invisível, silenciosa. Como uma criança de 8 anos, que ainda sobrevive escondida dentro de mim mesmo sem alimentação.
A conclusão, entretanto, é inexistente. Cada um é aquilo que é, adornando-se com as vestes que escolhe para se tornar — ou quem sabe, apenas para aparentar ser. No final, não há como penetrar na essência do outro; nossos corações permanecem enigmáticos, insondáveis. Somos enigmas vivos, irreconhecíveis e indomáveis. E mesmo que, por um capricho do destino, algum dia essas verdades ocultas venham à tona, o que restaria dessa revelação? Nada, é claro. O mundo está repleto de cemitérios onde repousam poetas e filósofos cujos pensamentos foram incompreendidos em vida, cujas palavras se perderam na indiferença do tempo. E, ao fim, qual o valor disso tudo? Nenhum. O que verdadeiramente me consola é a melancolia que habita em mim, acompanhada da convicção de que, no fim das contas, tanto o Papa quanto o mendigo que me pediu uma moeda ontem no centro da cidade, compartilharão o mesmo destino inexorável. Um fim que, para todos, será igual, imutável e, em sua essência, irrelevante.
Não, não é sobre contratos, empresas ou privatizações. Não espere aqui uma dissertação sobre a Corsan ou qualquer outra estatal. O tema é mais sutil, mais traiçoeiro: a terceirização dos nossos sentimentos.
Sim, essa prática silenciosa e onipresente, em que delegamos ao outro a responsabilidade de nos fazer felizes, plenos, completos. Como se a satisfação fosse um serviço de entrega e a autoestima, um contrato assinado em cartório.
Talvez seja hora de encerrar essa terceirização desastrada. Assumir o comando. Pagar o preço – e colher os lucros – de sentir por conta própria.
Dizem que o corpo é o primeiro a adoecer quando a alma se inquieta. Pois bem, se isso for verdade, já deveria estar em ruínas. Mas cá estou, resistindo, insistindo, tentando me tornar um caso raro, uma exceção à regra.
Exercito diariamente um pensamento que, se um dia dominar por completo, me fará quase divino: ninguém me irrita, ninguém me magoa. O que há são provocações, tentativas vãs de abalar uma fortaleza. O estrago, se acontece, é de minha própria autoria. E se é assim, por que seguir terceirizando meu humor? Por que permitir que outrem seja o maestro das minhas tempestades?
Tolerar. Perdoar. Esquecer. Dizer “não” sem carregar um caminhão de culpas. Eis as armas desse combate. Simples na teoria, uma epopeia na prática. Há dias em que venço. Em outros, sou vencido… e, ironicamente, pelo único inimigo real: eu mesmo.
Mas sigo. Porque, ainda que essa seja uma guerra sem medalhas, o simples fato de estar na luta já me faz um vencedor. E quem sabe, um dia, eu descubra o segredo absoluto da paz de espírito. Ou, pelo menos, aprenda a rir do caos sem que ele me roube o sono.
Volta e meia me surpreendo comigo mesmo. E é engraçado pensar que, com 90 anos, talvez ainda não me conheça por inteiro. Ultimamente, algo tem me chamado a atenção: essa paixão peculiar por objetos, sejam antigos ou não, que tiveram alguma importância, por mais simples e banal que tenha sido, num determinado momento da minha existência. Eu tenho uma grande dificuldade em me desfazer das coisas. E quando digo “coisas”, não me refiro a móveis, carros ou pessoas. Isso até que é mais fácil (risos). Falo, na verdade, daqueles objetos que parecem não ter significado algum, mas que de alguma forma se tornam testemunhas de momentos importantes da minha vida.
Não é à toa que tenho uma caixa cheia de tranqueiras, mas que, na verdade, são os meus maiores tesouros. Um isqueiro, por exemplo, o último que meu pai usou. Ou um bilhete deixado pela minha mãe dizendo que ia ao mercado e logo voltava. Pode parecer ridículo, eu sei. Como um guardanapo com uma escritura improvisada de “Te amo” da minha esposa, ou uma embalagem de chiclete no assoalho do meu carro. Coisas que poderiam ser simplesmente descartadas, mas que, para mim, são símbolos imortais de algo que aconteceu ali. Algo que, aparentemente, se perdeu no tempo, mas que eu insisto em guardar, como um verdadeiro colecionador de memórias.
Como não amar o chão de caquinhos na lavanderia da casa onde meu pai morava? (Foto). Não pelo chão em si. Mas antes de serem caquinhos, eram cerâmicas inteiras, espalhadas por paredes e pisos. O que será que essas cerâmicas testemunharam? Quais momentos passados por ali, pisados, errados ou cuidadosamente evitados? Às vezes, basta um simples pedaço de cerâmica quebrado para que a casa inteira, com suas paredes e pisos, se reconstituam em minha mente, como uma máquina do tempo. Eu me pego imaginando as histórias escondidas ali, no espaço entre os caquinhos, histórias que talvez nunca venham à tona, mas que continuam a existir em algum canto da memória, tal como esses pedaços de cerâmica que jamais podem se desfazer totalmente.
Enfim, tenho uma relação absurda com esses objetos. Uma devoção, talvez, um tanto incomum. Mas é que, para mim, eles são mais do que pedaços de plástico, papel ou metal. Eles são fragmentos de histórias, de cenários onde grandes acontecimentos — mesmo que banais — se desdobraram. São coisas materiais, com significados que, aos olhos de qualquer um, são quase insignificantes. Mas em minha cabeça formam um poema inefável, uma narrativa impossível de ser traduzida em palavras. Cada um desses objetos, assim como meu olhar, foi uma testemunha das boas e das nem tão boas experiências que vivi. Não posso ser covarde com eles. Não posso simplesmente jogá-los fora. Eles fazem parte de mim. Da minha existência.
Então, deixo aqui minha homenagem a essas coisas pequenas e aparentemente insignificantes, mas que para mim têm um valor indizível, guardado no peito acompanhado de um carinho que só quem sente é capaz de entender. Pois é, talvez eu esteja guardando mais coisas do que realmente devia, mas quem se importa? Afinal, quem somos, senão uma coleção de memórias e objetos que, ao longo do tempo, aprendem a falar mais sobre nós do que qualquer palavra poderia dizer?
O bom de ser o único leitor desse blog, é que posso utilizar esse espaço pra fazer algumas confissões que, se publicadas num jornal de circulação local, certamente me afastariam de alguns parentes, amigos e, quem sabe, até de pessoas que se dedicam com empenho a evitar qualquer tipo de debate ou conflito. Sabe aquelas pessoas que fogem de quem pensa diferente só pra manter a paz e a segurança da sua bolha confortável? Pois é, talvez esse texto seja o motivo de você, querido leitor invisível, dar tchauzinho pra mim. Mas enfim, vamos lá.
Minha infância e pré-adolescência foram uma verdadeira montanha-russa espiritual. Por um lado, lá estava a igreja evangélica da minha mãe, um lugar que, de algum modo, ainda carrego uma certa nostalgia, principalmente pelas canções que me faziam chorar copiosamente. Do outro, o catolicismo do meu pai, que acabou moldando minha entrada no mundo da comunicação, principalmente através das leituras que fazia nas missas e que desencadearam à minha entrada no Rádio. Entre esses dois mundos, não tinha muito espaço para pensamentos próprios. No começo da vida, todo mundo é apenas uma esponja absorvendo o que vem de cima, dos pais, da família ou da comunidade em que nasce, certo?
Com o tempo, minha percepção da vida foi mudando e, em um momento de reflexão mais profunda, decidi que precisava entender melhor a questão espiritual. Estudei, li, pesquisei… E, surpresa, meu pensamento evoluiu. E se você acha que minha conclusão é um “feliz final cristão”, sinto muito. Pois pasmem: Tenho um tio que é pastor evangélico e uma tia que é freira (irmã de caridade). Então jamais poderei desrespeitar alguém, mas também exijo que respeitem minhas conclusões. Vamos deixar isso claro.
Percebi, com o tempo, que nas primeiras fileiras das igrejas estavam normalmente as pessoas das quais eu mais gostaria de estar a quilômetros de distância. Sabe aquelas pessoas? Grossas, estúpidas, arrogantes, prepotentes, com um nível de empáfia que faria qualquer um se sentir pequeno só de olhar. Aquelas que, aparentemente, estavam mais preocupadas com o título de “bom cristão” do que com qualquer noção de humildade ou empatia. E aí, me veio a pergunta: algo não estava certo. Se essa era a imagem de quem seguia a palavra de Deus, então acho que a coisa toda tinha um certo defeito de fábrica. Nisso tudo se encaixa uma frase que sou fã: “Eu nem sempre respeito as pessoas de cabelos brancos pois até os canalhas envelhecem.”
A verdade é que eu cheguei à conclusão de que tudo o que pode ser rotulado de “religião” nem sempre traz os benefícios que dizem por aí. Vou pegar mais pesado: Religião pra mim é como uma loja Havan, Renner ou Magazine Luiza. Um comércio puro e simples. Venda de sonhos e esperanças aos mais humildes e vulneráveis, em troca de dinheiro. Um baita negócio criado pelo homem e que deu certo até demais.
Falo com propriedade, pois descobri dentro de mim o que as igrejas sempre insistem que eu deveria encontrar lá dentro. E olha, acredite ou não, construí minha própria espiritualidade, que é, na real, uma conversa quase diária com Deus. Agora, não me venha perguntar quem é esse tal de Deus, porque eu não o vejo como um vovô de cabelos brancos que comanda o universo. Eu o vejo como uma força sublime, algo que criou e coordena tudo. Chame-o como quiser. Creio que há 2.025 anos atrás passou por aqui um homem diferenciado. De carne e osso como nós. Que foi iluminado pelo mesmo sol que nos ilumina hoje. Um ser humano que de tão especial dividiu o calendário em antes e depois dele.
Essa força, essa essência, é com quem eu converso, como se fosse um amigo de longa data. Peço conselhos, desabafo, agradeço. E essas prosas, sempre em voz alta, me fazem muito bem. Aliás, pode ser que essa força seja eu mesmo, seja o próprio universo ou que ela esteja dentro de mim. Não sei. Aprendi a respeitar a dúvida com Antonio Abujamra – pra mim, convicções são como as piores armadilhas, elas sempre traem.
E é nesse ponto que chego ao que eu realmente acredito: a melhor maneira de honrarmos essa força, esse Deus, é entendendo que somos todos iguais. Cada ser humano, cada respiração, cada vida é igualmente importante. E o que realmente importa? Nada! Bem, a vida já é, de certa forma, uma sentença de morte desde o primeiro suspiro. Então, que medo devemos ter? E por que ficar sonhando com o que não existe? A vida, meu amigo, sempre foi uma causa perdida.
Atualmente, não frequento nenhuma igreja em particular, mas sei que em qualquer uma delas posso adentrar e me sentir em paz. Afinal, o que realmente importa não é o que encontramos no ambiente físico, mas o que carregamos dentro de nós. O verdadeiro templo está em nosso ser, no silêncio que habita nossa alma e na conexão que estabelecemos com algo superior, independente do espaço. A espiritualidade não se limita a uma construção ou a rituais externos; ela reside na essência de cada um de nós, no coração e na mente, onde a verdadeira paz e harmonia se encontram.
No fim, o que eu busquei com essa espiritualidade que criei foi um motivo, uma razão pra continuar andando por aí, sem cometer loucuras contra mim mesmo. Só isso. O resto? Ah, o resto é tudo fumaça.
Revisito frequentemente esse cemitério de pensamentos. Em cada publicação, uma ideia que já se foi, enterrada sob o peso do tempo, da inércia ou da falta de coragem para ser exposta ao mundo. Me sento diante da tela em branco, essa tela que me desafia como um espelho quebrado refletindo um pouco de mim, e tento escrever algo. Algo que faça sentido, talvez, ou que apenas invente um sentido qualquer, se for o caso. Poemas de amor? Poemas sobre a vida? Melhor não. Não tenho palavras para decifrar o caos que me permeia. Mas como Bukowski sabiamente disse: “Se tens que estar horas sentado a olhar para a tela de computador ou curvado sobre tua máquina de escrever procurando as palavras, não o faças.”
Aceitei o conselho. Não o faço. Mas sigo aqui, respirando, caminhando, comendo, dormindo, bebendo, fazendo tudo isso com uma precisão quase mecânica, como se fosse o suficiente para manter as engrenagens do corpo em movimento, ainda que o espírito insista em permanecer estagnado. Sigo como se houvesse algum tipo de recompensa mágica esperando no fim desse túnel nebuloso de dúvidas e perguntas sem resposta. Mas, no fundo, sei que talvez o sentido nunca chegue. E se não chegar, que seja. Já estou quase confortável com essa ideia. Afinal, é como dizem: “A vida é uma piada, e eu sou o único que entendeu.”
Sigo por aqui, apenas esperando que um raio de inspiração decida me visitar. Talvez seja isso que me mantenha são: a aceitação do absurdo, o humor nas sombras, e a ironia de saber que nunca saberei o suficiente. E se eu souber, provavelmente não vou dar a mínima.
Cá estou eu, com minhas trinta primaveras, e ainda cometo o maior atrevimento possível: deixar a vida para depois.
Ainda quero um fim de semana inteiro sozinho, ouvindo música clássica, escrevendo sobre o peso e a leveza de existir. Mas isso pode esperar.
Ainda quero acampar à beira de um rio, com duas garrafas de vinho barato e o silêncio como companhia. Mas isso pode esperar.
Ainda quero andar descalço sobre um gramado, num domingo ensolarado, sentindo a brisa tocar a pele, o passado me puxando, e o futuro, leve, me chamando. Mas isso também pode esperar.
Ainda quero contemplar uma paisagem, conversar com Deus no silêncio de um nascer de sol, chorar minha raiva pelas perdas, e agradecer, em pranto, pelos presentes. Mas isso, quem sabe, também pode esperar.
Só espero, de coração, que esse esperar nunca me seja negado, mesmo quando o tempo se esgotar, mesmo quando não houver mais esperas — apenas o silêncio do que ficou por viver.
Quem navegar pelas publicações deste blog encontrará o artigo “A Maior Dor do Mundo”, onde compartilho a história do repentino falecimento de minha mãe, Dona Neli, aos 57 anos, e minha jornada com a morte e a espiritualidade. Considerava aquele golpe o mais duro que a vida poderia me dar, mas o destino mostrou-se ainda mais implacável. Nesse artigo, relato também a perda de meu pai, Seu Ivo Rigon, aos 61 anos, nove meses após o falecimento de minha mãe, e como minha maturidade espiritual e minha visão da vida e da morte me ajudaram a atravessar esse período.
Meu pai sempre foi um trabalhador incansável. Sua infância e adolescência difíceis no campo moldaram sua força para os quase 30 anos seguintes trabalhando em uma madeireira. Sua determinação era impressionante. Acordava religiosamente às 5h30, fumava cerca de cinco cigarros até às 6h50, quando saía para o trabalho. Voltava por volta do meio-dia, tirava uma soneca e repetia o ritual à tarde. Às 18h, saía do trabalho para sua rotina noturna, que sempre incluía uma parada no Bar da Alemoa, onde tomava dois ou três sambas (coca-cola com cachaça). Essa foi sua rotina por décadas.
Meu pai no lendário “Bar da Alemoa” em Cinquentenário.
No início de 2021, sua saúde começou a declinar gradualmente. Ele reclamava de fraqueza nas pernas e não conseguia mais ir ao trabalho a pé. Em maio do mesmo ano, um golpe profundo afetou a todos nós: a morte de minha mãe. Apesar de separados, eles sempre mantiveram um vínculo emocional forte até o último momento. O casamento deles nunca foi fácil, com brigas constantes e uma convivência difícil. Cresci vendo discussões acaloradas, mas também momentos de amor.
Após a morte de minha mãe, a saúde de meu pai piorou. Ele parou de trabalhar, o que só contribuiu para seu declínio. A fraqueza nas pernas se intensificou nos meses seguintes, e em fevereiro de 2022, sua condição se agravou. Seus pulmões deram sinais de problemas, mas descobrimos que tudo começou com uma trombose nas pernas que levou ao entupimento de artérias importantes do coração.
Uma semana antes de partir, ele estava com dificuldades para respirar e caminhar por longos períodos. No último domingo que estive com ele, pediu que eu fosse comprar cigarros e uma garrafa de cachaça na vila. Brinquei com ele, dizendo: “Quer cigarros e o caixão também?”, devido aos seus problemas pulmonares. Ele riu. Comprei a cachaça, pois não encontrei os cigarros. Ele pediu que eu o levasse ao hospital na segunda-feira se não melhorasse durante a noite. Infelizmente, foi o que aconteceu.
O levei para o hospital, onde ficou internado recebendo oxigênio e passando por uma série de exames. Na quarta-feira, seu estado de saúde piorou. Ele recebeu uma sonda e outros equipamentos para monitorar seus batimentos cardíacos. Meu pai nunca tinha ficado internado antes, então vê-lo cheio de aparelhos foi assustador. Ele estava lúcido, mas com medo. Naquela altura, ele parecia prever o que estava por vir, falando sobre a morte e dando instruções caso não sobrevivesse. Eu e meu irmão, Diogo, nos revezávamos para cuidar dele. Estávamos otimistas até quarta-feira, quando sua condição se agravou. Lembro-me vividamente dele tentando tomar banho naquele dia, poucas horas antes de piorar. Olhava para ele e refletia sobre como a vida é imprevisível, lembrando-me da força que ele tinha e do sofrimento que estava enfrentando.
Passei a última noite ao seu lado. Cada momento daquela madrugada de 19 de fevereiro foi doloroso. No silêncio do hospital em Tuparendi, os apitos dos equipamentos contrastavam com o ambiente calmo. Ele quase não dormiu, mas estava relativamente bem, exceto pela falta de ar ao caminhar. Devo ter dormido por cerca de 10 minutos naquela noite. Sentado no sofá, refletia sobre a vida e pedia a Deus que o libertasse daquele sofrimento. O momento mais marcante foi quando as enfermeiras trocaram um equipamento e vi lágrimas em seus olhos, silenciosas, como um pedido a Deus para acabar com seu sofrimento. E Deus atendeu ao nosso pedido. Talvez não da forma como gostaríamos, mas o sofrimento dele terminou naquela manhã.
O dia amanheceu silencioso e frio. Eu estava prestes a sair para trabalhar na rádio, e meu irmão ficaria no meu lugar. Estava me despedindo quando ele pediu para eu esperar enquanto ele ia ao banheiro. Ajudei-o a se levantar e esperei pacientemente. Na volta para a cama, ele caminhava lentamente, seu olhar fixo no canto do quarto. “Chame as enfermeiras, estou me sentindo mal”, foram suas últimas palavras quase sussurradas. Chamei as enfermeiras e, ao voltar, testemunhei seus últimos momentos. Fiquei chocado do lado de fora, mas já esperava o pior. Tentaram reanimá-lo por alguns minutos, mas foi em vão. Logo depois, meu irmão chegou.
Eu e meu irmão não podíamos acreditar que, nove meses depois, estávamos passando pela mesma situação novamente. Nesses nove meses, me aproximei muito do meu pai. Inconscientemente, talvez o sofrimento nos uniu. Perder esse último elo com a minha infância, com a minha história, foi extremamente doloroso. Ao vê-lo na maca, sem vida, sussurrei em seu ouvido as mesmas palavras que disse para minha mãe nove meses antes: “Descanse em paz, o sofrimento acabou. Você irá para um lugar melhor, sem dor, sem sofrimento. Não se preocupe, nós vamos ficar bem.”
Casamento dos meus pais em 1982.
A perda de meus pais foi, sem dúvida, a maior tragédia que já enfrentei. Ambos jovens, sem doenças, sem aviso prévio, sem preparo. Se não fosse pela convicção de que a morte é apenas uma passagem, e não o fim, teria sido ainda mais difícil. Eles deixaram um legado de histórias e memórias preciosas, além de filhos e netos de caráter exemplar. Aprendi muito com esses golpes que a vida me deu, e levarei esses ensinamentos comigo para sempre. Além do sangue deles, levarei meus pais dentro de mim onde quer que eu vá, guiando-me e dando-me força. E, acima de tudo, aprendi que qualquer dor que eu enfrente a partir de agora será sentida de forma diferente, com base nas lições e aprendizados, e não apenas na dor em si. Seguir em frente foi difícil, mas não havia outra opção. Para concluir, deixo minha mensagem de fé, comprometendo-me a viver plenamente, em honra àquilo que meus pais não puderam desfrutar por muito tempo: a vida.
Esta publicação tem como objetivo resgatar a fascinante história da Família “Rigon”, cujas raízes remontam à Itália e cuja jornada se desenrolou inicialmente na região serrana do Rio Grande do Sul, antes de se estabelecer na região noroeste do estado, mais especificamente na pequena localidade de “Lajeado Estiva”, situada no município de Tuparendi.Se você se identifica como um Rigon e não encontrou nenhum de seus antepassados nesta publicação, não se preocupe. É possível que esse elo genealógico remonte a séculos atrás, sem registros sobreviventes. Além disso, é crucial considerar a possibilidade de erros registrais, frequentes em tempos passados. É provável que haja conexões familiares, por exemplo, com pessoas que possuem sobrenomes como “Rigo”, “Rigoni” e até mesmo “Rigão”.Lembrando aos queridos leitores que este artigo estará em constante atualização. Qualquer informação ou novidade que possa enriquecê-lo é mais do que bem-vinda. Fiquem à vontade para entrar em contato através dos detalhes fornecidos ao final do texto. Sua contribuição será valorizada e incorporada.
Cidade de Breganze na Itália, berço da família Rigon.
Recentemente, tenho sido instigado por um despertar de interesse em buscar informações sobre meus antepassados. Como me considero espiritualista, acredito que esse despertar não é mera coincidência. A partida precoce dos meus pais, entre outras questões pessoais, tem alimentado em mim uma profunda curiosidade em relação às minhas origens familiares.
É uma reflexão profunda reconhecer que, para vivenciarmos esta fascinante jornada chamada “vida”, devemos honrar, com respeito e gratidão, não só nossos pais, mas também nossos avós, bisavós, trisavós, tetravós e assim por diante, até alcançar os tempos ancestrais.
No entanto, neste momento, meu foco é direcionado ao resgate específico do sobrenome que sucede o “Maicon”, uma herança que carregarei até meu último suspiro e que, mesmo após isso, permanecerá marcada em minha lápide por muitos anos adiante, já que não pretendo ter descendentes para perpetuar meu legado. Foram meses de imersão em pesquisas, vasculhando sites como o Family Search e explorando documentos históricos disponibilizados pelos governos. Entre manuscritos antigos de cartórios e conversas com familiares, a jornada foi intensa. A pesquisa, contudo, é uma jornada sem fim. Sempre há a possibilidade de novas descobertas, de detalhes a serem acrescentados. No entanto, o que pude desvendar até agora, com muita alegria compartilho com vocês.
Parreira de uva em Breganze na Itália
O primeiro ancestral Rigon que temos registro é meu trisavô, Antônio Rigon, nascido por volta de 1830 na região de Vicenza, na Itália, e falecido em 1880 na localidade de Torrebelvicino, também em Vicenza, na região do Vêneto. Ele compartilhou sua vida com Pierina Bortoli, nascida em 19 de março de 1834, na localidade de Asiago, também em Vicenza, e que veio a falecer em 28 de junho de 1914, em Veranópolis, no Rio Grande do Sul. (Na época, Alfredo Chaves).
Sobre esse casal, há escassas informações disponíveis. No entanto, ao conectar os pontos em uma investigação minuciosa, digna de um detetive, é possível concluir que o filho de Antônio, o Sr. Giuseppe Rigon, meu tetravô, veio da Itália acompanhado por sua mãe, a Sra. Pierina. Essa dedução se dá pelo fato de que os registros indicam o falecimento de Antônio na Itália.
A saga dos Rigon no Brasil teve início no final do século XIX, por volta de 1880. Sua jornada começou na Itália, na região do Vêneto, província de Veneza. Giuseppe é talvez a figura central dos Rigon da região Noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Após desembarcar com familiares no Rio de Janeiro, seguiram para o porto de Rio Grande e navegaram pela Lagoa dos Patos até Porto Alegre. Daí, estabeleceram-se inicialmente na Colônia Alfredo Chaves, hoje Veranópolis, no estado gaúcho.
Retrato do casal Giuseppe Rigon e Maria Bortoli Rigon.
Registros históricos revelam que, em 1891, aos 17 anos de idade, Giuseppe adquiriu uma extensão de terra na localidade de “Linha Dois de Julho”, situada na então vila de Alfredo Chaves, pelo valor de quase 170 mil réis. Nesse local, a família enfrentou semanas, quiçá meses, em acampamentos improvisados, dedicando-se arduamente à construção e à abertura de estradas. Com o passar do tempo, eles gradualmente adquiriram sementes e ferramentas agrícolas, iniciando assim sua jornada rumo à agricultura e à consolidação de suas raízes naquela região.
Alfredo Chaves na época da imigração.
A comitiva era numerosa. Giuseppe trouxe consigo sua mãe, Pierina Bortoli, e mais oito irmãos, todos homens. Os pais de Maria, David Bortoli e Catharina Carli, também embarcaram nessa jornada. Giuseppe e Maria constituíram uma família de sete filhos: Pierina, David, Antônio, Albina, João, Severino e Ângelo. Pouco se sabe sobre os oito irmãos de Giuseppe, apenas que se “espalharam” pelo estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e aqui no Rio Grande do Sul.
Imigrantes italianos posam para retrato em Alfredo Chaves.
Supõe-se que Giuseppe e Maria compartilharam quase três décadas de suas vidas na Linha Dois de Julho, uma localidade onde é provável que tenham criado sua família. Entre os filhos deles estava David Antônio Rigon, meu bisavô. Documentos históricos indicam que David casou-se com Maximina Anholetto na mesma região, com o enlace registrado em Bento Gonçalves em fevereiro de 1920. Outro filho de Giuseppe, Antônio David Rigon, também veio ao mundo naquela localidade. Ele veio a falecer em Tucunduva-RS em 1973.
Primeiras instalações dos imigrantes na região da Serra no RS.
Após revisar o registro de nascimento do meu avô, José David Rigon, descobrimos que ele nasceu na localidade de “Linha Tiradentes”, em Alfredo Chaves, no ano de 1920. Essa constatação nos leva a crer que seus pais, David e Maximina, estabeleceram residência nessa região após o casamento, onde permaneceram por pelo menos cinco anos.
Meu avô, José David Rigon.
Ambas as localidades existem até hoje. Linha Tiradentes e Linha Dois de Julho são atualmente comunidades do município de Veranópolis – RS.
Como viviam os imigrantes no RS
Por volta de 1925, Giuseppe e Maria tomaram uma decisão importante e corajosa: Deslocaram-se com toda sua família por mais de 400 quilômetros até Lajeado Estiva, então parte do distrito de Santa Rosa, município de Santo Ângelo. A jornada foi feita principalmente de trem, com bagagens que incluíam móveis e animais como bois, vacas e galinhas. Após chegarem a Santo Ângelo, trocaram os vagões por carroças e cavalos, enfrentando cerca de dois dias de viagem em estradas precárias e perigosas, repletas de desafios como animais selvagens e a possibilidade de perderem seus animais pelo caminho.
Eram grandes as dificuldades nos primeiros dias. Muitas vezes ficavam em completo desabrigo: no mato, sem casa para morar, sem comida, trilhas e estradas abertas a facão, levando nas costas os filhos e as bagagens. Aos poucos, depois de muito esforço, foram conquistando uma certa estabilidade, com casas, lavouras e parreirais.
Com o tempo, a família Rigon expandiu-se pela região, estabelecendo-se em localidades como Nova Esperança, Lajeado Limoeiro, Cinquentenário, Santa Rosa e Tucunduva.
Sepultura de Giuseppe e Maria no Lajeado Estiva – RSMeu avô, José e sua esposa Alfride Gentila Marin Rigon.
Foi em Cinquentenário que Meu pai, Sr. Ivo João Rigon, nasceu em 1960. Em 1982, uniu-se em matrimônio com minha mãe, Neli Silveira Brun. Embora fosse agricultor, dedicou quase três décadas de sua vida ao trabalho em uma madeireira. Foi nesse mesmo distrito que meu irmão, Diogo, veio ao mundo em 1983, seguido por mim em 1994.
No arremate desse singelo artigo, resta-me salientar que é preciso que lembremos sempre de reverenciar e celebrar diariamente as pessoas repletas de determinação e coragem que nos precederam. Se hoje desfrutamos de conforto e facilidades, é graças à árdua luta e sacrifício deles. Cabe a nós, herdeiros desse legado, honrar suas memórias. É doloroso imaginar a distância e a saudade que sentiram de sua terra natal, e o sofrimento da separação que suportaram, tudo em busca de uma vida melhor para suas famílias e descendentes.
Ainda não tive a oportunidade de visitar Veranópolis, mas está nos meus planos fazê-lo em breve, se o tempo e as finanças permitirem. Tenho o desejo de explorar pessoalmente as localidades de Linha Dois de Julho e Linha Tiradentes. Mesmo que nelas não haja mais do que matas e lavouras, quero contemplar cada aspecto e refletir sobre isso. Pretendo permanecer em silêncio, absorvendo a atmosfera, e apreciar a paisagem que, durante um longo período da história, representou tudo o que meus antepassados possuíam e cultivavam.
Nossa eterna gratidão e reconhecimento àqueles moços e moças, homens e mulheres, nonos e nonas, passageiros dos inúmeros navios a vapor que deixaram a Itália carregados de sonhos, de fé e de esperança. Enquanto houver um “Rigon”, persistirá um profundo sentimento de gratidão pelos pioneiros que, à moda italiana, carregavam seu sobrenome antes mesmo do próprio nome.
Texto e pesquisa: Maicon Rigon Contato: maiconrigon@gmail.com Tuparendi – RS Maio de 2024