O Prazer Duvidoso de Morrer em Vida

Manhã fria de domingo. Primeiro de junho de 2025. São exatamente 7h30. Faz 7 graus na minha cidade e eu já estou de pé desde as 4h da manhã, porque aparentemente meu cérebro decidiu que dormir até tarde é luxo de quem não tem pensamentos autodestrutivos demais para serem ignorados. Enquanto a maioria das pessoas normais ainda está em coma REM, eu estou aqui, tropeçando nas minhas angústias e batucando no teclado como se isso fosse me salvar de alguma coisa.

Tenho a sorte — ou a maldição — de trabalhar com algo que me permite escrever nesse intervalo insone entre a solidão e o chimarrão. Às vezes escrevo. Às vezes só fico encarando a tela como um zumbi emotivo, esperando que a inspiração me vomite alguma coisa no colo. E cá estou. Vomitando. Ou tentando.

Esse espaço aqui? Uma espécie de diário disfarçado de desabafo. Um confessionário eletrônico onde me iludo achando que é só pra mim mesmo, quando no fundo, torço sim pra que alguém leia e me aplauda como se eu tivesse acabado de inventar o conceito de humanidade. Ah, a hipocrisia. Ela nem sempre me encontra, mas quando aparece, senta no sofá da sala e toma um chimarrão comigo.

Hoje de manhã li uma frase do Carpinejar. Dizia que deveríamos atualizar nossa data de nascimento frequentemente. Finalmente algo que faz mais sentido do que qualquer manual de autoajuda vendido a 39,90 na livraria mais próxima. Eu, por exemplo, já morri tantas vezes que se minha certidão de nascimento fosse atualizada, precisaria de uma planilha do Excel só pra organizar. Estou enterrado em versões de mim mesmo que não faço questão de visitar nem no Dia de Finados.

Minha memória é um desastre completo — já escrevi isso aqui, mas vale repetir pra quem acabou de chegar no rolê. Se eu vejo vinte filmes por ano, lembro de dois. E olha lá. Um defeito de fábrica que, ironicamente, me ajuda a viver. Porque junto com as lembranças boas que evaporam, as dores também somem. Aquela dor lancinante que um dia me fez jurar que não viveria até o mês seguinte? Apagada. Enterrada junto com o idiota que eu era naquela época.

O problema é que a felicidade também sofre desse Alzheimer precoce. Tem momentos lindos que simplesmente escorrem pelo ralo da minha mente, como se nunca tivessem existido. E isso me faz pensar como será minha velhice — se eu tiver uma. Com 31 anos e já com lapsos de memória dignos de um episódio de “This Is Us”, imagina aos 80. Vou precisar de legenda até pra lembrar o meu nome.

Mas voltando ao Carpinejar.

Minha vida não foi feita só de funerais emocionais. Também nasci. Muitas vezes. Nasci ao conhecer gente que valia a pena. Ao ouvir conselhos que doeram na hora mas me salvaram depois. Ao tomar uma cerveja estalando num dia em que o calor me fazia querer desistir da humanidade. Nasci quando escrevi algo que prestava. Quando fui, sem querer, um alívio pra alguém. Quando modifiquei um dia ruim alheio com uma piada ou um gesto bobo. Entre esses renascimentos e enterros, sigo. Meio cínico, meio esperançoso, feito um sobrevivente de guerra que ainda tem munição emocional pra tentar de novo.

Um dia, claro, virá o nascimento definitivo. Ou a morte que não dá lugar pra mais nada. Mas até lá, quero morrer muitas vezes. Quero explodir versões antigas de mim como quem limpa o histórico do navegador antes de emprestar o computador. E nascer de novo. De preferência mais irônico, mais lúcido, mais eu.

Só peço aos deuses — ou ao algoritmo universal que rege esse caos — que não deixem morrer em mim essa vontade de renascer. Que minha existência, mesmo caótica, mesmo cínica, ainda tenha fôlego pra impactar alguém, deixar uma lasca de sentido em algum canto, mesmo que seja só num post perdido como esse.

Se for pra ser esquecido, que pelo menos seja depois de ter sido inesquecível por cinco minutos.

Trinta e Um Anos de Stand-by

Na semana em que completo 31 anos de uma existência que beira o modo avião, decidi brindar a ocasião com mais um daqueles desabafos autopiedosos que só interessam a mim mesmo — ou, com sorte, ao redator que um dia precisará escrever meu obituário e não souber por onde começar.

É tempo, portanto, de balanço: o que vivi? Pouco. O que senti? Tudo. O que valeu a pena? Quase nada. É esse o paradoxo indigesto que me acompanha: a impressão de ter experimentado todas as dores do mundo, mas não ter vivido nada que realmente importe. Uma espécie de rodízio emocional onde só servem a conta.

Talvez eu seja apenas mais uma alma velha — daquelas que voltam pra essa dimensão só pra pagar dívidas cármicas em carnê, sempre vencido. Quem sabe essa sensação crônica de tédio, desencanto e déjà vu seja só meu boleto espiritual se manifestando.

Dizem por aí que isso se chama “crise dos 30”. Mas cá entre nós: essa crise me acompanha desde os cinco. Eu não fui uma criança feliz, nem um adolescente luminoso. Aos 20, já tinha as rugas emocionais de um idoso cético. Se essa crise é um evento isolado, alguém esqueceu de me tirar dela. A verdade é que, ao contrário do que dizem, ela não chega aos 30 — ela só ganha crachá.

Já escrevi em outros carnavais (e velórios emocionais) que sou um melancólico de estimação, um ranzinza vintage, um pessimista convicto com talento para ironia de boteco. Não esperem de mim um post de gratidão, cheio de hashtags sobre a dádiva da vida. Agradecer por estar vivo seria como agradecer ao governo por me deixar gastar meu próprio salário. No máximo, posso admitir que sobreviver tem seus momentos cômicos — e nem todos são involuntários.

Mas, justiça seja feita: nesse filme arrastado, algumas cenas salvaram o roteiro. A chegada da Julia, por exemplo, que deu uma cor inesperada a esse cenário cinza que eu tanto cultivo. E também os incontáveis gestos de amor dos meus saudosos pais, Neli e Ivo — presenças eternas, mesmo na ausência, que ainda iluminam meus dias com aquela luz morna e teimosa de abajur antigo. Se não fosse por eles, talvez o protagonista já tivesse pedido pra sair nos primeiros episódios.

Olho para esses 31 anos e vejo um roteiro mal escrito, dirigido por um estagiário de quinta categoria. A história anda, mas não vai. Muita coisa aconteceu, mas nada de fato aconteceu. A ansiedade por chegar logo aos últimos capítulos talvez seja a única motivação legítima que me faz levantar da cama. Curiosidade mórbida, digamos. Porque, sejamos honestos: até agora, esse filme tá mais pra drama existencial do que qualquer outra coisa — e sem nem uma trilha sonora decente.

Mas sigo aqui, esperando o clímax ou, pelo menos, uma reviravolta digna de série ruim da Netflix que nunca ficou no TOP 10.

O evangelho segundo os fofoqueiros

Antes que venham os insultos, fiquem tranquilos: não estou aqui para destilar ódio gratuito num ambiente que, ironicamente, ajudou a moldar minha infância — ainda que aos trancos, tropeços e com muito julgamento disfarçado de “preocupação cristã”. O que se segue é apenas um desabafo. Um grito mudo de quem mergulhou fundo na própria espiritualidade e emergiu com os olhos limpos, vendo tudo com muito mais clareza. Se isso ofende, sintam-se confortáveis para se ofender — é o mínimo.

Sempre me chamou a atenção a hipocrisia escancarada das pessoas do interior. Aquele tipo de hipocrisia que vem com cheiro de pão recém-saído do forno e sotaque carregado de santidade dominical. Homens e mulheres que fazem questão de estar nas primeiras fileiras da igreja, como se o lugar marcado garantisse assento VIP no céu. Mas bastam os primeiros passos até o corredor da comunhão para que comece o espetáculo mais tradicional dessas paróquias: a inspeção corporal alheia. Da cabeça aos pés. Olhar clínico, quase de raio-X — só falta o avental e a prancheta. O julgamento é silencioso, mas estrondoso. Uma espécie de revista íntima socialmente aceita. E o mais curioso é que há quem passe pano, dizendo: “Ah, coitadinhos… são ignorantes, não têm estudo.” Como se ignorância fosse escudo pra canalhice.

E sim, todo mundo que cresceu numa cidadezinha sabe: é exatamente assim. Em comunidades recheadas de descendentes de italianos e alemães que se acham a última bolacha do pacote (e nem é a mais recheada). Gente que se exala em arrogância como quem usa perfume importado: forte, enjoativo, e sem necessidade. Talvez se sintam superiores por terem algumas hectarazinhas de terra herdadas — que, convenhamos, no Mato Grosso não valem um cafezinho. Ou por possuírem tratores que foram lançamentos na época em que o Collor ainda era presidente. E claro, tem o grande diferencial espiritual: o dízimo gordo, em notas de cem, bem contadas, bem dobradas. Porque Deus, aparentemente, tem conta bancária.

E o que dizer daqueles senhores estrategicamente posicionados nas escadarias da igreja antes da missa começar? Um verdadeiro “Jornal Nacional da Fofoca” em versão agro. Durante vinte minutos, vomitam preconceitos com a mesma naturalidade com que comem pão e salame. Misoginia, racismo, homofobia e outros temperos que, por algum motivo misterioso, não anulam a santidade dominical de ninguém. Quando o sino toca, o personagem entra em cena: rosto compenetrado, mãos postas, olhar celestial. E a peça começa. Lá dentro, o julgamento continua, claro — às vezes nos olhos, às vezes num cochicho. Nunca falta uma sentença pronta. Deus, aparentemente, é só mais um nome na boca de quem já condenou o mundo inteiro com base no comprimento da saia ou na cor do cabelo.

Sério mesmo que essas pessoas acham que estão com a passagem carimbada pro paraíso? Que basta fingir por quarenta minutos todo domingo e tá tudo certo com o universo?

Eu, honestamente, não entro em igreja há anos. E mesmo assim, sinto dentro de mim uma espiritualidade mil vezes mais honesta do que a daqueles que recitam orações decoradas com a mesma emoção de quem recita a lista do supermercado. Não é sobre se achar melhor. É só que… talvez eu tenha parado de mentir pra mim mesmo — o que já me dá uma vantagem absurda.

Falo com Deus todos os dias. Do meu jeito. Sem ensaio, sem roteiro, sem precisar parecer mais puro do que realmente sou. Confesso meus erros, minhas falhas, minhas dores. Porque espiritualidade de verdade não precisa de platéia. E muito menos de plateia julgadora vestida de santo de ocasião.

Meu desprezo é reservado — e sem culpa nenhuma — aos hipócritas de missa e jaleco de moralidade. Aqueles que vestem o figurino do bom cristão por menos de uma hora por semana, mas passam os outros seis dias e 23 horas julgando a vida alheia. A ignorância, às vezes, merece compaixão. Mas essa… essa merece mesmo é julgamento divino. Um daqueles bem severos. E tomara que o Criador faça com eles o que eles fizeram a vida toda com os outros: julgue. Sem piedade. Sem entender o contexto. Sem ouvir defesa.

Porque justiça divina, meu caro, talvez seja só um espelho bem limpo.

Melancolia

Aproveitei essa manhã chuvosa de domingo para pesquisar sobre melancolia. Ingenuamente, confesso. Me deparei com definições que mais pareciam prontas pra ficha clínica: “estado de grande tristeza e desencanto geral; depressão”, ou ainda “estado mórbido caracterizado pelo abatimento mental e físico, manifestação de vários problemas psiquiátricos”. Segundo os especialistas, sou praticamente um caso de internação com laudo carimbado. E, no entanto, continuo aqui — sem camisa de força, mas com um tédio secular no olhar.

Sempre me considerei melancólico, sim. Não dessa forma dramática de manual de psicologia, mas num sentido mais… existencial. Eterno. Quase poético, se não fosse tão incômodo.

Desde criança me senti um adulto disfarçado de gente pequena. Enquanto a gurizada se esfolava em campos de futebol ou faziam calos na bunda andando de bicicleta, eu observava. Quieto. Alheio. Achava tudo ridículo — e, pior, barulhento. Odiava o alvoroço, as risadas sem motivo, as gracinhas repetidas. Sempre fui do tipo que acha mais digno um silêncio bem colocado do que três horas de conversa fiada temperada com ignorância.

Eu era um ser exótico na sala de aula: monossilábico, introspectivo, mas que se transformava quando o assunto realmente valia a pena. Nessas raras ocasiões, minha alma esticava as pernas e se espreguiçava. Mas era só. Rapidamente voltava ao meu modo de economia de energia social.

Fui criado com a televisão como babá emocional — mas, por favor, sem desenhos animados. Nunca tive paciência para mundos coloridos e vozes esganiçadas. Preferia a dramaturgia adulta, o caos ensaiado dos programas de auditório, Silvio Santos, Ratinho, Gugu e outras decadências televisivas da época. Enfim, uma infância moldada por um Brasil que não sabia se ria ou chorava de si mesmo.

Quanto à melancolia: vocês nunca vão me ver cantarolando, assoviando, ou explodindo em êxtase como um comercial de refrigerante. Sei que, por vezes, posso ser interpretado como alguém mal-educado, arrogante ou egocêntrico — mas nem sempre é essa a intenção. A alegria existe, sim, mas mora num canto escuro do peito — ali onde ninguém enxerga, e é melhor assim. O meu mundo interno é tão vasto que qualquer tentativa de colocá-lo pra fora me parece constrangedora. Conversas pequenas? Peço desculpas, mas não tenho estrutura psicológica. Aqueles diálogos de elevador, com perguntas que ninguém quer mesmo responder, são um tipo de tortura autorizada. E o pior: obrigatória.

Por muito tempo achei que era arrogância minha. Me achava um lixo por não conseguir fingir empatia social. Achava que era eu o problema, um poço de arrogância, olhando os outros de cima. Mas com o tempo, entendi: o problema não é me achar melhor. É só que não me interesso por nada que não seja real.

Prefiro dez minutos em silêncio — organizando o caos interno, trocando olhares com meus próprios pensamentos — a duas horas ouvindo alguém tentar parecer interessante. A maioria das conversas é só uma batalha de egos mal disfarçados. Um ringue de gente vazia disputando quem tem o vazio mais decorado.

Gosto de um texto do Bukowski, aquele velho sujo e sincero, que dizia: “Vão bater na sua porta, sentar numa cadeira e consumir seu tempo sem lhe acrescentar em nada. Quando muitas pessoas nulas aparecem e seguem aparecendo você tem que ser cruel com elas, pois elas estão sendo cruéis com você.” Assino embaixo. E coloco moldura.

Sinto falta de pessoas de verdade — mas não do tipo que recita Nietzsche em mesa de bar ou que enfeita conversa com palavras que soam bem no dicionário. Falo de gente que sabe o peso de um olhar. Que entende que o silêncio às vezes é a coisa mais barulhenta do mundo. E que atitude vale mais que qualquer parágrafo bem escrito.

Por isso, me poupem de jantares onde egos se empanturram de si mesmos. Se me verem lá, saibam: é por obrigação. E estou odiando cada segundo, desejando a queda de energia, o fim do mundo, ou pelo menos que a sobremesa venha logo pra eu poder fugir.

Tenho dito, e repetido: cansei das pessoas. Não das pessoas em si, mas desse grande teatro ambulante em que todos estão atuando num roteiro ruim, fingindo gostar uns dos outros, trocando sorrisos que só servem pra mostrar os dentes. E o pior: temos que aplaudir no final.

A sociedade exige que convivamos. Que sejamos cordiais, sorridentes, produtivos. Que paguemos IPTU, IPVA, IR, e ainda agradeçamos a oportunidade de sermos sugados lentamente. Então sim, eu visto minha máscara todo dia — cada vez com mais nojo, é verdade, mas visto. O baile de máscaras é obrigatório. E, infelizmente, ninguém nos deixa sair antes da última música tocar.

Grande bosta!

O dicionário define egocentrismo como um conjunto de atitudes ou comportamentos que indicam que um indivíduo se refere essencialmente a si mesmo. E, sinceramente, é o que mais tenho visto por aí: uma galera forçando a barra até o último fio de dignidade. Ajudando os outros, claro, mas apenas se houver um fotógrafo, uma plateia ou, no mínimo, uma boa oportunidade de colocar a hashtag certa no Instagram. Porque, convenhamos, fazer o bem sem esperar retorno é quase um desperdício, né? Só faltam pedir aplausos pela gentileza.

Acredito que eu esteja avançando de maneira constante na construção diária de uma mentalidade mais equilibrada, para evitar ser contaminado por essa doença. Quanto menos barulho interno e externo, melhor. Aliás, se eu fosse mandado para uma ordem superior de viver o resto da minha vida numa mata, sem ver outro ser humano por décadas, eu seria o cara mais feliz do mundo. Desde que, claro, tivesse Wi-Fi, cerveja, energia elétrica e um carro para eu fugir para a cidade de vez em quando (porque, né, ninguém é de ferro). (Risos).

Mas, voltando ao ponto – esse assunto que parece ser uma verdadeira epidemia: tem gente que realmente sente uma paixão quase… visceral pela própria imagem, pelos feitos heroicos que criou para si mesmo e por qualquer “diferença” que possa fazer, mesmo que essa diferença não mude nada para ninguém além de seu próprio ego. E olha, carrego por esses indivíduos uma mistura de pena e um desprezo tão grande quanto o tamanho de sua própria vaidade. Sério, dá até pra ouvir o eco de seu ego ressoando por quilômetros.

Por outro lado, sou capaz de aplaudir de pé os verdadeiros heróis anônimos. Aqueles que fazem a diferença no mundo e sequer têm tempo para pensar em cartazes, medalhas ou selfies de conquistas. Voluntários, assistentes sociais, cientistas, até mesmo religiosos (porque, em alguma medida, a igreja ainda deve servir para algo bom). Essas pessoas que, ao final de suas jornadas, vão morrer no anonimato, sem um reconhecimento sequer – e que honestamente estão pouco se importando com isso.

E, para finalizar, vou aplaudir a todos eles, e a mim mesmo, que estou aqui escrevendo nesse site sabendo que ninguém irá ler. E, claro, ninguém jamais fará uma estátua em minha homenagem na Praça Aquiles Turra, com inscrições clichês e frases vazias. E sabe o que mais? Estou cagando e andando pra isso.

Vamos manter o tom?

Em comemoração aos gloriosos 6 anos deste espaço, decidi dar uma repaginada no nome do blog. Agora, ele se chama “No Tom do Rigon”, porque, convenhamos, nada mais justo do que o meu nome estampado, já que cada linha escrita aqui carrega o meu tom único e irrepetível.

Estou pensando em dedicar mais tempo para atualizar este espaço – até porque, sejamos sinceros, não sou a única cabeça fervilhando pensamentos de toda sorte nesse mundão. Então, por que não compartilhar com vocês, meus queridos leitores. E se, por algum milagre do destino, alguém se identificar com minhas incoerências, fica o convite: seja bem-vindo ao clube! Sem regras, sem filtros, só a pura e maravilhosa falta de sentido que só quem é digno de tanta genialidade sabe apreciar.

10 curiosidades sobre mim

Perdoem-me a falta de modéstia, mas é impossível não compartilhar um pouco da minha grandiosidade com vocês. (Risos estilo Chaves).

1 – Durante mais de 5 anos, comandei o maior império virtual sobre a vida e obra do cantor Amado Batista. O Blog Amado Batista, o Eterno Seresteiro figurou por diversas vezes no TOP 100 dos sites mais acessados no Brasil, lá pelos idos de 2010. Eu comandava uma equipe de 3 editores: Jaquisson da Cruz, José Assuerio e Luciano Silva estavam sempre prontos para atualizar o conteúdo. Até o próprio Amado acessava para ficar por dentro do que acontecia na sua vida.

2 – Sou radialista há 12 anos. Atualmente, apresento o Faixa Nobre de segunda a sexta-feira na Rádio Noroeste de Santa Rosa – RS, das 13h às 15h. Apresentei por quase 10 anos um programa chamado “Clube da Noite”, das 20h às 22h. Foi meu início no rádio. Também empresto minha voz para prefixos, chamadas e notícias da Empresa Jornalística Noroeste. Algo que pode-se chamar de “locutor padrão” da emissora.

3 – Tenho um canal no YouTube desde 2008, com mais de 60 mil inscritos. Ali, você encontra de tudo: trilhas raras de programas de TV, poemas e declamações que eu mesmo recito, músicas de artistas que me agradam – porque, claro, todo o conteúdo ali é de altíssimo nível e 100% do meu gosto pessoal.

4 – Sou completamente viciado em músicas sertanejas românticas das décadas de 60, 70 e 80. A raiz sertaneja é algo que me arrebata, e foi até a inspiração para o programa Cadeira de Balanço, que compartilho com o Zelindo Cancian aos sábados à tarde na Rádio Noroeste. Uma parceria que já dura 12 anos.

5 – Cerveja, gente. Só cerveja. Eu sei, eu sei, é super elegante falar de vinhos, whiskys e outros destilados. Acho bonito também, mas se esse for o assunto, me sinto um pinto no brejo! Minha bebida preferida é a cerveja, e se for puro malte, melhor ainda. A minha queridinha? Serramalte. Pena que, assim como meus sonhos, ela também sumiu.

6 – Ah, os carros… Minha outra grande paixão. Hoje, tenho um Corolla XLI 2004 automático, meu sonho de infância. Pode me chamar de “velho”, “carro de aposentado”, mas esse carro é o meu xodó. Tem muita coisa que poucos zero km tem. Ele é confortável, macio, e absolutamente elegante. E sim, eu sou um senhor de 90 anos dentro de um corpo de 30. Aceitem!

7 – Silvio Santos. Esse homem me faz ter uma admiração quase inexplicável. A morte dele em agosto de 2024 me deixou em luto por uma semana. Na infância, me vestia como ele e apresentava os meus programas imaginários. Eu era o “Silvio Santos” do meu quarto, com cartazes na parede, livros e recortes de jornal. Se eu fosse ele, provavelmente também me amaria. Nos primórdios da internet, época do MSN e Orkut, tinha fã-clubes espalhados pelo país. Amigos que fiz e que acabei perdendo o contato. Mas os trago comigo com saudade.

8 – Televisão: ah, a boa e velha televisão. Cresci nos anos 90, e a TV era minha melhor amiga. Xuxa, Ratinho, Gugu, e claro, Silvio Santos, moldaram minha infância. Não posso esquecer de Chaves e Chapolin, que já dispensam apresentações. Quando a internet chegou, virei um estudioso de televisão, me metendo até a editar portais de audiências do IBOPE. Se tem uma coisa que sei fazer, é analisar números de audiências da TV aberta.

9 – Sou praticamente um eremita social. Tenho poucos amigos – e eles são os mesmos desde a infância e adolescência. Sou caseiro, detesto festas e eventos. Se me procurar, vou estar em um bar simples, tomando um litrão de cerveja e devorando um Xis Calota com a minha esposa. Ou, quem sabe, um picadão que serve quatro pessoas, mas que damos conta sozinhos. Essa é a minha ideia de diversão. Fica a dica.

10 – E, finalmente, odeio aquelas listas do tipo “10 curiosidades sobre mim”. Quem escreve isso normalmente quer mesmo é aparecer. Sério, quem se importa? Alguém realmente está tão interessado nas minhas “curiosidades”? Duvido. Se é pra saber algo sobre mim, pergunte diretamente.

BÔNUS: Faltou muita coisa, como, por exemplo, minha épica e frustrada jornada pelo universo político. Mas, claro, como este espaço não é nem um pouco pornográfico, vamos deixar essa história para uma próxima oportunidade. Até porque, convenhamos, qualquer zonão de beira de estrada, com cerveja quente e aquele aroma inconfundível de mijo ressequido, tem mais estrutura e organização do que a política de pequenos municípios.

Sós, para sempre

Eu e minha esposa, Julia, compartilhamos um desejo em comum: não ter filhos. E, pasmem, esse foi um dos principais fatores que nos uniu. A ideia de trazer uma nova vida ao mundo em 2025? Uma atitude de total e absoluta coragem ou talvez de total falta de noção. A não ser, é claro, que você tenha uma fortuna acumulada e coragem para enfrentar um futuro incerto. Como eu não tenho nem uma coisa nem outra, resolvi abrir mão da ilusão de ter “quem me cuide” na velhice. (Risos) A famosa frase que meus parentes (que vejo uma vez por ano) soltam como um mantra: “Ah, você vai ver, quem vai te cuidar quando ficar velho?” Ah, sim, eles, com seus conceitos de vida antiquados, machistas e religiosos enraizados lá no século XIX, mas que respeito… Porque, convenhamos, ignorância também é uma arte. Conheço velhos e velhas, com uma dúzia de filhos, sozinhos e abandonados em lares de todo Brasil. Sejamos menos hipócritas!

A decisão é nossa, e os outros que se virem com a deles. Egoísmo puro? Talvez. O mundo está cada vez mais insuportável, uma verdadeira selva de amebas ambulantes, sem vontade de pensar, só de consumir e repetir. Não acho justo trazer alguém ao mundo sem que essa pessoa tenha pedido para nascer. Fizeram isso comigo no passado, e agora estou aqui, sem outra escolha além de viver.

Para alguns, soa quase como uma blasfêmia, ou como dizer ser admirador de Adolf Hitler. No entanto, minha esposa, que sempre teve uma grande paixão por crianças, fez uma escolha diferente: ela decidiu direcionar esse amor para sobrinhos, filhos de amigos e vizinhos. E isso, para nós, está mais do que certo. Respeitar as escolhas individuais e compreender que existem diferentes formas de viver a vida é essencial para uma convivência saudável e sem julgamentos. No final, o que importa é a felicidade e o bem-estar de cada um, independente do caminho escolhido.

Julia até que se dá bem com as crianças. Elas adoram ela. Comigo o lance é diferente. Sempre me senti um pouco deslocado perto delas, especialmente as mais novas. Isso porque, com elas, não posso recorrer ao roteiro habitual de conversas triviais, como “Como estão as coisas na escola?” ou “E no trabalho?”. Também não me identifico com aquela atitude de fazer gracinhas ou bajular as crianças, algo que parece ser tão comum entre as pessoas, especialmente mulheres neurotípicas. Isso simplesmente não sai de forma natural para mim. Quando tento imitar esse comportamento, para evitar parecer rude ou frio, sinto que fica muito forçado (porque é). Na verdade, raramente sinto a onda de afeição que muitos parecem experimentar na presença de crianças. Posso ver uma e achar que ela é adorável (de uma forma não esquisita), mas é só isso. Não sinto necessidade de expressar.

Talvez a psicologia possa explicar que isso tenha a ver com algo da minha própria infância, quem sabe traumas ou experiências que marcaram o meu “eu” criança. Mas isso, deixo para a psicoterapia.

Buenas, voltando ao “Não querer ter filhos”: Tem uma frase de Machado de Assis que resume toda essa história enjoada: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” Eu sei, é forte, mas absolutamente real.

Vamos seguir em frente, sem filhos, sem arrependimentos e, mais do que tudo, com uma ponta de pena daqueles que, com a vida em pedaços de tantos jeitos, ainda acreditam que ter um filho será a solução mágica para todos os problemas. Eu, pessoalmente, sou mais da filosofia de ser o capitão do meu próprio navio – ou pelo menos tentar evitar o naufrágio sozinho. E, nesse mar de incertezas, prefiro ser o único a determinar meu rumo, sem esperar que a chegada de outra pessoa seja a âncora que vai me salvar.

O cotidiano é insuportável. E as pessoas também.

Ah, as pessoas… Ultimamente, elas têm me dado uma preguiça quase moral. Eu tentei, juro que tentei, garimpar um adjetivo mais interessante, algo mais exótico, mas nada, a palavra é preguiça mesmo. Todos, absolutamente todos, com suas vidas ridículas, acreditando que são os donos do universo. E o pior é que eles realmente acham que estão fazendo alguma diferença.

Olho no olho de cada um e vejo… bom, nada. Não há alma, não há humanidade. Nenhum resquício de espiritualidade. Nos momentos raros em que consigo enxergar algo, é apenas a ânsia desesperada por mais dinheiro, mais poder, tudo isso só para alimentar um egocentrismo incontrolável. Quanta profundidade!

Não estou dizendo que todo mundo precise decorar “Tabacaria” de Fernando Pessoa, ou recitar cânticos tibetanos como se a iluminação estivesse na ponta da língua. Mas, sei lá, falta algo. Uma pitada de tempero. Aquela chama que faz tudo ser um pouco mais interessante, um pouco menos previsível. Todos são iguais, com os mesmos objetivos, os mesmos sonhos, as mesmas ideologias rasteiras. Mergulhados na mediocridade coletiva, como se fossem peças de um grande quebra-cabeça chamado vida, mas sem nunca entender o jogo.

Tudo se torna ainda mais desesperador quando percebo que eu também faço parte dessa multidão. Que eu também sou considerado por mim um bosta. Simplesmente por estar no mesmo universo que eles. Por não ter coragem de começar um revolução, nem mesmo dentro da minha própria vida.

Das máscaras que tanto condeno nos outros tenho uma coleção. Para os amigos, uma. Para a esposa, outra. Para os colegas de trabalho, uma terceira. Mas no fundo, quem sou eu mesmo? Quando consigo ser eu? Quando estou sozinho, em silêncio. Num quarto escuro comigo mesmo. Quando estou absorto numa reflexão ou simplesmente contemplando um pôr do sol, ou observando a simplicidade das coisas. Com a cabeça cheia de pensamentos e um turbilhão de sensações. Sem companhia, sem plateia. Apenas eu e minha essência, que é bem simples, quase invisível, silenciosa. Como uma criança de 8 anos, que ainda sobrevive escondida dentro de mim mesmo sem alimentação.

A conclusão, entretanto, é inexistente. Cada um é aquilo que é, adornando-se com as vestes que escolhe para se tornar — ou quem sabe, apenas para aparentar ser. No final, não há como penetrar na essência do outro; nossos corações permanecem enigmáticos, insondáveis. Somos enigmas vivos, irreconhecíveis e indomáveis. E mesmo que, por um capricho do destino, algum dia essas verdades ocultas venham à tona, o que restaria dessa revelação? Nada, é claro. O mundo está repleto de cemitérios onde repousam poetas e filósofos cujos pensamentos foram incompreendidos em vida, cujas palavras se perderam na indiferença do tempo. E, ao fim, qual o valor disso tudo? Nenhum. O que verdadeiramente me consola é a melancolia que habita em mim, acompanhada da convicção de que, no fim das contas, tanto o Papa quanto o mendigo que me pediu uma moeda ontem no centro da cidade, compartilharão o mesmo destino inexorável. Um fim que, para todos, será igual, imutável e, em sua essência, irrelevante.

Terceirização

Não, não é sobre contratos, empresas ou privatizações. Não espere aqui uma dissertação sobre a Corsan ou qualquer outra estatal. O tema é mais sutil, mais traiçoeiro: a terceirização dos nossos sentimentos.

Sim, essa prática silenciosa e onipresente, em que delegamos ao outro a responsabilidade de nos fazer felizes, plenos, completos. Como se a satisfação fosse um serviço de entrega e a autoestima, um contrato assinado em cartório.

Talvez seja hora de encerrar essa terceirização desastrada. Assumir o comando. Pagar o preço – e colher os lucros – de sentir por conta própria.

Dizem que o corpo é o primeiro a adoecer quando a alma se inquieta. Pois bem, se isso for verdade, já deveria estar em ruínas. Mas cá estou, resistindo, insistindo, tentando me tornar um caso raro, uma exceção à regra.

Exercito diariamente um pensamento que, se um dia dominar por completo, me fará quase divino: ninguém me irrita, ninguém me magoa. O que há são provocações, tentativas vãs de abalar uma fortaleza. O estrago, se acontece, é de minha própria autoria. E se é assim, por que seguir terceirizando meu humor? Por que permitir que outrem seja o maestro das minhas tempestades?

Tolerar. Perdoar. Esquecer. Dizer “não” sem carregar um caminhão de culpas. Eis as armas desse combate. Simples na teoria, uma epopeia na prática. Há dias em que venço. Em outros, sou vencido… e, ironicamente, pelo único inimigo real: eu mesmo.

Mas sigo. Porque, ainda que essa seja uma guerra sem medalhas, o simples fato de estar na luta já me faz um vencedor. E quem sabe, um dia, eu descubra o segredo absoluto da paz de espírito. Ou, pelo menos, aprenda a rir do caos sem que ele me roube o sono.