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Manhã fria de domingo. Primeiro de junho de 2025. São exatamente 7h30. Faz 7 graus na minha cidade e eu já estou de pé desde as 4h da manhã, porque aparentemente meu cérebro decidiu que dormir até tarde é luxo de quem não tem pensamentos autodestrutivos demais para serem ignorados. Enquanto a maioria das pessoas normais ainda está em coma REM, eu estou aqui, tropeçando nas minhas angústias e batucando no teclado como se isso fosse me salvar de alguma coisa.
Tenho a sorte — ou a maldição — de trabalhar com algo que me permite escrever nesse intervalo insone entre a solidão e o chimarrão. Às vezes escrevo. Às vezes só fico encarando a tela como um zumbi emotivo, esperando que a inspiração me vomite alguma coisa no colo. E cá estou. Vomitando. Ou tentando.
Esse espaço aqui? Uma espécie de diário disfarçado de desabafo. Um confessionário eletrônico onde me iludo achando que é só pra mim mesmo, quando no fundo, torço sim pra que alguém leia e me aplauda como se eu tivesse acabado de inventar o conceito de humanidade. Ah, a hipocrisia. Ela nem sempre me encontra, mas quando aparece, senta no sofá da sala e toma um chimarrão comigo.
Hoje de manhã li uma frase do Carpinejar. Dizia que deveríamos atualizar nossa data de nascimento frequentemente. Finalmente algo que faz mais sentido do que qualquer manual de autoajuda vendido a 39,90 na livraria mais próxima. Eu, por exemplo, já morri tantas vezes que se minha certidão de nascimento fosse atualizada, precisaria de uma planilha do Excel só pra organizar. Estou enterrado em versões de mim mesmo que não faço questão de visitar nem no Dia de Finados.
Minha memória é um desastre completo — já escrevi isso aqui, mas vale repetir pra quem acabou de chegar no rolê. Se eu vejo vinte filmes por ano, lembro de dois. E olha lá. Um defeito de fábrica que, ironicamente, me ajuda a viver. Porque junto com as lembranças boas que evaporam, as dores também somem. Aquela dor lancinante que um dia me fez jurar que não viveria até o mês seguinte? Apagada. Enterrada junto com o idiota que eu era naquela época.
O problema é que a felicidade também sofre desse Alzheimer precoce. Tem momentos lindos que simplesmente escorrem pelo ralo da minha mente, como se nunca tivessem existido. E isso me faz pensar como será minha velhice — se eu tiver uma. Com 31 anos e já com lapsos de memória dignos de um episódio de “This Is Us”, imagina aos 80. Vou precisar de legenda até pra lembrar o meu nome.
Mas voltando ao Carpinejar.
Minha vida não foi feita só de funerais emocionais. Também nasci. Muitas vezes. Nasci ao conhecer gente que valia a pena. Ao ouvir conselhos que doeram na hora mas me salvaram depois. Ao tomar uma cerveja estalando num dia em que o calor me fazia querer desistir da humanidade. Nasci quando escrevi algo que prestava. Quando fui, sem querer, um alívio pra alguém. Quando modifiquei um dia ruim alheio com uma piada ou um gesto bobo. Entre esses renascimentos e enterros, sigo. Meio cínico, meio esperançoso, feito um sobrevivente de guerra que ainda tem munição emocional pra tentar de novo.
Um dia, claro, virá o nascimento definitivo. Ou a morte que não dá lugar pra mais nada. Mas até lá, quero morrer muitas vezes. Quero explodir versões antigas de mim como quem limpa o histórico do navegador antes de emprestar o computador. E nascer de novo. De preferência mais irônico, mais lúcido, mais eu.
Só peço aos deuses — ou ao algoritmo universal que rege esse caos — que não deixem morrer em mim essa vontade de renascer. Que minha existência, mesmo caótica, mesmo cínica, ainda tenha fôlego pra impactar alguém, deixar uma lasca de sentido em algum canto, mesmo que seja só num post perdido como esse.
Se for pra ser esquecido, que pelo menos seja depois de ter sido inesquecível por cinco minutos.
