FAZER VALER A PENA

Na teoria é tudo maravilhoso e perfeito
Como aquele brinde no Titanic
“Fazer valer a pena”
Mas nós dois sabemos
Eu e você
Que nada vale a pena
Que na verdade deveríamos ir pra casa dormir
Ou adquirir mantimentos suficientes para mais alguns anos
E ir para algum lugar esperar a morte
Qualquer coisa que fizermos
Das mais grandiosas
À um domingo ensolarado na cama
Tudo se reduz a nada
Logo seremos um pedaço de carne
Pálida, morta, pesada
Dentro de uma caixa de madeira
Com o sangue descendo nas nossas costas
Lábios e olhos colados
Uma cara de idiota
Alguém tocando os mosquitos
Tirando e colocando o véu
Sangue escorrendo por feridas
“Como ele inchou”
“Tá bem estufado”
E tudo o que fizemos se reduz a isso
Não me venham com poesias
Não me façam crer que a vida é bela
Ela não é
Nunca será
A morte sim é bela
Pois encerra com a palhaçada toda
Fecha as cortinas de um espetáculo assistido por ninguém
E logo ninguém mais lembrará que tudo isso aconteceu
Então não
Eu não quero fazer nada valer a pena
Porque nada vale a pena

casa alugada

alugamos por alguns meses uma casinha amarela
não sei se era sua tonalidade original
ou o tempo se encarregou de colorir naturalmente
pequena, velha, alguns pregos soltos e rebocos caindo

aquelas paredes presenciaram de tudo
amor, paixão, raiva, ódio
abrigou por um curto período
o mar de intensidade que ilustrou a nossa história

nos mudamos de lá no início de agosto
deixamos nossas marcas em cada centímetro
do teto descascado ao piso quebradiço
nosso cheiro, nossas digitais
foi triste a despedida

acabei de passar por lá
luzes acesas
outras pessoas
semblantes estranhos
outras marcas ficarão em cima das nossas
e, aos poucos, nossa passagem por lá será esquecida
não por nós, mas pela casa

se não fosse a ilusão de acreditar
que abrigaremos e seremos abrigados pra sempre
teríamos a lucidez e a humildade de admitir
que o nosso coração também é assim
uma velha casa alugada

A maior dor do mundo

Às vezes, a vida nos surpreende, nos coloca contra a parede e nos deixa atordoados por algum tempo. É exatamente assim que me sinto ao digitar estas palavras neste momento. Há exatamente uma semana, em 17 de maio de 2021, recebi um golpe devastador que ainda reverbera em mim. Fui atingido em cheio, como se um tiro de grosso calibre acertasse em meu peito. Sem rodeios, há uma semana, perdi a mulher mais importante da minha vida. Sem chance de despedida, foi um golpe repentino. Minha mãe, aos 57 anos, faleceu vítima de um infarto fulminante. O diagnóstico médico apontou “Falência multiorgânica” decorrente de insuficiência respiratória aguda provocada por uma crise asmática.

Eram 15h45min quando recebi uma chamada no WhatsApp. “Mãe – chamando”. Atendi, esperando ouvir a voz familiar, mas era minha prima, usando o celular dela. Franciele, com a voz trêmula, me deu as más notícias. Minha mãe havia sido levada às pressas para o Pronto Socorro e estava em estado grave. Parti imediatamente, inundado por pressentimentos sombrios. Durante a viagem, conversava comigo mesmo ou com alguma força invisível que me acompanhava: “Por favor, não nos deixe agora, temos tantas coisas planejadas, tantos sonhos a realizar. Não nos abandone assim, sem despedida”. Ao chegar lá, minha tia me recebeu com palavras dolorosas: “A situação é crítica, só um milagre poderia salvá-la”. Logo em seguida, uma enfermeira reforçou a gravidade da situação, indicando que devíamos avisar os familiares próximos, pois a recuperação era improvável.

Minha mãe se sentiu mal em casa e chamou por minha tia, que a socorreu imediatamente, com o auxílio do resgate. Ela vinha lutando contra dificuldades respiratórias, dores pelo corpo, febre e perda de apetite há meses. Sintomas que poderiam ser facilmente confundidos com COVID-19, mas o teste deu negativo. Seu corpo dava sinais de que um infarto estava por vir, mas ninguém percebeu, nem ela mesma.

Em poucos minutos, meu irmão chegou, visivelmente abalado, testemunhando as tentativas desesperadas de reanimá-la. Eu não tive coragem de presenciar essa cena. Fiquei do lado de fora, andando de um lado para o outro, esperando acordar desse pesadelo terrível. Mas não era um sonho. Minutos depois, o médico veio com a notícia devastadora. Uma sensação de dormência tomou conta do meu peito. Queria gritar, expressar minha dor, mas estava completamente paralisado. Eu e meu irmão nos mantivemos firmes por fora, mas desmoronávamos por dentro, ao dar a notícia mais difícil de nossas vidas para os familiares. Estávamos em choque, tentando assimilar o ocorrido.

Sou espiritualista. Não sigo nenhuma religião apesar de respeitar quase todas. Acredito em Deus e tenho certeza de que nada termina com a morte. Criei minha própria espiritualidade tentando seguir os conselhos do homem mais importante que pisou nesta terra há mais de 2.000 anos. E é essa maturidade espiritual misturada com a infinita confiança que tenho no criador que me mantém firme. Sempre tive uma ligação profunda com minha mãe. Durante 90% da minha vida, fomos apenas eu e ela, inseparáveis, confidentes, mais do que mãe e filho. Éramos uma só pessoa, uma conexão inexplicável.

Desde a infância, eu temia profundamente a ideia de vê-la em um caixão. Implorava para não ter que enfrentar esse momento, preferindo partir antes dela. Estava convencido de que não resistiria à sua perda, dada a intensidade de nossa ligação. Porém, esse dia chegou sem piedade.

Sem que eu percebesse, Deus estava me preparando para esse momento. Nos últimos dez anos, dediquei meu tempo, por vontade própria, a estudar sobre a morte, religiões, Deus e Jesus. Buscava evidências de que a vida vai além do que conhecemos. Noites a fio lendo, assistindo a centenas de vídeos e palestras de diferentes correntes de pensamento. Essa jornada me fortaleceu para enfrentar momentos difíceis como este. Deus estava me preparando para o golpe mais duro que a vida me lançaria.

Hoje, sinto-me mais forte. Se antes eu era apenas “mais ou menos”, agora tenho a energia e a proteção da pessoa mais incrível que já conheci. Antes, eu a tinha ao meu lado ocasionalmente; agora, ela está dentro de mim, parte do meu ser. Continuamos sendo um só, para sempre. Essa força que me impulsiona a seguir em frente, mesmo com o coração despedaçado, certamente vem de Deus, das preces daqueles que compartilham minha dor e, claro, da espiritualidade que, sem que eu percebesse, cultivei ao longo da vida.

Hoje, tenho absoluta certeza de que ela está em paz. Depois de enfrentar tantas dificuldades em vida, agora ela pode encontrar a felicidade plena. Ao lado da Vó Gomercinda e do Vô Zeca, ela tem muito a aprender e crescer. Falo com ela regularmente, sem formalidades, como sempre fiz. Em nossas conversas, expresso meu amor e peço que não se preocupe conosco. Assim como cuidava de nós em vida, tenho certeza de que ela continua nos amando e se preocupando conosco, mesmo em outro plano. Peço aos espíritos de luz que a guiem em sua jornada de evolução e aprendizado. Enquanto isso, nós seguimos nossos caminhos, com dor e saudade, mas com a certeza de que um dia nos reencontraremos em uma dimensão além desta, e ela nos ensinará, mais uma vez, a dar os primeiros passos.

Não sou eu

De que vale oferecer o mundo e as estrelas
Se não é de mim que desejas recebê-las?
De que serve proferir palavras belas ao amanhecer
Se não é da minha boca que anseias ouvi-las?

De que adianta eu afirmar que colori meus dias
Enquanto tu insistes que os teus permanecem cinzentos?
De que adianta admirar teu corpo nu como uma tela de Monet
Se não são meus olhos que desejas ter a te contemplar?

Mesmo que eu entregue todo o amor do universo,
Para ti, será sempre insuficiente,
Porque não sou eu,
E nunca serei.

E embora saibas todas essas verdades,
Persistes em me atormentar com tua presença,
Pois, no fundo, conheces outra grande verdade:
Que és tu quem eu realmente quero ao meu lado.
Isso te conforta, alimenta teu ego e satisfaz tuas vaidades.

Enquanto eu sobrevivo de migalhas,
Das sobras e dos “nadas” que guardas em ti,
À espera de serem transformadas em tudo,
E, sem muito esforço, serem concedidas a outro
Que não sou eu.

as palavras que não digo

Tenho a péssima mania de guardar coisas antigas.
Não são discos, selos, fitas ou fotografias.
São sentimentos, interrogações
e, principalmente, palavras.
Transformei meu peito num museu
de pronúncias engolidas.

Aqui dentro há muito mais do que lá fora.
Guardo muito mais do que ofereço.
Coleciono silêncios e frases mutiladas,
num baú cuja chave também engoli.

E assim, devorando o que não se deve,
enganando a todos — e a mim mesmo —,
temo o dia em que não caiba mais nada,
em que não exista tapete
para ocultar os restos do que sobrou.

Temo que, se um dia me for de repente,
se a vida me for arrancada à força,
a culpa não será do tempo,
nem da morte,
mas das palavras que não digo.

Porque cada sílaba que sufoco
estrangula minha garganta com mais força.
E eu, que sonhei partir em serenidade,
como quem adormece num sono longo e manso,
sinto-me evaporar devagar,
em dolorosa combustão silenciosa.

Por entre os escombros desse silêncio
moram amores não confessados,
dores sem nome, gritos abafados,
raivas, euforias e medos —
tudo cuidadosamente enterrado
sob a manta fria e transparente do meu calar.

Silêncio traidor, que me feriu pelas costas,
que me projetou para o mundo de muitas formas,
menos pelo que verdadeiramente sou.

O que sou de fato
segue exilado, invisível,
nas ruínas sombrias
das palavras que não digo.

Já tentei acabar com tudo

Preparem-se para uma confissão: eu já tentei suicídio. Mais do que a tentativa em si, o que realmente me aterrorizava era a vontade, a ânsia de terminar com tudo. Meus pensamentos só buscavam a escuridão do fim da existência. O “nada” que eu encontraria lá na frente parecia, sem dúvida, ser muito mais acolhedor do que o “nada” que minha vida havia se tornado naquele momento. Depois de muita reflexão, e com o tempo fazendo a poeira baixar, percebi que eu não queria que a minha vida acabasse. Eu queria que a dor acabasse. Eu não queria me matar. Eu queria chamar a atenção, pedir socorro. Gritar para o mundo que nada estava bem dentro de mim.

Sempre senti as coisas de forma intensa. Qualquer coisa, por menor que fosse, me atingia de maneira absurda. A lucidez me matava lentamente. Eu via tudo, percebia tudo. A realidade era como uma navalha cortando aos poucos minha garganta. Naqueles momentos, eu queria ser um idiota, como 90% das pessoas que conheço. Queria me iludir com sonhos, trabalho, paixões. Viver no piloto automático, sem questionar meus sentimentos ou sensações. Queria ser frio. Sem coração. Sem sentimento. Tudo isso, na verdade, para sofrer menos.

No último sábado, durante o velório de um amigo que morreu tragicamente aos 25 anos num acidente de moto, percebi a cagada que eu estava prestes a fazer. Mas, na hora, a gente não pensa nisso. Na hora da tentativa de terminar com tudo, enquanto eu engolia comprimidos com cerveja, em nenhum momento pensei no desespero da minha mãe sobre meu caixão. No sofrimento do meu pai, inconsolável, fumando um cigarro atrás do outro. No olhar perdido do meu irmão, nas minhas tias e tios, nos amigos de infância e, principalmente, na minha esposa, que se tornou o maior motivo para eu decidir seguir em frente com a vida. Mas, mesmo sem razões claras, eu não poderia desistir. Eu precisava garimpar, entre os escombros, algo pelo que ainda pudesse lutar.

A gente não quer morrer. A gente quer gritar para o mundo que algo está profundamente errado dentro de nós. Eu precisava de ajuda. Medicamentos ou terapias, não importava. Eu precisava de alguém que segurasse a minha mão e dissesse: “Tô contigo”. E, eventualmente, encontrei esse alguém, não em outra pessoa, mas em mim mesmo, e também em alguns amigos verdadeiros.

Claro, o processo de aprender a se amar é complicado e não acontece da noite para o dia. Mas, aos poucos, estou trabalhando nisso. Acredito que quem se ama de verdade, que consegue se sentir bem consigo mesmo, seja na solidão de um quarto escuro ou no meio de uma multidão, encontrou o que há de mais valioso na vida. Quem é capaz de se sentir pleno consigo tem tudo. Quem ama a própria companhia conquistou algo muito mais precioso do que qualquer prêmio ou reconhecimento material.

Hoje, a vida me deu uma “casca” pelas surras que levei. Hoje, não me prendo tanto aos pensamentos que me atormentam. Talvez eu esteja, finalmente, entre os 90% que comentei no início. Mas encontrei um equilíbrio. Um equilíbrio que não significa que tudo seja fácil ou sempre alegre, mas que me permite enfrentar a vida com uma disposição renovada. Não quero mais morrer. Tenho muito chão pela frente. Não que eu ache que a vida seja, todos os dias, a coisa mais maravilhosa do mundo – muito longe disso. Mas agora, minha curiosidade é o que me move. Quero viver, não porque acredito em um final feliz, mas porque quero descobrir e sentir na pele o que me espera ao longo do caminho. E, acima de tudo, eu quero descobrir o que mais posso aprender e crescer enquanto ainda estou aqui.

A vida, com todas as suas complexidades e surpresas, é a coisa mais incrível e impressionante que existe. O velório desse final de semana me fez repensar profundamente. E, ao invés de procurar a morte como fiz no passado, hoje busco me afastar dela o mais distante possível. Não só pelas pessoas que amo, mas, principalmente, por mim. Porque, no fim, o mais importante é o que fazemos com o tempo que temos. Eu escolhi, então, seguir.

se eu morresse hoje

Se eu morresse hoje, morreria com muitas dívidas.
Com muitos abraços não dados e palavras não ditas.
Com muitos lugares não desbravados e paisagens não apreciadas.

Se eu morresse hoje, morreriam comigo todos os meus sonhos,
todas as minhas esperanças e expectativas.
Meu cheiro ficará pela casa por algumas horas, no máximo.
A cama, quem sabe, ainda amassada por algum tempo.
Quem sabe eu ainda deixe o banheiro molhado,
e a toalha estendida, um pouco úmida.

Se eu morresse hoje, ficaria um monte de coisas por fazer.
Meu corpo, já sem valor algum, existirá por mais alguns meses,
até que desapareçam todas as minhas marcas físicas,
que disseram que um dia eu passei por aqui.
Desaparecerá também a frequência das pronúncias do meu nome.
Em anos, poucos saberão da minha passagem por aqui.
Em mais anos, ninguém mais chorará por mim.

Mas e se eu nascesse hoje? O que faria diferente?
Se me fosse dada uma nova vida,
com o cronômetro zerado,
quais passos eu daria novamente
e quais caminhos jamais percorreria pela segunda vez?

Se me fosse dada uma nova chance,
eu viveria com mais cuidado.
Eu abraçaria os meus amigos com força
e ficaria madrugadas conversando sobre o sentido da vida.

Se me fosse dada uma nova chance,
e os relógios zerassem suas contagens,
eu jamais carregaria um no pulso.
Contaria o meu tempo pelos pores e nasceres do sol.

E, nesse intervalo entre um e outro,
faria de tudo para que, quando eu morresse,
deixasse para trás uma vida pela qual valesse a pena morrer.

Entrelinhas de um Poeta

Poesia não se explica, poesia se sente.
E o meu silêncio, herdeiro desse fato,
faz de ti um poema perfeito:
linhas, curvas e traços invisíveis,
que não cabem no alcance dos olhos.

Assim como a poesia escrita,
assim como os mais belos textos da humanidade,
deves ser lida com a alma,
decifrada em tuas entrelinhas,
nos enigmas sutis do teu existir.
És verso sem ponto final,
és página que nunca se fecha.

Já duvidei de mim,
se era ou não um poeta.
Hoje, graças a ti, sei que sou:
não pelo som rouco da velha máquina de escrever,
mas por decifrar as estrofes que o vento leva
em cada sorriso que me ofereces sem perceber.

Sou poeta porque és a carne da beleza,
o reflexo de tudo o que não pode ser inventado.
E eu não poderia ser outra coisa,
pois em teu olhar os versos já nasceram prontos.
Só precisei reconhecê-los,
senti-los como quem tateia um sonho,
e rabiscá-los em papéis famintos de eternidade.

Sou poeta, mas nada criei.
Apenas empresto palavras ao que sempre existiu,
apenas procuro sinônimos para os antônimos das minhas dores.
E compreendo, por fim:
mais do que ler ou escrever poesia,
o que verdadeiramente me consome
é estar cativo dentro de uma —
a tua poesia.

Tatuagem

Tatuagem não sai nunca mais.
É cicatriz intencional, cravada na carne,
na camada mais funda da pele —
aquela que o tempo não consegue polir,
que nem as lágrimas ou o sol sabem apagar.

O amor é parecido.
Marca invisível, mas igualmente eterna,
cravada na parte do peito
que o tempo não tem acesso.
Mas nem todo amor é assim.

Há tatuagens temporárias
que a água dissolve como mentira antiga,
e há amores que a dor
lava para fora com lágrimas.
Nem por isso deixam de ser amor —
apenas foram feitos para durar o tempo que precisavam.

Para tatuar, é preciso pensar duas vezes.
Para amar, não se pensa.
O amor chega como agulha sem aviso,
fura todas as defesas e
estampa na alma o que quer.

Raros são os amores-tatuagem,
esses que permanecem vivos
na mais funda camada do ser.
Alguns, no entanto, se parecem mais com cicatrizes —
marcas que carregam lições envenenadas,
histórias que juramos nunca repetir,
mas que, no fundo,
sabemos que um dia vamos.

Marcas

Fracassei na tentativa de te ter pra sempre aqui.
Na dor física da tua ausência, morri por dentro aos poucos.
Por fora, insistiram em sobreviver células e poros,
que, por várias noites, se afogaram no suor do teu corpo.

Hoje, revirei os quatro cantos da casa cinza e sem vida,
que um dia já foi o arco-íris dos meus entardeceres,
buscando uma marca dos tempos em que havia vida em mim.
Lembranças e imagens já não eram suficientes.

Ansiava por uma marca física, real, verdadeira:
um fio de cabelo, um perfume esquecido, uma peça de roupa…
Qualquer coisa que me trouxesse a saudosa sensação
de ainda escutar teus passos por entre os cômodos.
Qualquer objeto seria, para mim, uma relíquia.

Mas o tempo não perdoou os restos mortais da nossa história.
A poeira dos dias apagou qualquer possibilidade de nostalgia.
Nada mais restou da vida que jamais temi perdê-la,
e hoje me vejo implorando a Deus uma falha no tempo-espaço,
que, por um descuido, fizesse meus dias retrocederem.

Eu já estava desistindo da minha procura, quase fracassada,
quando, sem querer, vi meu vulto no espelho do roupeiro.
Cheguei mais perto e me autoanalisei de uma maneira profunda.
Vi meu olhar abatido, doente, de quem nada espera mais,
um embrulho de mau gosto da dor escondida por dentro.

Sentei na cama, pensativo, exausto, mas ainda com vida.
Me dei conta de que havia tido sucesso em minha busca:
eu queria uma marca tua e encontrei a maior de todas.
Porque nada traduz tão fielmente a tua passagem por mim,
do que o rastro de destruição que deixaste em minha alma.