Volta e meia me surpreendo comigo mesmo. E é engraçado pensar que, com 90 anos, talvez ainda não me conheça por inteiro. Ultimamente, algo tem me chamado a atenção: essa paixão peculiar por objetos, sejam antigos ou não, que tiveram alguma importância, por mais simples e banal que tenha sido, num determinado momento da minha existência. Eu tenho uma grande dificuldade em me desfazer das coisas. E quando digo “coisas”, não me refiro a móveis, carros ou pessoas. Isso até que é mais fácil (risos). Falo, na verdade, daqueles objetos que parecem não ter significado algum, mas que de alguma forma se tornam testemunhas de momentos importantes da minha vida.
Não é à toa que tenho uma caixa cheia de tranqueiras, mas que, na verdade, são os meus maiores tesouros. Um isqueiro, por exemplo, o último que meu pai usou. Ou um bilhete deixado pela minha mãe dizendo que ia ao mercado e logo voltava. Pode parecer ridículo, eu sei. Como um guardanapo com uma escritura improvisada de “Te amo” da minha esposa, ou uma embalagem de chiclete no assoalho do meu carro. Coisas que poderiam ser simplesmente descartadas, mas que, para mim, são símbolos imortais de algo que aconteceu ali. Algo que, aparentemente, se perdeu no tempo, mas que eu insisto em guardar, como um verdadeiro colecionador de memórias.
Como não amar o chão de caquinhos na lavanderia da casa onde meu pai morava? (Foto). Não pelo chão em si. Mas antes de serem caquinhos, eram cerâmicas inteiras, espalhadas por paredes e pisos. O que será que essas cerâmicas testemunharam? Quais momentos passados por ali, pisados, errados ou cuidadosamente evitados? Às vezes, basta um simples pedaço de cerâmica quebrado para que a casa inteira, com suas paredes e pisos, se reconstituam em minha mente, como uma máquina do tempo. Eu me pego imaginando as histórias escondidas ali, no espaço entre os caquinhos, histórias que talvez nunca venham à tona, mas que continuam a existir em algum canto da memória, tal como esses pedaços de cerâmica que jamais podem se desfazer totalmente.
Enfim, tenho uma relação absurda com esses objetos. Uma devoção, talvez, um tanto incomum. Mas é que, para mim, eles são mais do que pedaços de plástico, papel ou metal. Eles são fragmentos de histórias, de cenários onde grandes acontecimentos — mesmo que banais — se desdobraram. São coisas materiais, com significados que, aos olhos de qualquer um, são quase insignificantes. Mas em minha cabeça formam um poema inefável, uma narrativa impossível de ser traduzida em palavras. Cada um desses objetos, assim como meu olhar, foi uma testemunha das boas e das nem tão boas experiências que vivi. Não posso ser covarde com eles. Não posso simplesmente jogá-los fora. Eles fazem parte de mim. Da minha existência.
Então, deixo aqui minha homenagem a essas coisas pequenas e aparentemente insignificantes, mas que para mim têm um valor indizível, guardado no peito acompanhado de um carinho que só quem sente é capaz de entender. Pois é, talvez eu esteja guardando mais coisas do que realmente devia, mas quem se importa? Afinal, quem somos, senão uma coleção de memórias e objetos que, ao longo do tempo, aprendem a falar mais sobre nós do que qualquer palavra poderia dizer?
O bom de ser o único leitor desse blog, é que posso utilizar esse espaço pra fazer algumas confissões que, se publicadas num jornal de circulação local, certamente me afastariam de alguns parentes, amigos e, quem sabe, até de pessoas que se dedicam com empenho a evitar qualquer tipo de debate ou conflito. Sabe aquelas pessoas que fogem de quem pensa diferente só pra manter a paz e a segurança da sua bolha confortável? Pois é, talvez esse texto seja o motivo de você, querido leitor invisível, dar tchauzinho pra mim. Mas enfim, vamos lá.
Minha infância e pré-adolescência foram uma verdadeira montanha-russa espiritual. Por um lado, lá estava a igreja evangélica da minha mãe, um lugar que, de algum modo, ainda carrego uma certa nostalgia, principalmente pelas canções que me faziam chorar copiosamente. Do outro, o catolicismo do meu pai, que acabou moldando minha entrada no mundo da comunicação, principalmente através das leituras que fazia nas missas e que desencadearam à minha entrada no Rádio. Entre esses dois mundos, não tinha muito espaço para pensamentos próprios. No começo da vida, todo mundo é apenas uma esponja absorvendo o que vem de cima, dos pais, da família ou da comunidade em que nasce, certo?
Com o tempo, minha percepção da vida foi mudando e, em um momento de reflexão mais profunda, decidi que precisava entender melhor a questão espiritual. Estudei, li, pesquisei… E, surpresa, meu pensamento evoluiu. E se você acha que minha conclusão é um “feliz final cristão”, sinto muito. Pois pasmem: Tenho um tio que é pastor evangélico e uma tia que é freira (irmã de caridade). Então jamais poderei desrespeitar alguém, mas também exijo que respeitem minhas conclusões. Vamos deixar isso claro.
Percebi, com o tempo, que nas primeiras fileiras das igrejas estavam normalmente as pessoas das quais eu mais gostaria de estar a quilômetros de distância. Sabe aquelas pessoas? Grossas, estúpidas, arrogantes, prepotentes, com um nível de empáfia que faria qualquer um se sentir pequeno só de olhar. Aquelas que, aparentemente, estavam mais preocupadas com o título de “bom cristão” do que com qualquer noção de humildade ou empatia. E aí, me veio a pergunta: algo não estava certo. Se essa era a imagem de quem seguia a palavra de Deus, então acho que a coisa toda tinha um certo defeito de fábrica. Nisso tudo se encaixa uma frase que sou fã: “Eu nem sempre respeito as pessoas de cabelos brancos pois até os canalhas envelhecem.”
A verdade é que eu cheguei à conclusão de que tudo o que pode ser rotulado de “religião” nem sempre traz os benefícios que dizem por aí. Vou pegar mais pesado: Religião pra mim é como uma loja Havan, Renner ou Magazine Luiza. Um comércio puro e simples. Venda de sonhos e esperanças aos mais humildes e vulneráveis, em troca de dinheiro. Um baita negócio criado pelo homem e que deu certo até demais.
Falo com propriedade, pois descobri dentro de mim o que as igrejas sempre insistem que eu deveria encontrar lá dentro. E olha, acredite ou não, construí minha própria espiritualidade, que é, na real, uma conversa quase diária com Deus. Agora, não me venha perguntar quem é esse tal de Deus, porque eu não o vejo como um vovô de cabelos brancos que comanda o universo. Eu o vejo como uma força sublime, algo que criou e coordena tudo. Chame-o como quiser. Creio que há 2.025 anos atrás passou por aqui um homem diferenciado. De carne e osso como nós. Que foi iluminado pelo mesmo sol que nos ilumina hoje. Um ser humano que de tão especial dividiu o calendário em antes e depois dele.
Essa força, essa essência, é com quem eu converso, como se fosse um amigo de longa data. Peço conselhos, desabafo, agradeço. E essas prosas, sempre em voz alta, me fazem muito bem. Aliás, pode ser que essa força seja eu mesmo, seja o próprio universo ou que ela esteja dentro de mim. Não sei. Aprendi a respeitar a dúvida com Antonio Abujamra – pra mim, convicções são como as piores armadilhas, elas sempre traem.
E é nesse ponto que chego ao que eu realmente acredito: a melhor maneira de honrarmos essa força, esse Deus, é entendendo que somos todos iguais. Cada ser humano, cada respiração, cada vida é igualmente importante. E o que realmente importa? Nada! Bem, a vida já é, de certa forma, uma sentença de morte desde o primeiro suspiro. Então, que medo devemos ter? E por que ficar sonhando com o que não existe? A vida, meu amigo, sempre foi uma causa perdida.
Atualmente, não frequento nenhuma igreja em particular, mas sei que em qualquer uma delas posso adentrar e me sentir em paz. Afinal, o que realmente importa não é o que encontramos no ambiente físico, mas o que carregamos dentro de nós. O verdadeiro templo está em nosso ser, no silêncio que habita nossa alma e na conexão que estabelecemos com algo superior, independente do espaço. A espiritualidade não se limita a uma construção ou a rituais externos; ela reside na essência de cada um de nós, no coração e na mente, onde a verdadeira paz e harmonia se encontram.
No fim, o que eu busquei com essa espiritualidade que criei foi um motivo, uma razão pra continuar andando por aí, sem cometer loucuras contra mim mesmo. Só isso. O resto? Ah, o resto é tudo fumaça.
Revisito frequentemente esse cemitério de pensamentos. Em cada publicação, uma ideia que já se foi, enterrada sob o peso do tempo, da inércia ou da falta de coragem para ser exposta ao mundo. Me sento diante da tela em branco, essa tela que me desafia como um espelho quebrado refletindo um pouco de mim, e tento escrever algo. Algo que faça sentido, talvez, ou que apenas invente um sentido qualquer, se for o caso. Poemas de amor? Poemas sobre a vida? Melhor não. Não tenho palavras para decifrar o caos que me permeia. Mas como Bukowski sabiamente disse: “Se tens que estar horas sentado a olhar para a tela de computador ou curvado sobre tua máquina de escrever procurando as palavras, não o faças.”
Aceitei o conselho. Não o faço. Mas sigo aqui, respirando, caminhando, comendo, dormindo, bebendo, fazendo tudo isso com uma precisão quase mecânica, como se fosse o suficiente para manter as engrenagens do corpo em movimento, ainda que o espírito insista em permanecer estagnado. Sigo como se houvesse algum tipo de recompensa mágica esperando no fim desse túnel nebuloso de dúvidas e perguntas sem resposta. Mas, no fundo, sei que talvez o sentido nunca chegue. E se não chegar, que seja. Já estou quase confortável com essa ideia. Afinal, é como dizem: “A vida é uma piada, e eu sou o único que entendeu.”
Sigo por aqui, apenas esperando que um raio de inspiração decida me visitar. Talvez seja isso que me mantenha são: a aceitação do absurdo, o humor nas sombras, e a ironia de saber que nunca saberei o suficiente. E se eu souber, provavelmente não vou dar a mínima.
Cá estou eu, com minhas trinta primaveras, e ainda cometo o maior atrevimento possível: deixar a vida para depois.
Ainda quero um fim de semana inteiro sozinho, ouvindo música clássica, escrevendo sobre o peso e a leveza de existir. Mas isso pode esperar.
Ainda quero acampar à beira de um rio, com duas garrafas de vinho barato e o silêncio como companhia. Mas isso pode esperar.
Ainda quero andar descalço sobre um gramado, num domingo ensolarado, sentindo a brisa tocar a pele, o passado me puxando, e o futuro, leve, me chamando. Mas isso também pode esperar.
Ainda quero contemplar uma paisagem, conversar com Deus no silêncio de um nascer de sol, chorar minha raiva pelas perdas, e agradecer, em pranto, pelos presentes. Mas isso, quem sabe, também pode esperar.
Só espero, de coração, que esse esperar nunca me seja negado, mesmo quando o tempo se esgotar, mesmo quando não houver mais esperas — apenas o silêncio do que ficou por viver.
Quem navegar pelas publicações deste blog encontrará o artigo “A Maior Dor do Mundo”, onde compartilho a história do repentino falecimento de minha mãe, Dona Neli, aos 57 anos, e minha jornada com a morte e a espiritualidade. Considerava aquele golpe o mais duro que a vida poderia me dar, mas o destino mostrou-se ainda mais implacável. Nesse artigo, relato também a perda de meu pai, Seu Ivo Rigon, aos 61 anos, nove meses após o falecimento de minha mãe, e como minha maturidade espiritual e minha visão da vida e da morte me ajudaram a atravessar esse período.
Meu pai sempre foi um trabalhador incansável. Sua infância e adolescência difíceis no campo moldaram sua força para os quase 30 anos seguintes trabalhando em uma madeireira. Sua determinação era impressionante. Acordava religiosamente às 5h30, fumava cerca de cinco cigarros até às 6h50, quando saía para o trabalho. Voltava por volta do meio-dia, tirava uma soneca e repetia o ritual à tarde. Às 18h, saía do trabalho para sua rotina noturna, que sempre incluía uma parada no Bar da Alemoa, onde tomava dois ou três sambas (coca-cola com cachaça). Essa foi sua rotina por décadas.
Meu pai no lendário “Bar da Alemoa” em Cinquentenário.
No início de 2021, sua saúde começou a declinar gradualmente. Ele reclamava de fraqueza nas pernas e não conseguia mais ir ao trabalho a pé. Em maio do mesmo ano, um golpe profundo afetou a todos nós: a morte de minha mãe. Apesar de separados, eles sempre mantiveram um vínculo emocional forte até o último momento. O casamento deles nunca foi fácil, com brigas constantes e uma convivência difícil. Cresci vendo discussões acaloradas, mas também momentos de amor.
Após a morte de minha mãe, a saúde de meu pai piorou. Ele parou de trabalhar, o que só contribuiu para seu declínio. A fraqueza nas pernas se intensificou nos meses seguintes, e em fevereiro de 2022, sua condição se agravou. Seus pulmões deram sinais de problemas, mas descobrimos que tudo começou com uma trombose nas pernas que levou ao entupimento de artérias importantes do coração.
Uma semana antes de partir, ele estava com dificuldades para respirar e caminhar por longos períodos. No último domingo que estive com ele, pediu que eu fosse comprar cigarros e uma garrafa de cachaça na vila. Brinquei com ele, dizendo: “Quer cigarros e o caixão também?”, devido aos seus problemas pulmonares. Ele riu. Comprei a cachaça, pois não encontrei os cigarros. Ele pediu que eu o levasse ao hospital na segunda-feira se não melhorasse durante a noite. Infelizmente, foi o que aconteceu.
O levei para o hospital, onde ficou internado recebendo oxigênio e passando por uma série de exames. Na quarta-feira, seu estado de saúde piorou. Ele recebeu uma sonda e outros equipamentos para monitorar seus batimentos cardíacos. Meu pai nunca tinha ficado internado antes, então vê-lo cheio de aparelhos foi assustador. Ele estava lúcido, mas com medo. Naquela altura, ele parecia prever o que estava por vir, falando sobre a morte e dando instruções caso não sobrevivesse. Eu e meu irmão, Diogo, nos revezávamos para cuidar dele. Estávamos otimistas até quarta-feira, quando sua condição se agravou. Lembro-me vividamente dele tentando tomar banho naquele dia, poucas horas antes de piorar. Olhava para ele e refletia sobre como a vida é imprevisível, lembrando-me da força que ele tinha e do sofrimento que estava enfrentando.
Passei a última noite ao seu lado. Cada momento daquela madrugada de 19 de fevereiro foi doloroso. No silêncio do hospital em Tuparendi, os apitos dos equipamentos contrastavam com o ambiente calmo. Ele quase não dormiu, mas estava relativamente bem, exceto pela falta de ar ao caminhar. Devo ter dormido por cerca de 10 minutos naquela noite. Sentado no sofá, refletia sobre a vida e pedia a Deus que o libertasse daquele sofrimento. O momento mais marcante foi quando as enfermeiras trocaram um equipamento e vi lágrimas em seus olhos, silenciosas, como um pedido a Deus para acabar com seu sofrimento. E Deus atendeu ao nosso pedido. Talvez não da forma como gostaríamos, mas o sofrimento dele terminou naquela manhã.
O dia amanheceu silencioso e frio. Eu estava prestes a sair para trabalhar na rádio, e meu irmão ficaria no meu lugar. Estava me despedindo quando ele pediu para eu esperar enquanto ele ia ao banheiro. Ajudei-o a se levantar e esperei pacientemente. Na volta para a cama, ele caminhava lentamente, seu olhar fixo no canto do quarto. “Chame as enfermeiras, estou me sentindo mal”, foram suas últimas palavras quase sussurradas. Chamei as enfermeiras e, ao voltar, testemunhei seus últimos momentos. Fiquei chocado do lado de fora, mas já esperava o pior. Tentaram reanimá-lo por alguns minutos, mas foi em vão. Logo depois, meu irmão chegou.
Eu e meu irmão não podíamos acreditar que, nove meses depois, estávamos passando pela mesma situação novamente. Nesses nove meses, me aproximei muito do meu pai. Inconscientemente, talvez o sofrimento nos uniu. Perder esse último elo com a minha infância, com a minha história, foi extremamente doloroso. Ao vê-lo na maca, sem vida, sussurrei em seu ouvido as mesmas palavras que disse para minha mãe nove meses antes: “Descanse em paz, o sofrimento acabou. Você irá para um lugar melhor, sem dor, sem sofrimento. Não se preocupe, nós vamos ficar bem.”
Casamento dos meus pais em 1982.
A perda de meus pais foi, sem dúvida, a maior tragédia que já enfrentei. Ambos jovens, sem doenças, sem aviso prévio, sem preparo. Se não fosse pela convicção de que a morte é apenas uma passagem, e não o fim, teria sido ainda mais difícil. Eles deixaram um legado de histórias e memórias preciosas, além de filhos e netos de caráter exemplar. Aprendi muito com esses golpes que a vida me deu, e levarei esses ensinamentos comigo para sempre. Além do sangue deles, levarei meus pais dentro de mim onde quer que eu vá, guiando-me e dando-me força. E, acima de tudo, aprendi que qualquer dor que eu enfrente a partir de agora será sentida de forma diferente, com base nas lições e aprendizados, e não apenas na dor em si. Seguir em frente foi difícil, mas não havia outra opção. Para concluir, deixo minha mensagem de fé, comprometendo-me a viver plenamente, em honra àquilo que meus pais não puderam desfrutar por muito tempo: a vida.
Esta publicação tem como objetivo resgatar a fascinante história da Família “Rigon”, cujas raízes remontam à Itália e cuja jornada se desenrolou inicialmente na região serrana do Rio Grande do Sul, antes de se estabelecer na região noroeste do estado, mais especificamente na pequena localidade de “Lajeado Estiva”, situada no município de Tuparendi.Se você se identifica como um Rigon e não encontrou nenhum de seus antepassados nesta publicação, não se preocupe. É possível que esse elo genealógico remonte a séculos atrás, sem registros sobreviventes. Além disso, é crucial considerar a possibilidade de erros registrais, frequentes em tempos passados. É provável que haja conexões familiares, por exemplo, com pessoas que possuem sobrenomes como “Rigo”, “Rigoni” e até mesmo “Rigão”.Lembrando aos queridos leitores que este artigo estará em constante atualização. Qualquer informação ou novidade que possa enriquecê-lo é mais do que bem-vinda. Fiquem à vontade para entrar em contato através dos detalhes fornecidos ao final do texto. Sua contribuição será valorizada e incorporada.
Cidade de Breganze na Itália, berço da família Rigon.
Recentemente, tenho sido instigado por um despertar de interesse em buscar informações sobre meus antepassados. Como me considero espiritualista, acredito que esse despertar não é mera coincidência. A partida precoce dos meus pais, entre outras questões pessoais, tem alimentado em mim uma profunda curiosidade em relação às minhas origens familiares.
É uma reflexão profunda reconhecer que, para vivenciarmos esta fascinante jornada chamada “vida”, devemos honrar, com respeito e gratidão, não só nossos pais, mas também nossos avós, bisavós, trisavós, tetravós e assim por diante, até alcançar os tempos ancestrais.
No entanto, neste momento, meu foco é direcionado ao resgate específico do sobrenome que sucede o “Maicon”, uma herança que carregarei até meu último suspiro e que, mesmo após isso, permanecerá marcada em minha lápide por muitos anos adiante, já que não pretendo ter descendentes para perpetuar meu legado. Foram meses de imersão em pesquisas, vasculhando sites como o Family Search e explorando documentos históricos disponibilizados pelos governos. Entre manuscritos antigos de cartórios e conversas com familiares, a jornada foi intensa. A pesquisa, contudo, é uma jornada sem fim. Sempre há a possibilidade de novas descobertas, de detalhes a serem acrescentados. No entanto, o que pude desvendar até agora, com muita alegria compartilho com vocês.
Parreira de uva em Breganze na Itália
O primeiro ancestral Rigon que temos registro é meu trisavô, Antônio Rigon, nascido por volta de 1830 na região de Vicenza, na Itália, e falecido em 1880 na localidade de Torrebelvicino, também em Vicenza, na região do Vêneto. Ele compartilhou sua vida com Pierina Bortoli, nascida em 19 de março de 1834, na localidade de Asiago, também em Vicenza, e que veio a falecer em 28 de junho de 1914, em Veranópolis, no Rio Grande do Sul. (Na época, Alfredo Chaves).
Sobre esse casal, há escassas informações disponíveis. No entanto, ao conectar os pontos em uma investigação minuciosa, digna de um detetive, é possível concluir que o filho de Antônio, o Sr. Giuseppe Rigon, meu tetravô, veio da Itália acompanhado por sua mãe, a Sra. Pierina. Essa dedução se dá pelo fato de que os registros indicam o falecimento de Antônio na Itália.
A saga dos Rigon no Brasil teve início no final do século XIX, por volta de 1880. Sua jornada começou na Itália, na região do Vêneto, província de Veneza. Giuseppe é talvez a figura central dos Rigon da região Noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Após desembarcar com familiares no Rio de Janeiro, seguiram para o porto de Rio Grande e navegaram pela Lagoa dos Patos até Porto Alegre. Daí, estabeleceram-se inicialmente na Colônia Alfredo Chaves, hoje Veranópolis, no estado gaúcho.
Retrato do casal Giuseppe Rigon e Maria Bortoli Rigon.
Registros históricos revelam que, em 1891, aos 17 anos de idade, Giuseppe adquiriu uma extensão de terra na localidade de “Linha Dois de Julho”, situada na então vila de Alfredo Chaves, pelo valor de quase 170 mil réis. Nesse local, a família enfrentou semanas, quiçá meses, em acampamentos improvisados, dedicando-se arduamente à construção e à abertura de estradas. Com o passar do tempo, eles gradualmente adquiriram sementes e ferramentas agrícolas, iniciando assim sua jornada rumo à agricultura e à consolidação de suas raízes naquela região.
Alfredo Chaves na época da imigração.
A comitiva era numerosa. Giuseppe trouxe consigo sua mãe, Pierina Bortoli, e mais oito irmãos, todos homens. Os pais de Maria, David Bortoli e Catharina Carli, também embarcaram nessa jornada. Giuseppe e Maria constituíram uma família de sete filhos: Pierina, David, Antônio, Albina, João, Severino e Ângelo. Pouco se sabe sobre os oito irmãos de Giuseppe, apenas que se “espalharam” pelo estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e aqui no Rio Grande do Sul.
Imigrantes italianos posam para retrato em Alfredo Chaves.
Supõe-se que Giuseppe e Maria compartilharam quase três décadas de suas vidas na Linha Dois de Julho, uma localidade onde é provável que tenham criado sua família. Entre os filhos deles estava David Antônio Rigon, meu bisavô. Documentos históricos indicam que David casou-se com Maximina Anholetto na mesma região, com o enlace registrado em Bento Gonçalves em fevereiro de 1920. Outro filho de Giuseppe, Antônio David Rigon, também veio ao mundo naquela localidade. Ele veio a falecer em Tucunduva-RS em 1973.
Primeiras instalações dos imigrantes na região da Serra no RS.
Após revisar o registro de nascimento do meu avô, José David Rigon, descobrimos que ele nasceu na localidade de “Linha Tiradentes”, em Alfredo Chaves, no ano de 1920. Essa constatação nos leva a crer que seus pais, David e Maximina, estabeleceram residência nessa região após o casamento, onde permaneceram por pelo menos cinco anos.
Meu avô, José David Rigon.
Ambas as localidades existem até hoje. Linha Tiradentes e Linha Dois de Julho são atualmente comunidades do município de Veranópolis – RS.
Como viviam os imigrantes no RS
Por volta de 1925, Giuseppe e Maria tomaram uma decisão importante e corajosa: Deslocaram-se com toda sua família por mais de 400 quilômetros até Lajeado Estiva, então parte do distrito de Santa Rosa, município de Santo Ângelo. A jornada foi feita principalmente de trem, com bagagens que incluíam móveis e animais como bois, vacas e galinhas. Após chegarem a Santo Ângelo, trocaram os vagões por carroças e cavalos, enfrentando cerca de dois dias de viagem em estradas precárias e perigosas, repletas de desafios como animais selvagens e a possibilidade de perderem seus animais pelo caminho.
Eram grandes as dificuldades nos primeiros dias. Muitas vezes ficavam em completo desabrigo: no mato, sem casa para morar, sem comida, trilhas e estradas abertas a facão, levando nas costas os filhos e as bagagens. Aos poucos, depois de muito esforço, foram conquistando uma certa estabilidade, com casas, lavouras e parreirais.
Com o tempo, a família Rigon expandiu-se pela região, estabelecendo-se em localidades como Nova Esperança, Lajeado Limoeiro, Cinquentenário, Santa Rosa e Tucunduva.
Sepultura de Giuseppe e Maria no Lajeado Estiva – RSMeu avô, José e sua esposa Alfride Gentila Marin Rigon.
Foi em Cinquentenário que Meu pai, Sr. Ivo João Rigon, nasceu em 1960. Em 1982, uniu-se em matrimônio com minha mãe, Neli Silveira Brun. Embora fosse agricultor, dedicou quase três décadas de sua vida ao trabalho em uma madeireira. Foi nesse mesmo distrito que meu irmão, Diogo, veio ao mundo em 1983, seguido por mim em 1994.
No arremate desse singelo artigo, resta-me salientar que é preciso que lembremos sempre de reverenciar e celebrar diariamente as pessoas repletas de determinação e coragem que nos precederam. Se hoje desfrutamos de conforto e facilidades, é graças à árdua luta e sacrifício deles. Cabe a nós, herdeiros desse legado, honrar suas memórias. É doloroso imaginar a distância e a saudade que sentiram de sua terra natal, e o sofrimento da separação que suportaram, tudo em busca de uma vida melhor para suas famílias e descendentes.
Ainda não tive a oportunidade de visitar Veranópolis, mas está nos meus planos fazê-lo em breve, se o tempo e as finanças permitirem. Tenho o desejo de explorar pessoalmente as localidades de Linha Dois de Julho e Linha Tiradentes. Mesmo que nelas não haja mais do que matas e lavouras, quero contemplar cada aspecto e refletir sobre isso. Pretendo permanecer em silêncio, absorvendo a atmosfera, e apreciar a paisagem que, durante um longo período da história, representou tudo o que meus antepassados possuíam e cultivavam.
Nossa eterna gratidão e reconhecimento àqueles moços e moças, homens e mulheres, nonos e nonas, passageiros dos inúmeros navios a vapor que deixaram a Itália carregados de sonhos, de fé e de esperança. Enquanto houver um “Rigon”, persistirá um profundo sentimento de gratidão pelos pioneiros que, à moda italiana, carregavam seu sobrenome antes mesmo do próprio nome.
Texto e pesquisa: Maicon Rigon Contato: maiconrigon@gmail.com Tuparendi – RS Maio de 2024
Na teoria é tudo maravilhoso e perfeito Como aquele brinde no Titanic “Fazer valer a pena” Mas nós dois sabemos Eu e você Que nada vale a pena Que na verdade deveríamos ir pra casa dormir Ou adquirir mantimentos suficientes para mais alguns anos E ir para algum lugar esperar a morte Qualquer coisa que fizermos Das mais grandiosas À um domingo ensolarado na cama Tudo se reduz a nada Logo seremos um pedaço de carne Pálida, morta, pesada Dentro de uma caixa de madeira Com o sangue descendo nas nossas costas Lábios e olhos colados Uma cara de idiota Alguém tocando os mosquitos Tirando e colocando o véu Sangue escorrendo por feridas “Como ele inchou” “Tá bem estufado” E tudo o que fizemos se reduz a isso Não me venham com poesias Não me façam crer que a vida é bela Ela não é Nunca será A morte sim é bela Pois encerra com a palhaçada toda Fecha as cortinas de um espetáculo assistido por ninguém E logo ninguém mais lembrará que tudo isso aconteceu Então não Eu não quero fazer nada valer a pena Porque nada vale a pena
alugamos por alguns meses uma casinha amarela não sei se era sua tonalidade original ou o tempo se encarregou de colorir naturalmente pequena, velha, alguns pregos soltos e rebocos caindo
aquelas paredes presenciaram de tudo amor, paixão, raiva, ódio abrigou por um curto período o mar de intensidade que ilustrou a nossa história
nos mudamos de lá no início de agosto deixamos nossas marcas em cada centímetro do teto descascado ao piso quebradiço nosso cheiro, nossas digitais foi triste a despedida
acabei de passar por lá luzes acesas outras pessoas semblantes estranhos outras marcas ficarão em cima das nossas e, aos poucos, nossa passagem por lá será esquecida não por nós, mas pela casa
se não fosse a ilusão de acreditar que abrigaremos e seremos abrigados pra sempre teríamos a lucidez e a humildade de admitir que o nosso coração também é assim uma velha casa alugada
Às vezes, a vida nos surpreende, nos coloca contra a parede e nos deixa atordoados por algum tempo. É exatamente assim que me sinto ao digitar estas palavras neste momento. Há exatamente uma semana, em 17 de maio de 2021, recebi um golpe devastador que ainda reverbera em mim. Fui atingido em cheio, como se um tiro de grosso calibre acertasse em meu peito. Sem rodeios, há uma semana, perdi a mulher mais importante da minha vida. Sem chance de despedida, foi um golpe repentino. Minha mãe, aos 57 anos, faleceu vítima de um infarto fulminante. O diagnóstico médico apontou “Falência multiorgânica” decorrente de insuficiência respiratória aguda provocada por uma crise asmática.
Eram 15h45min quando recebi uma chamada no WhatsApp. “Mãe – chamando”. Atendi, esperando ouvir a voz familiar, mas era minha prima, usando o celular dela. Franciele, com a voz trêmula, me deu as más notícias. Minha mãe havia sido levada às pressas para o Pronto Socorro e estava em estado grave. Parti imediatamente, inundado por pressentimentos sombrios. Durante a viagem, conversava comigo mesmo ou com alguma força invisível que me acompanhava: “Por favor, não nos deixe agora, temos tantas coisas planejadas, tantos sonhos a realizar. Não nos abandone assim, sem despedida”. Ao chegar lá, minha tia me recebeu com palavras dolorosas: “A situação é crítica, só um milagre poderia salvá-la”. Logo em seguida, uma enfermeira reforçou a gravidade da situação, indicando que devíamos avisar os familiares próximos, pois a recuperação era improvável.
Minha mãe se sentiu mal em casa e chamou por minha tia, que a socorreu imediatamente, com o auxílio do resgate. Ela vinha lutando contra dificuldades respiratórias, dores pelo corpo, febre e perda de apetite há meses. Sintomas que poderiam ser facilmente confundidos com COVID-19, mas o teste deu negativo. Seu corpo dava sinais de que um infarto estava por vir, mas ninguém percebeu, nem ela mesma.
Em poucos minutos, meu irmão chegou, visivelmente abalado, testemunhando as tentativas desesperadas de reanimá-la. Eu não tive coragem de presenciar essa cena. Fiquei do lado de fora, andando de um lado para o outro, esperando acordar desse pesadelo terrível. Mas não era um sonho. Minutos depois, o médico veio com a notícia devastadora. Uma sensação de dormência tomou conta do meu peito. Queria gritar, expressar minha dor, mas estava completamente paralisado. Eu e meu irmão nos mantivemos firmes por fora, mas desmoronávamos por dentro, ao dar a notícia mais difícil de nossas vidas para os familiares. Estávamos em choque, tentando assimilar o ocorrido.
Sou espiritualista. Não sigo nenhuma religião apesar de respeitar quase todas. Acredito em Deus e tenho certeza de que nada termina com a morte. Criei minha própria espiritualidade tentando seguir os conselhos do homem mais importante que pisou nesta terra há mais de 2.000 anos. E é essa maturidade espiritual misturada com a infinita confiança que tenho no criador que me mantém firme. Sempre tive uma ligação profunda com minha mãe. Durante 90% da minha vida, fomos apenas eu e ela, inseparáveis, confidentes, mais do que mãe e filho. Éramos uma só pessoa, uma conexão inexplicável.
Desde a infância, eu temia profundamente a ideia de vê-la em um caixão. Implorava para não ter que enfrentar esse momento, preferindo partir antes dela. Estava convencido de que não resistiria à sua perda, dada a intensidade de nossa ligação. Porém, esse dia chegou sem piedade.
Sem que eu percebesse, Deus estava me preparando para esse momento. Nos últimos dez anos, dediquei meu tempo, por vontade própria, a estudar sobre a morte, religiões, Deus e Jesus. Buscava evidências de que a vida vai além do que conhecemos. Noites a fio lendo, assistindo a centenas de vídeos e palestras de diferentes correntes de pensamento. Essa jornada me fortaleceu para enfrentar momentos difíceis como este. Deus estava me preparando para o golpe mais duro que a vida me lançaria.
Hoje, sinto-me mais forte. Se antes eu era apenas “mais ou menos”, agora tenho a energia e a proteção da pessoa mais incrível que já conheci. Antes, eu a tinha ao meu lado ocasionalmente; agora, ela está dentro de mim, parte do meu ser. Continuamos sendo um só, para sempre. Essa força que me impulsiona a seguir em frente, mesmo com o coração despedaçado, certamente vem de Deus, das preces daqueles que compartilham minha dor e, claro, da espiritualidade que, sem que eu percebesse, cultivei ao longo da vida.
Hoje, tenho absoluta certeza de que ela está em paz. Depois de enfrentar tantas dificuldades em vida, agora ela pode encontrar a felicidade plena. Ao lado da Vó Gomercinda e do Vô Zeca, ela tem muito a aprender e crescer. Falo com ela regularmente, sem formalidades, como sempre fiz. Em nossas conversas, expresso meu amor e peço que não se preocupe conosco. Assim como cuidava de nós em vida, tenho certeza de que ela continua nos amando e se preocupando conosco, mesmo em outro plano. Peço aos espíritos de luz que a guiem em sua jornada de evolução e aprendizado. Enquanto isso, nós seguimos nossos caminhos, com dor e saudade, mas com a certeza de que um dia nos reencontraremos em uma dimensão além desta, e ela nos ensinará, mais uma vez, a dar os primeiros passos.
De que vale oferecer o mundo e as estrelas Se não é de mim que desejas recebê-las? De que serve proferir palavras belas ao amanhecer Se não é da minha boca que anseias ouvi-las?
De que adianta eu afirmar que colori meus dias Enquanto tu insistes que os teus permanecem cinzentos? De que adianta admirar teu corpo nu como uma tela de Monet Se não são meus olhos que desejas ter a te contemplar?
Mesmo que eu entregue todo o amor do universo, Para ti, será sempre insuficiente, Porque não sou eu, E nunca serei.
E embora saibas todas essas verdades, Persistes em me atormentar com tua presença, Pois, no fundo, conheces outra grande verdade: Que és tu quem eu realmente quero ao meu lado. Isso te conforta, alimenta teu ego e satisfaz tuas vaidades.
Enquanto eu sobrevivo de migalhas, Das sobras e dos “nadas” que guardas em ti, À espera de serem transformadas em tudo, E, sem muito esforço, serem concedidas a outro Que não sou eu.