poesia invisível

Quanto tempo perdido te mostrando a lua,
te falando das estrelas,
te falando dos meus poetas favoritos,
te falando da forma como te via,
da forma como eram mágicos nossos momentos.

Quanto tempo perdido te falando da magia,
que era magia só pra mim,
te falando da impossibilidade de medir o meu amor,
e de como era incrível esse amor,
aumentando a cada dia.
De como a rotina e a poeira do cotidiano
nunca abalaram as estruturas do meu sentimento.

Quanto tempo perdido te falando de mim,
das minhas dúvidas,
da forma como via o mundo, as pessoas,
das minhas crenças, dos meus medos.
Você nunca quis saber,
nunca quis entender,
você nunca me ouviu,
e, se ouvia, ouvia apenas com os ouvidos.

Quanto tempo perdido,
quanta vida perdida,
quanta energia gasta em vão.

Pelo menos me tornei especialista na arte de amar sozinho.
O que me dói de verdade são os desperdícios.
Foi como mergulhar no vazio,
foi como tentar colocar o oceano que habita em mim
no copo d’água da tua indiferença.

Eu escrevi com um lápis branco
em um papel em branco
a mais bela de todas as poesias.

eu sou o meu mundo

O aprendizado que tive com nossa história
faculdade nenhuma no mundo me ensinaria.
Tive que descobrir tudo na marra, sem anestesia.
Haviam momentos em que a dor parecia insuportável,
as indiferenças, as palavras que machucavam,
a metralhadora que acionava cada vez que abria a boca.
Tudo aquilo me matava por instantes,
mas nunca matou a vontade de insistir,
insistir em algo que já havia terminado há tempos.

Até que um dia, por um descuido qualquer,
alguma força maior fez com que uma brisa de lucidez
tomasse conta do meu peito,
como se um balde de água gelada fosse despejado
sobre o castelo de ilusões que eu mesmo criei.
E em meio à lama da realidade que se formou,
percebi o quão benéfica foi pra mim a tua crueldade.
Ela acabou por destruir um “eu” que não existe mais,
um personagem que eu interpretava,
pensando que era eu mesmo, mas não era.

A minha essência estava escondida,
aprisionada dentro da submissão, do conformismo, da comodidade,
do “aceitar tudo” pra evitar uma briga,
de acreditar que a culpa era sempre minha,
do meu silêncio que sempre gritou,
mas você nunca soube ouvir.

Enfim, a lucidez chegou a tempo.
Quando a droga do amor já não fazia mais efeito,
descobri, em meio a tombos, quedas e moradas em fundos de poços,
que a coisa mais importante do mundo pra mim sou eu mesmo.
Demorou, mas consegui.
Agora sou eu quem está falando,
mas eu, de verdade,
e já não preciso mais de ti pra ser eu de fato.
O molde que construíste ao redor de mim se quebrou para sempre.

Desejo de coração que as lembranças dos nossos momentos bons
te acompanhem até teu último dia,
não em forma de remorso ou arrependimento.
Jamais desejaria mal à pessoa que mais amei na vida.
Mas pra que saibas que, por algum tempo,
tiveste o mundo nas mãos — o meu mundo.
Ao invés de torná-lo seu também,
não o agarrou com força suficiente,
não deu a ele a devida importância.
E eu serei eternamente grato por isso.

amor: uma droga lícita

A vida deu-me uma ordem de restrição,
não posso chegar nem perto do amor.
Fujo dele como o diabo foge da cruz.
Jamais irei perdoá-lo pelo que fez comigo.
Eu até já acreditei nele,
não posso dizer que não existe.
Eu vi, vivi e senti,
cada fase de sua passagem por mim.
Mas o rastro de destruição que ele deixou
me fez odiá-lo mortalmente.

Com essa experiência desastrosa,
restou-me apenas uma reflexão:
aqueles que já nascem com o coração de pedra
são verdadeiros sortudos.
Fogem de qualquer possibilidade de encontro com o amor,
sem remorso algum, sem culpa, sem dores no peito.
Pois não conhecem outra coisa a não ser a indiferença,
a frieza, a insensibilidade.

Triste mesmo é quando já se acreditou,
quando foi construído e depois destruído,
quando ainda restam escombros de histórias não terminadas,
sombras e visões de algo que um dia foi a melhor coisa do mundo.

Há tempos fujo do amor.
Mas, embora eu tente manter essa postura de durão,
de incrédulo e pessimista,
dentro de mim ainda mora uma partícula do que um dia fui.
E por mais que firmemos um pacto,
de não nos aproximarmos um do outro,
sei que ele me observa silenciosamente,
esperando a hora certa de dar o bote.
Quem sabe eu seja envenenado mais uma vez
e, propositalmente, não corra atrás de antídotos.

Pois quem um dia conheceu o amor,
por mais que o demonize e se blinde dele,
sabe que ele voltará com tudo.
E não adianta mudar de endereço,
ele já morou aqui,
já decorou o caminho.

Quem um dia conheceu o amor,
sabe que, no fundo, ele é bom e viciante.
E depois do prazer de mergulharmos nele,
age como toda e qualquer droga:
nos mata lenta e dolorosamente.

Por que aceitamos migalhas?

Chega de explicações idiotas pra essa pergunta. Chega de “baseado no estudo tal”, “com base nas pesquisas da universidade da mãe Joana”, “estudo revela que 50% dos homens e o caralho a quatro”. Um balde de água fria as vezes faz bem, e principalmente, nos mostra que não estamos sozinhos no barco. A verdade é só uma e precisa ser dita:

Aceitamos migalhas porque é infinitamente mais confortável estarmos ao lado de quem amamos do que distante. Mesmo que não haja correspondência. Aceitamos migalhas pois não temos o mínimo de amor próprio e estamos anestesiados pelo efeito dessa droga chamada “amor”. Aceitamos migalhas pois amamos como criança e não somos “doentes” como a maioria diz. Sentimos com pureza e com verdade. Nenhuma dor se assemelha a de ser rejeitado por quem mais amamos. Ou de não ser correspondido a altura. Ou pior, receber em troca da vida que entregamos, desprezo e indiferença. Mas apesar de passarmos por tudo isso. A pessoa ainda está ali, do nosso lado. Ou seja: nem tudo está perdido. Acreditamos que a dor da presença pode até ser terrível, mas a da ausência não permitiria sobrevivência. Poetizamos, romantizamos o sofrimento. Afinal: “É uma honra sofrer por quem amamos”. Sabemos que estamos errados. E não é que não podemos mudar. Na verdade não queremos. Não queremos sentir menos. Não queremos nos diminuir pra caber dentro de alguém. Somos alma, fogo, amor. Colocamos a pessoa em primeiro lugar. Não por esquecermos de nós. Mas se praticamente não existíamos antes dela, nada mais justo do que idolatrarmos uma presença que nos fez renascer. Aceitamos migalhas pois o que sentimos é puro, intenso e sincero. Somos masoquistas. Vamos, aos poucos, morrendo por dentro. Aos poucos. Talvez isso seja o pior. É uma morte consciente. Como o fumante, que sabe que seu vício é capaz de matá-lo. Sabemos que a medida em que entregamos o mundo ou a vida a alguém, perdemos um pouco de nós a cada instante. Sabemos de tudo isso e continuamos. Afinal, se na ausência a sobrevivência é absolutamente incerta, na presença, também incerta, morremos aos poucos. E pra encerrar: Aceitamos migalhas pois também somos movidos pela esperança. Pela esperança de que um dia sejamos amados na mesma proporção. Esperança de que um dia também sintam nossa falta e nos amem verdadeiramente. Afinal, o amor em excesso, o “sentir” intenso e verdadeiro, o “não conseguir viver sem” somente é considerado dependência emocional, quando vem de apenas uma parte. Se fosse das duas seria apenas uma rara história de amor que deu certo. Portanto, não nos preocupemos com os nomes, rótulos. E aceitemos de uma vez por todas, que um amor correspondido na mesma proporção, é como saber o número exato de quantos grãos de areia há no globo terrestre.

Não quero te amar menos

Não quero te amar menos.
Por mais que os especialistas em relacionamentos me encham de sugestões mirabolantes.
Por mais que no fundo eu saiba que estão certos.
Por mais que minha cabeça implore ao meu peito pra fazê-lo.
Não. Não quero diminuir meu sentimento pra caber dentro de ti.
Por mais que me falem em “dependência emocional”.
Não quero cortar pela metade o que de mais precioso há em mim.
O que trago no peito por ti é o que de mais valioso possuo.
Não quero me desfazer disso. Em hipótese alguma.

Por mais que meus sentimentos te sufoquem,
por mais que te sintas pressionada ou com a responsabilidade enorme sobre os ombros,
permita-me apenas que eu sinta.
E te entregue, todos os dias, uma parcela disso tudo.
Não quero que sintas o mesmo por mim. Imagina.
É humanamente impossível. É completamente impossível.
Mas não corte o meu barato.
Permita-me que eu cuide de ti.
Deixa eu te embalar em meus braços, mexer no teu cabelo,
te possuir em minhas mãos como a descoberta de um tesouro.

E, se de fato não houver outra saída,
me impeça apenas de te entregar isso tudo, mas não de sentir.
Afinal, sou especialista na arte de amar sozinho.

sede do teu corpo

Ah, minha pequena,
se soubesses a sede que tenho de ti,
do teu calor, do teu corpo, da tua alma,
se soubesses o que sinto,
cada vez que contorno, com as mãos, cada curva tua,
cada vez que te contorno com a boca
e sinto na alma o teu arder, o teu queimar.
Se soubesses o que sinto
quando te envolvo completamente,
te apertando contra meu corpo,
e, por instantes, me sinto dono do mundo inteiro,
porque você é o meu mundo inteiro.

Se soubesses como te vejo,
como idolatro e venero a textura macia da tua pele,
como observo atentamente cada detalhe teu,
como se estivesse diante de mim
o diamante mais precioso do mundo,
ou toda a riqueza do universo.
Quereria fazer do teu corpo
minha eterna morada,
e, se um dia fosse,
jamais abriria janelas ou portas,
dentro da tua biosfera particular.
Viveria eternamente,
alimentado de fogo e paixão,
rezando para que, se um dia tudo terminasse,
esse mesmo fogo me transformasse em cinzas.

quando se pisa na bola

Pisar na bola significa errar,
com ou sem intenção.
Errar é errar.
E, se você pisou na bola,
tente dar o mundo a alguém.
Dê as estrelas, ou até mesmo o universo.
Nada fará diferença.
Quando se pisa na bola, algo morre ali, no ato.
Talvez a parte que você não dava importância,
mas que era a mais importante de todas.

São assim os homens:
só valorizam algo depois de perder.

Quando se pisa na bola,
a confiança se trinca pra sempre,
e, às vezes, quebra.
Nada volta a ser como antes.
E o pior:
nada que faça, fará voltar o tempo.
Nada que faça, restaurará algo quebrado.
Quando se pisa na bola, é que se percebe:
pisar na bola
foi a única coisa que não poderia acontecer.

eu vivi o meu amor

Eu vivi o meu amor,
sim, somente o meu,
pois nunca senti o teu.
E como eu gostaria de senti-lo,
e principalmente vivê-lo.
Ele até poderia existir,
mas há uma diferença entre saber que ele existe
e perceber que ele existe.

Se nossa história terminasse hoje,
eu certamente morreria.
Continuaria respirando, talvez,
mas morreria por dentro.
Teriam os mais diferentes sentimentos negativos,
menos um: o remorso.
O remorso de não ter vivido esse amor com intensidade,
de não ter decorado cada milímetro do teu corpo,
de não ter gravado em minha mente e meu coração
cada segundo dos nossos mágicos momentos.
Que, na verdade, só eram mágicos para mim.

Vivi cada instante como se fosse o último,
porque no fundo sabia que um deles, de fato, seria.
Era completamente indiferente às tuas indiferenças,
pois sempre fui egoísta.
Ninguém foi mais egoísta que eu.
Aceitei tudo de ruim que me oferecias,
pois tua presença me alegrava.
Pois tua companhia abraçava meu coração.

Se vou morrer na tua ausência,
isso é completamente indiferente.
Pois, na tua presença, eu também morria,
aos poucos.

somos poetas, somos poesia

Quero te devorar inteira,
sentir o sabor de cada milímetro do teu corpo,
quero mergulhar em ti, na tua alma,
no teu passado, presente e futuro.

Minhas mãos deslizam, contornando cada curva tua,
como em câmera lenta, os olhos acompanham cada traço.
O idioma da poesia agora é o braille,
e seu único leitor é o coração,
que, completamente cego,
já não se contenta com dizeres,
tem fome de carne, corpo e alma.

A essa altura, palavras não significam nada,
o silêncio é o amor que grita em desespero por mais.
Toda poesia escrita em milênios se resume a nada,
a mais bela de todas está ali, materializada em nós.
Em minutos, nos transformamos nos maiores poetas da humanidade.

Alguns preferem fazer poesia riscando-a em papéis em branco,
nós preferimos tê-las nas mãos, com um significado só nosso.