as palavras que não digo

Tenho a péssima mania de guardar coisas antigas.
Não são discos, selos, fitas ou fotografias.
São sentimentos, interrogações
e, principalmente, palavras.
Transformei meu peito num museu
de pronúncias engolidas.

Aqui dentro há muito mais do que lá fora.
Guardo muito mais do que ofereço.
Coleciono silêncios e frases mutiladas,
num baú cuja chave também engoli.

E assim, devorando o que não se deve,
enganando a todos — e a mim mesmo —,
temo o dia em que não caiba mais nada,
em que não exista tapete
para ocultar os restos do que sobrou.

Temo que, se um dia me for de repente,
se a vida me for arrancada à força,
a culpa não será do tempo,
nem da morte,
mas das palavras que não digo.

Porque cada sílaba que sufoco
estrangula minha garganta com mais força.
E eu, que sonhei partir em serenidade,
como quem adormece num sono longo e manso,
sinto-me evaporar devagar,
em dolorosa combustão silenciosa.

Por entre os escombros desse silêncio
moram amores não confessados,
dores sem nome, gritos abafados,
raivas, euforias e medos —
tudo cuidadosamente enterrado
sob a manta fria e transparente do meu calar.

Silêncio traidor, que me feriu pelas costas,
que me projetou para o mundo de muitas formas,
menos pelo que verdadeiramente sou.

O que sou de fato
segue exilado, invisível,
nas ruínas sombrias
das palavras que não digo.

Já tentei acabar com tudo

Preparem-se para uma confissão: eu já tentei suicídio. Mais do que a tentativa em si, o que realmente me aterrorizava era a vontade, a ânsia de terminar com tudo. Meus pensamentos só buscavam a escuridão do fim da existência. O “nada” que eu encontraria lá na frente parecia, sem dúvida, ser muito mais acolhedor do que o “nada” que minha vida havia se tornado naquele momento. Depois de muita reflexão, e com o tempo fazendo a poeira baixar, percebi que eu não queria que a minha vida acabasse. Eu queria que a dor acabasse. Eu não queria me matar. Eu queria chamar a atenção, pedir socorro. Gritar para o mundo que nada estava bem dentro de mim.

Sempre senti as coisas de forma intensa. Qualquer coisa, por menor que fosse, me atingia de maneira absurda. A lucidez me matava lentamente. Eu via tudo, percebia tudo. A realidade era como uma navalha cortando aos poucos minha garganta. Naqueles momentos, eu queria ser um idiota, como 90% das pessoas que conheço. Queria me iludir com sonhos, trabalho, paixões. Viver no piloto automático, sem questionar meus sentimentos ou sensações. Queria ser frio. Sem coração. Sem sentimento. Tudo isso, na verdade, para sofrer menos.

No último sábado, durante o velório de um amigo que morreu tragicamente aos 25 anos num acidente de moto, percebi a cagada que eu estava prestes a fazer. Mas, na hora, a gente não pensa nisso. Na hora da tentativa de terminar com tudo, enquanto eu engolia comprimidos com cerveja, em nenhum momento pensei no desespero da minha mãe sobre meu caixão. No sofrimento do meu pai, inconsolável, fumando um cigarro atrás do outro. No olhar perdido do meu irmão, nas minhas tias e tios, nos amigos de infância e, principalmente, na minha esposa, que se tornou o maior motivo para eu decidir seguir em frente com a vida. Mas, mesmo sem razões claras, eu não poderia desistir. Eu precisava garimpar, entre os escombros, algo pelo que ainda pudesse lutar.

A gente não quer morrer. A gente quer gritar para o mundo que algo está profundamente errado dentro de nós. Eu precisava de ajuda. Medicamentos ou terapias, não importava. Eu precisava de alguém que segurasse a minha mão e dissesse: “Tô contigo”. E, eventualmente, encontrei esse alguém, não em outra pessoa, mas em mim mesmo, e também em alguns amigos verdadeiros.

Claro, o processo de aprender a se amar é complicado e não acontece da noite para o dia. Mas, aos poucos, estou trabalhando nisso. Acredito que quem se ama de verdade, que consegue se sentir bem consigo mesmo, seja na solidão de um quarto escuro ou no meio de uma multidão, encontrou o que há de mais valioso na vida. Quem é capaz de se sentir pleno consigo tem tudo. Quem ama a própria companhia conquistou algo muito mais precioso do que qualquer prêmio ou reconhecimento material.

Hoje, a vida me deu uma “casca” pelas surras que levei. Hoje, não me prendo tanto aos pensamentos que me atormentam. Talvez eu esteja, finalmente, entre os 90% que comentei no início. Mas encontrei um equilíbrio. Um equilíbrio que não significa que tudo seja fácil ou sempre alegre, mas que me permite enfrentar a vida com uma disposição renovada. Não quero mais morrer. Tenho muito chão pela frente. Não que eu ache que a vida seja, todos os dias, a coisa mais maravilhosa do mundo – muito longe disso. Mas agora, minha curiosidade é o que me move. Quero viver, não porque acredito em um final feliz, mas porque quero descobrir e sentir na pele o que me espera ao longo do caminho. E, acima de tudo, eu quero descobrir o que mais posso aprender e crescer enquanto ainda estou aqui.

A vida, com todas as suas complexidades e surpresas, é a coisa mais incrível e impressionante que existe. O velório desse final de semana me fez repensar profundamente. E, ao invés de procurar a morte como fiz no passado, hoje busco me afastar dela o mais distante possível. Não só pelas pessoas que amo, mas, principalmente, por mim. Porque, no fim, o mais importante é o que fazemos com o tempo que temos. Eu escolhi, então, seguir.

se eu morresse hoje

Se eu morresse hoje, morreria com muitas dívidas.
Com muitos abraços não dados e palavras não ditas.
Com muitos lugares não desbravados e paisagens não apreciadas.

Se eu morresse hoje, morreriam comigo todos os meus sonhos,
todas as minhas esperanças e expectativas.
Meu cheiro ficará pela casa por algumas horas, no máximo.
A cama, quem sabe, ainda amassada por algum tempo.
Quem sabe eu ainda deixe o banheiro molhado,
e a toalha estendida, um pouco úmida.

Se eu morresse hoje, ficaria um monte de coisas por fazer.
Meu corpo, já sem valor algum, existirá por mais alguns meses,
até que desapareçam todas as minhas marcas físicas,
que disseram que um dia eu passei por aqui.
Desaparecerá também a frequência das pronúncias do meu nome.
Em anos, poucos saberão da minha passagem por aqui.
Em mais anos, ninguém mais chorará por mim.

Mas e se eu nascesse hoje? O que faria diferente?
Se me fosse dada uma nova vida,
com o cronômetro zerado,
quais passos eu daria novamente
e quais caminhos jamais percorreria pela segunda vez?

Se me fosse dada uma nova chance,
eu viveria com mais cuidado.
Eu abraçaria os meus amigos com força
e ficaria madrugadas conversando sobre o sentido da vida.

Se me fosse dada uma nova chance,
e os relógios zerassem suas contagens,
eu jamais carregaria um no pulso.
Contaria o meu tempo pelos pores e nasceres do sol.

E, nesse intervalo entre um e outro,
faria de tudo para que, quando eu morresse,
deixasse para trás uma vida pela qual valesse a pena morrer.

Entrelinhas de um Poeta

Poesia não se explica, poesia se sente.
E o meu silêncio, herdeiro desse fato,
faz de ti um poema perfeito:
linhas, curvas e traços invisíveis,
que não cabem no alcance dos olhos.

Assim como a poesia escrita,
assim como os mais belos textos da humanidade,
deves ser lida com a alma,
decifrada em tuas entrelinhas,
nos enigmas sutis do teu existir.
És verso sem ponto final,
és página que nunca se fecha.

Já duvidei de mim,
se era ou não um poeta.
Hoje, graças a ti, sei que sou:
não pelo som rouco da velha máquina de escrever,
mas por decifrar as estrofes que o vento leva
em cada sorriso que me ofereces sem perceber.

Sou poeta porque és a carne da beleza,
o reflexo de tudo o que não pode ser inventado.
E eu não poderia ser outra coisa,
pois em teu olhar os versos já nasceram prontos.
Só precisei reconhecê-los,
senti-los como quem tateia um sonho,
e rabiscá-los em papéis famintos de eternidade.

Sou poeta, mas nada criei.
Apenas empresto palavras ao que sempre existiu,
apenas procuro sinônimos para os antônimos das minhas dores.
E compreendo, por fim:
mais do que ler ou escrever poesia,
o que verdadeiramente me consome
é estar cativo dentro de uma —
a tua poesia.

Tatuagem

Tatuagem não sai nunca mais.
É cicatriz intencional, cravada na carne,
na camada mais funda da pele —
aquela que o tempo não consegue polir,
que nem as lágrimas ou o sol sabem apagar.

O amor é parecido.
Marca invisível, mas igualmente eterna,
cravada na parte do peito
que o tempo não tem acesso.
Mas nem todo amor é assim.

Há tatuagens temporárias
que a água dissolve como mentira antiga,
e há amores que a dor
lava para fora com lágrimas.
Nem por isso deixam de ser amor —
apenas foram feitos para durar o tempo que precisavam.

Para tatuar, é preciso pensar duas vezes.
Para amar, não se pensa.
O amor chega como agulha sem aviso,
fura todas as defesas e
estampa na alma o que quer.

Raros são os amores-tatuagem,
esses que permanecem vivos
na mais funda camada do ser.
Alguns, no entanto, se parecem mais com cicatrizes —
marcas que carregam lições envenenadas,
histórias que juramos nunca repetir,
mas que, no fundo,
sabemos que um dia vamos.

Marcas

Fracassei na tentativa de te ter pra sempre aqui.
Na dor física da tua ausência, morri por dentro aos poucos.
Por fora, insistiram em sobreviver células e poros,
que, por várias noites, se afogaram no suor do teu corpo.

Hoje, revirei os quatro cantos da casa cinza e sem vida,
que um dia já foi o arco-íris dos meus entardeceres,
buscando uma marca dos tempos em que havia vida em mim.
Lembranças e imagens já não eram suficientes.

Ansiava por uma marca física, real, verdadeira:
um fio de cabelo, um perfume esquecido, uma peça de roupa…
Qualquer coisa que me trouxesse a saudosa sensação
de ainda escutar teus passos por entre os cômodos.
Qualquer objeto seria, para mim, uma relíquia.

Mas o tempo não perdoou os restos mortais da nossa história.
A poeira dos dias apagou qualquer possibilidade de nostalgia.
Nada mais restou da vida que jamais temi perdê-la,
e hoje me vejo implorando a Deus uma falha no tempo-espaço,
que, por um descuido, fizesse meus dias retrocederem.

Eu já estava desistindo da minha procura, quase fracassada,
quando, sem querer, vi meu vulto no espelho do roupeiro.
Cheguei mais perto e me autoanalisei de uma maneira profunda.
Vi meu olhar abatido, doente, de quem nada espera mais,
um embrulho de mau gosto da dor escondida por dentro.

Sentei na cama, pensativo, exausto, mas ainda com vida.
Me dei conta de que havia tido sucesso em minha busca:
eu queria uma marca tua e encontrei a maior de todas.
Porque nada traduz tão fielmente a tua passagem por mim,
do que o rastro de destruição que deixaste em minha alma.

poesia invisível

Quanto tempo perdido te mostrando a lua,
te falando das estrelas,
te falando dos meus poetas favoritos,
te falando da forma como te via,
da forma como eram mágicos nossos momentos.

Quanto tempo perdido te falando da magia,
que era magia só pra mim,
te falando da impossibilidade de medir o meu amor,
e de como era incrível esse amor,
aumentando a cada dia.
De como a rotina e a poeira do cotidiano
nunca abalaram as estruturas do meu sentimento.

Quanto tempo perdido te falando de mim,
das minhas dúvidas,
da forma como via o mundo, as pessoas,
das minhas crenças, dos meus medos.
Você nunca quis saber,
nunca quis entender,
você nunca me ouviu,
e, se ouvia, ouvia apenas com os ouvidos.

Quanto tempo perdido,
quanta vida perdida,
quanta energia gasta em vão.

Pelo menos me tornei especialista na arte de amar sozinho.
O que me dói de verdade são os desperdícios.
Foi como mergulhar no vazio,
foi como tentar colocar o oceano que habita em mim
no copo d’água da tua indiferença.

Eu escrevi com um lápis branco
em um papel em branco
a mais bela de todas as poesias.

eu sou o meu mundo

O aprendizado que tive com nossa história
faculdade nenhuma no mundo me ensinaria.
Tive que descobrir tudo na marra, sem anestesia.
Haviam momentos em que a dor parecia insuportável,
as indiferenças, as palavras que machucavam,
a metralhadora que acionava cada vez que abria a boca.
Tudo aquilo me matava por instantes,
mas nunca matou a vontade de insistir,
insistir em algo que já havia terminado há tempos.

Até que um dia, por um descuido qualquer,
alguma força maior fez com que uma brisa de lucidez
tomasse conta do meu peito,
como se um balde de água gelada fosse despejado
sobre o castelo de ilusões que eu mesmo criei.
E em meio à lama da realidade que se formou,
percebi o quão benéfica foi pra mim a tua crueldade.
Ela acabou por destruir um “eu” que não existe mais,
um personagem que eu interpretava,
pensando que era eu mesmo, mas não era.

A minha essência estava escondida,
aprisionada dentro da submissão, do conformismo, da comodidade,
do “aceitar tudo” pra evitar uma briga,
de acreditar que a culpa era sempre minha,
do meu silêncio que sempre gritou,
mas você nunca soube ouvir.

Enfim, a lucidez chegou a tempo.
Quando a droga do amor já não fazia mais efeito,
descobri, em meio a tombos, quedas e moradas em fundos de poços,
que a coisa mais importante do mundo pra mim sou eu mesmo.
Demorou, mas consegui.
Agora sou eu quem está falando,
mas eu, de verdade,
e já não preciso mais de ti pra ser eu de fato.
O molde que construíste ao redor de mim se quebrou para sempre.

Desejo de coração que as lembranças dos nossos momentos bons
te acompanhem até teu último dia,
não em forma de remorso ou arrependimento.
Jamais desejaria mal à pessoa que mais amei na vida.
Mas pra que saibas que, por algum tempo,
tiveste o mundo nas mãos — o meu mundo.
Ao invés de torná-lo seu também,
não o agarrou com força suficiente,
não deu a ele a devida importância.
E eu serei eternamente grato por isso.

amor: uma droga lícita

A vida deu-me uma ordem de restrição,
não posso chegar nem perto do amor.
Fujo dele como o diabo foge da cruz.
Jamais irei perdoá-lo pelo que fez comigo.
Eu até já acreditei nele,
não posso dizer que não existe.
Eu vi, vivi e senti,
cada fase de sua passagem por mim.
Mas o rastro de destruição que ele deixou
me fez odiá-lo mortalmente.

Com essa experiência desastrosa,
restou-me apenas uma reflexão:
aqueles que já nascem com o coração de pedra
são verdadeiros sortudos.
Fogem de qualquer possibilidade de encontro com o amor,
sem remorso algum, sem culpa, sem dores no peito.
Pois não conhecem outra coisa a não ser a indiferença,
a frieza, a insensibilidade.

Triste mesmo é quando já se acreditou,
quando foi construído e depois destruído,
quando ainda restam escombros de histórias não terminadas,
sombras e visões de algo que um dia foi a melhor coisa do mundo.

Há tempos fujo do amor.
Mas, embora eu tente manter essa postura de durão,
de incrédulo e pessimista,
dentro de mim ainda mora uma partícula do que um dia fui.
E por mais que firmemos um pacto,
de não nos aproximarmos um do outro,
sei que ele me observa silenciosamente,
esperando a hora certa de dar o bote.
Quem sabe eu seja envenenado mais uma vez
e, propositalmente, não corra atrás de antídotos.

Pois quem um dia conheceu o amor,
por mais que o demonize e se blinde dele,
sabe que ele voltará com tudo.
E não adianta mudar de endereço,
ele já morou aqui,
já decorou o caminho.

Quem um dia conheceu o amor,
sabe que, no fundo, ele é bom e viciante.
E depois do prazer de mergulharmos nele,
age como toda e qualquer droga:
nos mata lenta e dolorosamente.