Preparem-se para uma confissão: eu já tentei suicídio. Mais do que a tentativa em si, o que realmente me aterrorizava era a vontade, a ânsia de terminar com tudo. Meus pensamentos só buscavam a escuridão do fim da existência. O “nada” que eu encontraria lá na frente parecia, sem dúvida, ser muito mais acolhedor do que o “nada” que minha vida havia se tornado naquele momento. Depois de muita reflexão, e com o tempo fazendo a poeira baixar, percebi que eu não queria que a minha vida acabasse. Eu queria que a dor acabasse. Eu não queria me matar. Eu queria chamar a atenção, pedir socorro. Gritar para o mundo que nada estava bem dentro de mim.
Sempre senti as coisas de forma intensa. Qualquer coisa, por menor que fosse, me atingia de maneira absurda. A lucidez me matava lentamente. Eu via tudo, percebia tudo. A realidade era como uma navalha cortando aos poucos minha garganta. Naqueles momentos, eu queria ser um idiota, como 90% das pessoas que conheço. Queria me iludir com sonhos, trabalho, paixões. Viver no piloto automático, sem questionar meus sentimentos ou sensações. Queria ser frio. Sem coração. Sem sentimento. Tudo isso, na verdade, para sofrer menos.
No último sábado, durante o velório de um amigo que morreu tragicamente aos 25 anos num acidente de moto, percebi a cagada que eu estava prestes a fazer. Mas, na hora, a gente não pensa nisso. Na hora da tentativa de terminar com tudo, enquanto eu engolia comprimidos com cerveja, em nenhum momento pensei no desespero da minha mãe sobre meu caixão. No sofrimento do meu pai, inconsolável, fumando um cigarro atrás do outro. No olhar perdido do meu irmão, nas minhas tias e tios, nos amigos de infância e, principalmente, na minha esposa, que se tornou o maior motivo para eu decidir seguir em frente com a vida. Mas, mesmo sem razões claras, eu não poderia desistir. Eu precisava garimpar, entre os escombros, algo pelo que ainda pudesse lutar.
A gente não quer morrer. A gente quer gritar para o mundo que algo está profundamente errado dentro de nós. Eu precisava de ajuda. Medicamentos ou terapias, não importava. Eu precisava de alguém que segurasse a minha mão e dissesse: “Tô contigo”. E, eventualmente, encontrei esse alguém, não em outra pessoa, mas em mim mesmo, e também em alguns amigos verdadeiros.
Claro, o processo de aprender a se amar é complicado e não acontece da noite para o dia. Mas, aos poucos, estou trabalhando nisso. Acredito que quem se ama de verdade, que consegue se sentir bem consigo mesmo, seja na solidão de um quarto escuro ou no meio de uma multidão, encontrou o que há de mais valioso na vida. Quem é capaz de se sentir pleno consigo tem tudo. Quem ama a própria companhia conquistou algo muito mais precioso do que qualquer prêmio ou reconhecimento material.
Hoje, a vida me deu uma “casca” pelas surras que levei. Hoje, não me prendo tanto aos pensamentos que me atormentam. Talvez eu esteja, finalmente, entre os 90% que comentei no início. Mas encontrei um equilíbrio. Um equilíbrio que não significa que tudo seja fácil ou sempre alegre, mas que me permite enfrentar a vida com uma disposição renovada. Não quero mais morrer. Tenho muito chão pela frente. Não que eu ache que a vida seja, todos os dias, a coisa mais maravilhosa do mundo – muito longe disso. Mas agora, minha curiosidade é o que me move. Quero viver, não porque acredito em um final feliz, mas porque quero descobrir e sentir na pele o que me espera ao longo do caminho. E, acima de tudo, eu quero descobrir o que mais posso aprender e crescer enquanto ainda estou aqui.
A vida, com todas as suas complexidades e surpresas, é a coisa mais incrível e impressionante que existe. O velório desse final de semana me fez repensar profundamente. E, ao invés de procurar a morte como fiz no passado, hoje busco me afastar dela o mais distante possível. Não só pelas pessoas que amo, mas, principalmente, por mim. Porque, no fim, o mais importante é o que fazemos com o tempo que temos. Eu escolhi, então, seguir.