Por que aceitamos migalhas?

Chega de explicações idiotas pra essa pergunta. Chega de “baseado no estudo tal”, “com base nas pesquisas da universidade da mãe Joana”, “estudo revela que 50% dos homens e o caralho a quatro”. Um balde de água fria as vezes faz bem, e principalmente, nos mostra que não estamos sozinhos no barco. A verdade é só uma e precisa ser dita:

Aceitamos migalhas porque é infinitamente mais confortável estarmos ao lado de quem amamos do que distante. Mesmo que não haja correspondência. Aceitamos migalhas pois não temos o mínimo de amor próprio e estamos anestesiados pelo efeito dessa droga chamada “amor”. Aceitamos migalhas pois amamos como criança e não somos “doentes” como a maioria diz. Sentimos com pureza e com verdade. Nenhuma dor se assemelha a de ser rejeitado por quem mais amamos. Ou de não ser correspondido a altura. Ou pior, receber em troca da vida que entregamos, desprezo e indiferença. Mas apesar de passarmos por tudo isso. A pessoa ainda está ali, do nosso lado. Ou seja: nem tudo está perdido. Acreditamos que a dor da presença pode até ser terrível, mas a da ausência não permitiria sobrevivência. Poetizamos, romantizamos o sofrimento. Afinal: “É uma honra sofrer por quem amamos”. Sabemos que estamos errados. E não é que não podemos mudar. Na verdade não queremos. Não queremos sentir menos. Não queremos nos diminuir pra caber dentro de alguém. Somos alma, fogo, amor. Colocamos a pessoa em primeiro lugar. Não por esquecermos de nós. Mas se praticamente não existíamos antes dela, nada mais justo do que idolatrarmos uma presença que nos fez renascer. Aceitamos migalhas pois o que sentimos é puro, intenso e sincero. Somos masoquistas. Vamos, aos poucos, morrendo por dentro. Aos poucos. Talvez isso seja o pior. É uma morte consciente. Como o fumante, que sabe que seu vício é capaz de matá-lo. Sabemos que a medida em que entregamos o mundo ou a vida a alguém, perdemos um pouco de nós a cada instante. Sabemos de tudo isso e continuamos. Afinal, se na ausência a sobrevivência é absolutamente incerta, na presença, também incerta, morremos aos poucos. E pra encerrar: Aceitamos migalhas pois também somos movidos pela esperança. Pela esperança de que um dia sejamos amados na mesma proporção. Esperança de que um dia também sintam nossa falta e nos amem verdadeiramente. Afinal, o amor em excesso, o “sentir” intenso e verdadeiro, o “não conseguir viver sem” somente é considerado dependência emocional, quando vem de apenas uma parte. Se fosse das duas seria apenas uma rara história de amor que deu certo. Portanto, não nos preocupemos com os nomes, rótulos. E aceitemos de uma vez por todas, que um amor correspondido na mesma proporção, é como saber o número exato de quantos grãos de areia há no globo terrestre.

Não quero te amar menos

Não quero te amar menos.
Por mais que os especialistas em relacionamentos me encham de sugestões mirabolantes.
Por mais que no fundo eu saiba que estão certos.
Por mais que minha cabeça implore ao meu peito pra fazê-lo.
Não. Não quero diminuir meu sentimento pra caber dentro de ti.
Por mais que me falem em “dependência emocional”.
Não quero cortar pela metade o que de mais precioso há em mim.
O que trago no peito por ti é o que de mais valioso possuo.
Não quero me desfazer disso. Em hipótese alguma.

Por mais que meus sentimentos te sufoquem,
por mais que te sintas pressionada ou com a responsabilidade enorme sobre os ombros,
permita-me apenas que eu sinta.
E te entregue, todos os dias, uma parcela disso tudo.
Não quero que sintas o mesmo por mim. Imagina.
É humanamente impossível. É completamente impossível.
Mas não corte o meu barato.
Permita-me que eu cuide de ti.
Deixa eu te embalar em meus braços, mexer no teu cabelo,
te possuir em minhas mãos como a descoberta de um tesouro.

E, se de fato não houver outra saída,
me impeça apenas de te entregar isso tudo, mas não de sentir.
Afinal, sou especialista na arte de amar sozinho.

sede do teu corpo

Ah, minha pequena,
se soubesses a sede que tenho de ti,
do teu calor, do teu corpo, da tua alma,
se soubesses o que sinto,
cada vez que contorno, com as mãos, cada curva tua,
cada vez que te contorno com a boca
e sinto na alma o teu arder, o teu queimar.
Se soubesses o que sinto
quando te envolvo completamente,
te apertando contra meu corpo,
e, por instantes, me sinto dono do mundo inteiro,
porque você é o meu mundo inteiro.

Se soubesses como te vejo,
como idolatro e venero a textura macia da tua pele,
como observo atentamente cada detalhe teu,
como se estivesse diante de mim
o diamante mais precioso do mundo,
ou toda a riqueza do universo.
Quereria fazer do teu corpo
minha eterna morada,
e, se um dia fosse,
jamais abriria janelas ou portas,
dentro da tua biosfera particular.
Viveria eternamente,
alimentado de fogo e paixão,
rezando para que, se um dia tudo terminasse,
esse mesmo fogo me transformasse em cinzas.

quando se pisa na bola

Pisar na bola significa errar,
com ou sem intenção.
Errar é errar.
E, se você pisou na bola,
tente dar o mundo a alguém.
Dê as estrelas, ou até mesmo o universo.
Nada fará diferença.
Quando se pisa na bola, algo morre ali, no ato.
Talvez a parte que você não dava importância,
mas que era a mais importante de todas.

São assim os homens:
só valorizam algo depois de perder.

Quando se pisa na bola,
a confiança se trinca pra sempre,
e, às vezes, quebra.
Nada volta a ser como antes.
E o pior:
nada que faça, fará voltar o tempo.
Nada que faça, restaurará algo quebrado.
Quando se pisa na bola, é que se percebe:
pisar na bola
foi a única coisa que não poderia acontecer.

eu vivi o meu amor

Eu vivi o meu amor,
sim, somente o meu,
pois nunca senti o teu.
E como eu gostaria de senti-lo,
e principalmente vivê-lo.
Ele até poderia existir,
mas há uma diferença entre saber que ele existe
e perceber que ele existe.

Se nossa história terminasse hoje,
eu certamente morreria.
Continuaria respirando, talvez,
mas morreria por dentro.
Teriam os mais diferentes sentimentos negativos,
menos um: o remorso.
O remorso de não ter vivido esse amor com intensidade,
de não ter decorado cada milímetro do teu corpo,
de não ter gravado em minha mente e meu coração
cada segundo dos nossos mágicos momentos.
Que, na verdade, só eram mágicos para mim.

Vivi cada instante como se fosse o último,
porque no fundo sabia que um deles, de fato, seria.
Era completamente indiferente às tuas indiferenças,
pois sempre fui egoísta.
Ninguém foi mais egoísta que eu.
Aceitei tudo de ruim que me oferecias,
pois tua presença me alegrava.
Pois tua companhia abraçava meu coração.

Se vou morrer na tua ausência,
isso é completamente indiferente.
Pois, na tua presença, eu também morria,
aos poucos.

somos poetas, somos poesia

Quero te devorar inteira,
sentir o sabor de cada milímetro do teu corpo,
quero mergulhar em ti, na tua alma,
no teu passado, presente e futuro.

Minhas mãos deslizam, contornando cada curva tua,
como em câmera lenta, os olhos acompanham cada traço.
O idioma da poesia agora é o braille,
e seu único leitor é o coração,
que, completamente cego,
já não se contenta com dizeres,
tem fome de carne, corpo e alma.

A essa altura, palavras não significam nada,
o silêncio é o amor que grita em desespero por mais.
Toda poesia escrita em milênios se resume a nada,
a mais bela de todas está ali, materializada em nós.
Em minutos, nos transformamos nos maiores poetas da humanidade.

Alguns preferem fazer poesia riscando-a em papéis em branco,
nós preferimos tê-las nas mãos, com um significado só nosso.

nunca te amei

Dizem que o amor e a paixão são duas coisas absolutamente diferentes.
Enquanto a paixão arde como fogo,
o amor nos traz paz, calmaria,
preenche o peito com uma sensação de plenitude.
Não traz consigo nenhum sentimento ruim.
Não há insegurança, dúvida, nem incerteza.
Dá asas, ao invés de prender.
É um complemento da felicidade, e não a felicidade em si.

A paixão é loucura, perda de controle dos próprios pensamentos.
O amor é lucidez, certeza, firmeza.
A paixão cega,
cria situações, ignora os defeitos,
passa por cima de tudo e de todos.

Com todas essas constatações,
espero ansiosamente pelo dia em que o furacão que habita meu peito
se transforme, de fato, em amor.

Na verdade, nunca te amei.
Sou completamente apaixonado por ti.

carência

Não há nada mais avassalador e criativo do que a carência. A paixão muitas vezes nos cega, a dependência emocional é terrível, mas o grau de autodestruição de um coração carente é absurdamente maior. Insultos são respondidos com silêncio. Culpas são carregadas em vão pelo simples fato de evitar uma discussão. Aceita-se migalhas em troca da própria alma. Uma espécie de masoquismo involuntário (ou não). Dentre tantas consequências de se ter um coração carente, eis a principal: ver amor onde não há, seja no próprio coração, seja no coração alheio.

antes sim, depois não

Hoje, revirando minhas fitas, encontrei uma gravação minha de 2017.
Como pode?
Eu parecia estar respirando normalmente.
Meu coração, mesmo sem tua presença em seu interior, aparentemente bombeava sangue para todo o meu corpo, agindo de forma como se não soubesse que, em alguns meses, encontraria o real motivo de prosseguir.
Como eu pude viver tantos anos sem te conhecer?
Sem saber da tua existência?
Tu te tornaste tudo para mim num piscar de olhos, que praticamente apagou todos os vestígios de vida no período anterior ao teu acontecimento.
Sim, tu não és uma aparição, um encontro, um relacionamento. Tu és um acontecimento, um divisor de águas na minha história.
Eu até pude caminhar por aqui por alguns anos sem ti, mas agora que sei da tua existência,
agora que decorei cada centímetro do teu corpo,
agora que carrego comigo teu cheiro, teu gosto,
agora que te plantei em meu coração e minha alma,
e que sei como ninguém o verdadeiro significado do amor,
que te transformei no principal motivo para eu respirar.
Antes de ti, eu posso até ter caminhado por aí fingindo viver,
mas com certeza, sem ti, não há a mínima possibilidade de existir um depois.

Papel em branco

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Os melhores poetas da humanidade conseguiam traduzir em palavras, com riqueza de detalhes, a sensação que o amor proporciona. Descreviam as características de um olhar e as consequências que causavam em seus corações. Já li poetas que escreviam páginas inteiras descrevendo momentos que duraram segundos. Uma cruzada de olhares bastava para uma infinidade de palavras bonitas que prendiam a atenção do leitor. E eu? Até tento transformar alguns sentimentos em palavras. Mas colocar no papel o furacão que o teu olhar e o teu sorriso causam dentro de mim é tarefa absolutamente impossível. Tento, tento e tento. Leio, procuro palavras que não conheço, folheio o dicionário de cabo a rabo e nada. Fico horas olhando para um papel em branco, pensando até em deixá-lo em branco propositalmente, na intenção de que o leitor entenda o recado, de que no silêncio ou no vazio cabem um milhão de coisas. Mas sempre acabo desistindo… Não me atrevo!

Afinal, será que ninguém conseguirá descrever com fidelidade o amor verdadeiro em palavras, em milhares de anos? Bom, não serei eu, um pobre coitado, que teria tamanha ousadia. Mas é só ficares diante de mim, trocar algumas palavras, olhar diretamente nos meus olhos e esboçar um sorriso, por mais discreto que seja, e pronto! É como se a definição total, absoluta e mais perfeita do amor estivesse diante de mim, não em forma de letras, mas, mesmo assim, fazendo com que eu lesse cada página do teu semblante e devorasse, em alguns segundos, o livro mais bonito da história. Por instantes, tenho diante de mim a maior riqueza que um ser humano é capaz de construir. Me sinto dono do mundo, das respostas, da verdade. Tenho em meu peito a principal matéria-prima da arte, da música dos textos, dos grandes nomes da história. Por minutos, tenho tudo, tenho o mundo. A definição do amor só é entendida olho no olho. É absolutamente inútil qualquer tentativa de transformar em grafias aquilo que somente o coração conseguirá ler.