a viagem

Minha existência emocional
depende exclusivamente da tua companhia
a física não
até me surpreendo
mas consigo ficar algumas horas distante de ti
algumas inacabáveis horas
que me fizeram redescobrir o tamanho dos minutos
e o quanto os segundos podem parecer uma eternidade

Livros de autoajuda ou palestrantes renomados
dirão que é o cúmulo da loucura
depender emocionalmente de alguém
assim, de uma forma tão intensa
pobres intelectuais de bibliotecas
nunca sentiram dentro de si
esse vulcão sempre em erupção
apelidado de amor

Chamam-me de besta, tolo ou ignorante
mas carregarei dentro de mim
até o último dos meus dias
a certeza de que,
na obscura viagem que é a vida,
observei atentamente pelas janelas da alma
cada detalhe dessa infindável paisagem

eu sei o que é morrer

Sim
eu sei o que é morrer
Há um ditado que diz que “ninguém voltou pra contar”
pois eu morri e aqui estou
O que os outros veem andando por aí
carregando consigo a minha fisionomia
trata-se apenas de um conjunto de órgãos, tecidos e ossos
Podem procurar à vontade
não encontrarão vida ali
A que eu tinha
levaste contigo
na bagagem do que fomos
na bagagem pesada do que vivemos
Aposto que, para ti, o peso dela é quase inexistente
enquanto eu, do lado de cá
sinto cada segundo da nossa história
como uma navalha na minha garganta
Maldita navalha que apenas me sufoca
Queria mesmo é que ela concluísse seu trabalho
para que nem mesmo meus órgãos, tecidos e ossos
possam caminhar por aí com as doloridas marcas tuas

quando eu partir

Quando eu não mais estiver aqui
fiquem à vontade para dizerem
que fui um homem que sempre deu pouca importância a seu semelhante
que odiava regras e a arrogância humana
que nunca tive uma grande paixão pela vida
que preferia viver distante das aglomerações
que pouco sorria ou me comunicava
que o silêncio sempre foi minha melhor resposta
ou provocação

Digam o que quiserem

porém, jamais ousem dizer que não amei
conheci o amor como ninguém
e foi a melhor parte dessa caminhada

você me ensinou

Se eu sei o que é amor?
Poderei dizer
Até o último dos meus dias
Que eu sei do que se trata

Vivi esse furacão
Na carne e na alma
Nas mais íntimas das definições
Me atirei sem medo
Mergulhei nas suas profundezas

Conversei com as incertezas
Que se confundiam com segurança
Porque no fundo
Eu sabia onde estava
E o que estava fazendo

Um amor racional
É ainda mais excitante e saboroso
Pois sentimos e percebemos
Sentimos e observamos
É como degustar um bom vinho
Sem pressa alguma

O amor cego
É extremamente perigoso
Pois nossa observação
Pula as partes mais importantes

Eu sei o que é amor
Porque você me ensinou
E para isso
Não precisou fazer muita coisa
Apenas existir
Em mim

um pedaço teu

Hoje por um descuido
encontrei um fio de cabelo teu
uma pequena parte de ti
que insiste em ficar
estava no teu travesseiro
que me recuso a tirar da cama
sabe, não entendo de anatomia
nem tampouco das células capilares
mas esse fio de cabelo
parece não viver mais
depois que se desprendeu de ti
creio que não haja nele
nem um pequeno resquício de vida

como pode entre eu e ele
haver tanta semelhança?
somos completamente iguais
eu também já não vivo mais
depois que me desprendi de ti
mas infelizmente
assim como ele
continuo existindo
e o pior
assim como ele
continuo sendo teu

eterno

E se os rabiscos que hoje escrevo
ficarem vagando por aí depois da minha morte
saberão as gerações futuras
do quão grande é meu amor por ti
inspirarão jovens casais
a não terem medo do novo, do recomeço
a enfrentarem seus monstros interiores

quando daqui 100 anos
alguém souber da nossa história
saberão também
que o que é verdadeiro nunca termina
e que o amor
quando pulsa no coração de dois
se eterniza

seja em linhas amareladas pelo tempo
ou em algum canto do universo
onde descansam os amores
que de tão intensos
se recusam a morrer