A expressão “sermos nós mesmos” sempre me deixou com um ponto de interrogação na cabeça. Ser eu mesmo? Acho que se fosse pra ser eu mesmo ou seria morto ou seria preso. Isso quando eu cansasse de dormir 15 horas por dia, beber nas outras 5 e dormir novamente nas outras 4. Porém a sociedade nos obriga a seguirmos algumas regras. Obriga a mim e a outras bilhões de pessoas no mundo a não serem elas mesmas. E isso acostuma. Nos tornamos enfim, gado, meros vegetais que esqueceram de viver e fingem entender alguma coisa. Qualquer pessoa que fuja destas regras impostas pela sociedade há milênios, são chamadas de loucas, quando na verdade são as únicas pessoas que de fato vivem. Saio por aí e vejo dezenas de pessoas por dia mas quase nenhum ser humano. Um automatismo proposital. As pessoas que vivem na correria acabam se conformando e sempre têm a velha desculpa: “A gente se acostuma”. A correria, o automatismo, nada mais é do que uma fuga da realidade. A realidade costuma mastigar e engolir lentamente os que não estão muito preparados para a vida. Há pessoas que não suportam a possibilidade de passar um dia inteiro sozinhas em casa. O medo maior é de si mesmas. De suas dúvidas, inseguranças e frustrações, que só aparecem quando estamos sozinhos com nós mesmos. Só aparecem quando olhamos para o espelho mais nítido que existe: o espelho da vida. É neste espelho que vemos o reflexo do quão pequeno somos, do quão inúteis são as coisas que insistimos em continuar fazendo. Arthur Schopenhauer já nos alertava sobre isso há mais de 150 anos: “(…) Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.”