Receita

Sou um covarde
No sentido literal da palavra,
É como ter a receita do bolo,
Mas medo de fazê-lo,
Um bolo sonhado por anos,
Dos mais saborosos possíveis,
Pra ser degustado sozinho,
Apreciado,
Com prazer,
Com vontade,
Com fome —
Uma fome que se retraiu ao longo dos anos.

Sou um covarde,
Tenho todos os ingredientes,
Mas não me atrevo a misturá-los,
Falta-me coragem,
Falta-me iniciativa.

O fogo da cozinha me chama,
Mas algo dentro de mim diz para esperar,
Adiar,
Morar no futuro que nunca chega,
Como se o bolo perfeito pudesse se preparar sozinho.

Esse poema não é sobre bolos,
É sobre mim.
Sobre os medos que fermentam sem que eu os toque,
Sobre os desejos que apodrecem na prateleira da inação,
Sobre o som do relógio que ecoa no vazio da minha hesitação.

E talvez o maior medo,
Não seja falhar,
Mas descobrir que, no fundo,
Nem a receita é o que me faltava.
Era o ato de começar.
O erro de não tentar.

Esse poema, no fim,
É sobre a vida inteira que não fiz,
Sobre o bolo que nunca será assado,
Mas que vive,
Em algum caderno amarelado
No baú das minhas covardias.

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