O que é a vida?

Uma pergunta simples demais para respostas pequenas. Daquelas que surgem numa roda de amigos depois da décima terceira cerveja, quando a lucidez já foi embora, mas a consciência, essa desgraçada resiliente, resolve ficar. Mesmo bêbado, continuo sóbrio o suficiente para ser assombrado por ela.

Por que tudo existe se o nada parecia uma opção tão elegante? Como isso tudo começou? Foi acidente, projeto, tédio divino? Existe um criador ou essa é só a nossa necessidade infantil de colocar um responsável no caos? E se existe, quem teve a péssima ideia de criar o criador? Provavelmente outro criador. E assim seguimos numa fila infinita de gerentes cósmicos, nenhum disponível para atendimento.

Nascer, crescer, morrer. Um roteiro curto, repetitivo e sem direito a reembolso. No meio disso, espera-se que sejamos honestos, bondosos, éticos. Curioso como a moral nos é cobrada com rigor, mesmo sabendo que o destino final do justo e do canalha é rigorosamente o mesmo. O túmulo é o grande igualador social. Democrático até demais.

Há algo de profundamente injusto na ideia de que tudo termina aqui. Todo esse esforço emocional, todas as dúvidas, culpas, afetos e traumas, tudo isso para virar silêncio. Um investimento alto demais para um retorno tão duvidoso.

Minha espiritualidade, essa entidade incômoda, sempre foi honesta comigo. Nunca prometeu finais felizes, apenas verdades duras e desconfortáveis. Já meu lado obscuro, muito mais persistente, adora cochichar que tudo é em vão, que o universo não se importa, que a existência é só um acidente prolongado. E talvez ele esteja certo. O que é ainda pior.

Sentimentos e consciência. Esse luxo caro e inútil que só os humanos parecem pagar. Nunca vi um cachorro em crise existencial olhando para o pôr do sol e se perguntando sobre a origem do ser. Nunca vi um macaco angustiado com o sentido da própria finitude. Talvez o problema seja exatamente esse. Pensamos demais. Refletimos demais. Criamos abismos onde poderíamos simplesmente deitar e dormir. Quem sabe viver como primatas ou cachorros fofos não seja sabedoria disfarçada de ignorância.

Talvez essas respostas nunca venham. Pelo menos não neste plano. E se houver outro, onde a consciência sobreviva, onde os sentimentos atravessem a morte junto conosco, aí sim estarei completamente ferrado. Porque nada é mais cansativo do que existir. Exceto, talvez, existir para sempre sabendo disso.

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