Um dos maiores traumas que carrego da infância não tem a ver com palmadas, cintos ou chinelos voadores — mas com algo infinitamente mais sofisticado: o veneno do não merecimento. Carrego em mim essa pequena herança de família, como quem herda uma prataria antiga, só que em formato de cicatriz.
Aprendi cedo a ter vergonha da felicidade, como se sorrir fosse um crime passível de prisão em flagrante. Qualquer manifestação de bem-estar precisa ser vivida em silêncio, quase como um ritual secreto, ou, se possível, podada já no primeiro broto. Cresci acreditando que a alegria deveria ser mantida em cativeiro.
E tudo começou com um gesto aparentemente banal. Nos raros momentos em que meu pai me dava um presente, ou até mesmo uns dez reais para o pastel da escola, ele completava a cena com a frase:
— Tu não merece, mas vou te dar.
Curtinho, direto, quase elegante na crueldade.
Para ele era piada, humor de corredor. Para mim, uma sentença perpétua. Dizia aquilo rindo, mas na minha cabeça de criança soava mais doloroso que um cinto. Porque a surra passava; a frase ficou.
Resultado: cresci com a convicção de que não mereço absolutamente nada de bom. Até sei que a psicoterapia defende a lógica do enfrentamento, que “nomear o trauma” seria o primeiro passo para superá-lo. Pois bem, já dei nome, sobrenome e CPF para o meu. Só que, ao contrário do manual de autoajuda, ele continua morando aqui, feito inquilino folgado que não paga aluguel.
Hoje, se tiro férias, a sensação é de estar cometendo latrocínio. Se abro uma cerveja numa sexta-feira à tarde, sinto que acabei de atropelar uma criança de colo. E se ouso viajar… bom, aí já imagino meu rosto estampado em cartazes da Interpol. Procurado por sorrir.
É como se houvesse uma lei silenciosa gravada no meu peito: eu nunca serei suficiente. E mesmo quando for, ainda assim não será o bastante. Horrível, sim. Mas nada que já não se some à minha longa coleção de horrores cotidianos.
No fim das contas, virei especialista na arte de pisar em ovos. O detalhe é que peso quase 130 quilos.
