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Sobre Maicon Rigon

Radialista, poeta, pensador. Sou um apaixonado por minha esposa Julia, pelos primeiros raios da manhã e o suave adeus do sol ao entardecer, pelas matas silenciosas, pelos riachos que sussurram segredos e pelo conforto profundo da solitude. Carrego comigo uma curiosidade infinita pelo que a vida ainda reserva, um desejo insaciável de explorar o desconhecido que se esconde além do horizonte. Enquanto os ponteiros do relógio teimam em não descansar, tento transformar a ansiedade em poesia, trocando o roer de unhas pelo compasso das teclas, onde cada palavra se torna um pequeno refúgio. A poesia, afinal, continua sendo a melhor saída para quem, como eu, sente vontade de escapar da vida e do mundo, mesmo que ambos insistam em me seguir, incansáveis, passo a passo.

viver dói

Se os espíritas estivessem com a razão,
deveria ser proibida a reencarnação dos intensos,
dos sensíveis, dos pensadores, dos poetas.
Aqui nunca foi nosso lugar,
a não ser que a nossa única dedicação,
em existências anteriores,
tenha sido a prática do mal.
Quem sabe então faça sentido:
estamos sendo castigados,
pagando por dívidas antigas,
massacrados por nossas próprias mentes.

Ao mesmo tempo, me pergunto:
e se eu tivesse nascido como a maioria?
Fugindo de mim mesmo a todo instante,
usando trabalho e paixões para me esconder
de qualquer possibilidade de encontro com a minha própria essência.

Acumulando, acumulando e acumulando
riquezas, dúvidas e inseguranças,
colocando para debaixo do tapete
coisas que não consigo compreender.
E o pior:
acreditar em verdades que eu mesmo criei,
acreditar que eu esteja no caminho certo,
sem saber que não existe caminho certo.

E quem disse que existe um caminho?
Talvez os ignorantes sofram menos,
mas, de uma ou outra forma,
maquiada ou escancarada,
viver sempre doeu,
para todos.

o olhar clareia

Ah o olhar
Sempre falou mais que palavras
Muito mais do que pronúncias
A verdade é que são poucos os que conseguem decifrá-lo
Deve-se ter uma sensibilidade fora do comum
Deve-se mergulhar no mundo alheio
Sem medo do raso ou do profundo
Para decifrar um olhar
Jamais deve-se usar tão somente outro olhar
O coração também enxerga
E esse é o segredo

Os olhos jamais disfarçam sentimentos
E sabe qual é a parte triste?
É que a ausência deles
Também não pode ser disfarçada

post mortem

Hoje liguei para um tatuador
marquei um horário para amanhã
minha intenção era te homenagear
marcando teu nome em minha pele
de forma que nunca mais se apagasse

uma ousadia e tanto
de quem já não sabe mais o que fazer
para demonstrar o quão importante és
há pouco tornei a ligar

desmarquei
na verdade, mudei de ideia
os outros não precisam saber

fico pensando
quantas lindas histórias de amor
foram para a sepultura
junto com seus protagonistas

penso que as maiores paixões
acontecem assim
sem plateia

Como uma tatuagem
tenho teu nome gravado em meu coração
teus olhos desenhados em minha alma
e tua boca em cada célula do meu corpo
e, diferente de uma tatuagem,
nem mesmo o mais alto estágio
de putrefação de meu cadáver
seria capaz de apagar

luto

Já se passaram três meses
três meses sem nenhum sorriso
por mais discreto que seja
sem nenhuma manifestação de alegria
ou vontade de prosseguir com minha caminhada
noventa longos dias sem vida
sem cor, sabor ou textura
a macia textura da tua pele
que, para o meu coração, cego de amor,
sempre foi poesia em braile

Psicólogos, especialistas,
todos falam em um tal “período de luto”
temo que esse período dure para sempre
por isso eu luto, luto e luto todos os dias
para te arrancar de dentro de mim

a viagem

Minha existência emocional
depende exclusivamente da tua companhia
a física não
até me surpreendo
mas consigo ficar algumas horas distante de ti
algumas inacabáveis horas
que me fizeram redescobrir o tamanho dos minutos
e o quanto os segundos podem parecer uma eternidade

Livros de autoajuda ou palestrantes renomados
dirão que é o cúmulo da loucura
depender emocionalmente de alguém
assim, de uma forma tão intensa
pobres intelectuais de bibliotecas
nunca sentiram dentro de si
esse vulcão sempre em erupção
apelidado de amor

Chamam-me de besta, tolo ou ignorante
mas carregarei dentro de mim
até o último dos meus dias
a certeza de que,
na obscura viagem que é a vida,
observei atentamente pelas janelas da alma
cada detalhe dessa infindável paisagem

eu sei o que é morrer

Sim
eu sei o que é morrer
Há um ditado que diz que “ninguém voltou pra contar”
pois eu morri e aqui estou
O que os outros veem andando por aí
carregando consigo a minha fisionomia
trata-se apenas de um conjunto de órgãos, tecidos e ossos
Podem procurar à vontade
não encontrarão vida ali
A que eu tinha
levaste contigo
na bagagem do que fomos
na bagagem pesada do que vivemos
Aposto que, para ti, o peso dela é quase inexistente
enquanto eu, do lado de cá
sinto cada segundo da nossa história
como uma navalha na minha garganta
Maldita navalha que apenas me sufoca
Queria mesmo é que ela concluísse seu trabalho
para que nem mesmo meus órgãos, tecidos e ossos
possam caminhar por aí com as doloridas marcas tuas

quando eu partir

Quando eu não mais estiver aqui
fiquem à vontade para dizerem
que fui um homem que sempre deu pouca importância a seu semelhante
que odiava regras e a arrogância humana
que nunca tive uma grande paixão pela vida
que preferia viver distante das aglomerações
que pouco sorria ou me comunicava
que o silêncio sempre foi minha melhor resposta
ou provocação

Digam o que quiserem

porém, jamais ousem dizer que não amei
conheci o amor como ninguém
e foi a melhor parte dessa caminhada

você me ensinou

Se eu sei o que é amor?
Poderei dizer
Até o último dos meus dias
Que eu sei do que se trata

Vivi esse furacão
Na carne e na alma
Nas mais íntimas das definições
Me atirei sem medo
Mergulhei nas suas profundezas

Conversei com as incertezas
Que se confundiam com segurança
Porque no fundo
Eu sabia onde estava
E o que estava fazendo

Um amor racional
É ainda mais excitante e saboroso
Pois sentimos e percebemos
Sentimos e observamos
É como degustar um bom vinho
Sem pressa alguma

O amor cego
É extremamente perigoso
Pois nossa observação
Pula as partes mais importantes

Eu sei o que é amor
Porque você me ensinou
E para isso
Não precisou fazer muita coisa
Apenas existir
Em mim