Já escrevi em outro momento sobre essa minha paixão nada saudável por coisas antigas. Lugares, objetos, cenários, músicas, artes em geral. Mas chamar de paixão talvez seja até um eufemismo elegante. É algo mais próximo de uma obsessão silenciosa, dessas que a psicologia deve rotular com um nome bonito, em latim, para dar ares de normalidade ao que claramente não é. Alguma engrenagem mal ajustada da infância, alguma saudade de um tempo que nem vivi. Mas pouco importa.
Estamos em reforma na empresa. Derrubaram um revestimento acústico e, sem querer, abriram uma fenda no tempo. Paredes que não viam a luz havia mais de vinte e cinco anos reapareceram, nuas, ásperas, honestas. No meio delas, um bilhete pendurado, deixado por um colega em 2001. Um pedaço de papel esquecido, sobrevivente de governos, modas, crises, tecnologias e promessas que não se cumpriram.
Aquilo me acertou como um soco seco no estômago. Não pela parede em si, mas pelo que ela carregava em silêncio. Olhei para aquele espaço como quem encara uma cápsula do tempo improvisada. Passei a mão devagar, quase com respeito, como se o toque pudesse absorver duas décadas de vida, vozes, pressas, risos e cansaços entranhados no reboco. Um gesto inútil, eu sei. Mas profundamente humano.
Sou pouco viajado. O motivo é simples e nada romântico. Trabalho, boletos, limites financeiros. Ainda assim, fico imaginando qual seria minha reação diante de algo realmente histórico. Ruínas deixadas por povos que desapareceram sem pedir licença. Monumentos erguidos por mãos anônimas, movidas por fé, medo ou vaidade. Talvez eu não chorasse. Talvez ficasse apenas em silêncio, que é a única forma sincera de reverência que conheço.
O curioso é que não consigo colocar em palavras o que isso tudo provoca em mim. E olha que me dou bem com elas. Mas, nesse ponto, elas escapam, escorrem pelos dedos, se recusam a obedecer. Talvez porque algumas sensações não querem ser explicadas. Querem apenas ser sentidas, como um incômodo permanente no peito.
Se isso for um distúrbio mental ou um traço torto da personalidade, espero sinceramente nunca ser curado. Gosto de olhar o mundo com esse filtro meio melancólico, meio ácido. Gosto de lembrar que tudo o que vejo, por mais novo, já foi outra coisa. Já serviu a outros propósitos. Já foi cenário de histórias que ninguém mais conta. Já foi palco de acontecimentos que só o céu e, quem sabe, a eventual existência de um Deus foram capazes de testemunhar.
Talvez seja isso. Não é amor pelo passado. É respeito pelo tempo. Uma consciência incômoda de que somos apenas mais uma camada fina sobre a parede. E que, cedo ou tarde, alguém vai derrubar o revestimento e encontrar vestígios de nós. Um rabisco, um bilhete esquecido, ou apenas o silêncio.
