ela é má

Ela é cruel.
Sabe o poder que carrega nos olhos —
essa mistura de ternura e veneno,
capaz de acender paixões e silenciar guerras.

Move-se com a leveza do vento,
mas por onde passa,
deixa corações em ruínas,
como cidades após o fogo.

Não promete nada,
e mesmo assim todos acreditam.
Sabe seduzir com o silêncio,
fingir inocência no meio da tempestade,
e sorrir enquanto o mundo desaba a seus pés.

Encanta, domina, despedaça —
tudo em um mesmo gesto.
Não precisa gritar,
seu perfume já faz o estrago.

Ver alguém se arrastar por ela
é o espetáculo que mais aprecia.
Não por maldade —
mas por vaidade,
essa vaidade disfarçada de fragilidade.

Pobre mulher…
refém de si mesma,
presa à armadilha do próprio reflexo,
confundindo poder com amor,
e conquista com abrigo.

Ela é má.
E sabe disso.
Mas ignora o abismo que deixa para trás,
as almas que vagueiam perdidas,
as promessas que o vento leva —
sempre depois que ela parte.

Talvez agora eu compreenda
por que os furacões têm nomes femininos:
porque há mulheres que passam pela vida
como a força da natureza —
belas, indomáveis,
e absolutamente devastadoras.

o verdadeiro fim

Fazíamos sempre um escândalo nas brigas.
“ADEUS”, “te desejo felicidade”, “siga o teu caminho”…
Mas logo arrumávamos qualquer desculpa,
e lá íamos nós, tudo voltando à estaca zero.

Quando era assim, ainda havia algo ali.
Pequenos fragmentos de sentimentos que, mesmo quebrados,
faziam toda a diferença.
O verdadeiro “fim” não acontece dessa forma.

O verdadeiro término é lento.
Vamos perdendo o interesse,
sepultando os gestos, os olhares,
as lembranças… e, acima de tudo, os sentimentos.

O final mais triste e definitivo
é aquele sem barraco, sem palavras excessivas.
É o que vai acontecendo aos poucos,
quando os sentimentos são enterrados pela poeira do cotidiano.

Assim são os verdadeiros fins.
E, quando finalmente nos damos conta,
mais nada existe.

atores da vida

Na verdade, somos todos grandes atores.
Criamos personagens para interagir com cada pessoa,
e os interpretamos com propósito.
Não é falsidade,
mas uma necessidade para a convivência,
um jeito de trazer harmonia a um mundo caótico.

E as raridades?
São aquelas pessoas com as quais podemos, de fato, nos desnudar.
Tirar todas as máscaras e sermos quem somos.
Essas pessoas, de alguma forma, parecem anjos,
raras, mas facilmente identificáveis
pela energia positiva que transmitem,
pelo bem-estar que sua companhia proporciona.

Se tens alguém com quem podes ser tu mesmo,
sem personagens, sem fingimentos,
parabéns.
És uma pessoa de sorte.

a sós

Gosto desses momentos íntimos,
não a dois, mas a sós,
comigo mesmo.
Quando, enfim, descubro
que minha própria companhia pode ser agradável.
É quando me encontro com o que há de mais íntimo em mim,
seja contemplando o luar,
o nascer do sol,
uma paisagem,
um riacho,
uma mata…
qualquer coisa se torna interessante,
quando estamos em nossa própria companhia,
conectados com nossa alma,
com nossa história,
com nosso íntimo.

Quando finalmente descobrimos
que a felicidade vem de dentro pra fora,
e que nenhum fator externo pode nos dar isso,
é que finalmente temos um pingo de desconfiança
sobre o que de fato estamos fazendo aqui.

o olhar dela fala

O olhar dela fala.
Ainda não cheguei à exata tradução,
mas sei que fala uma porção de coisas.
A magia que envolve esse olhar
é impressionante,
capaz de nocautear o mais forte dos homens,
capaz de atear fogo
ou se confundir com uma brisa fresca.

O olhar dela fala.
Até pensei em ouvi-lo,
mas ainda prefiro esse mistério,
e acabei desistindo.
Prefiro ficar sem saber
o que exatamente
o olhar dela fala.

sexta

A vida se assemelha a uma sexta-feira.
Estamos sempre esperando por algo:
pelo final de semana, pelo final da tarde,
pelo final do mês, pelo final do ano.
Enquanto isso, a sexta-feira vai passando,
esquecemos de observar a paisagem.
Os detalhes passam despercebidos.
Os olhos ficam fixos no porvir,
no que está por vir, no que ainda não chegou.

A má notícia é que,
quando finalmente chegarmos ao final dessa sexta-feira,
não haverá mais sábado,
nem domingo pela frente.

apego

E se o segredo for “não se apegar”?
A absolutamente nada:
pessoas, coisas, lugares…
Aprendi que qualquer tipo de apego traz consigo a dor,
o sofrimento que vem como consequência.

Nada é eterno,
mas passei tanto tempo sem realmente pensar nisso.
Inconscientemente acreditava que tudo permaneceria do mesmo jeito,
para sempre, até o fim.
Mas não,
tudo acaba.
As pessoas se afastam,
os amores se vão,
as histórias ficam.

Na memória e no coração.
— As que merecem.

fazer valer a pena

Tenho um amigo chamado Marquinhos. Volta e meia nos reunimos e nos embebedamos madrugada a dentro. Um de nossos maiores questionamentos (até mesmo antes do porre), é: Que merda estaremos fazendo daqui 10, 20 ou 30 anos? E quando estivermos com 60 ou 70? Ou já fudidos com 80 ou 90? (Deus me livre viver até lá). Acredito que a tão conturbada fase dos vinte e poucos nos leva à um certo “desespero”. São muitas as inseguranças acerca do que está a nos esperar lá no futuro. Temos algo em comum: a ânsia por uma vida verdadeira, uma vida intensa, onde não estejamos aqui somente como vegetais esperando pela morte e fazendo algumas coisas inúteis até que ela não chegue. Temos um medo tremendo de entrar no tão temido “automatismo”, e virar gado como 99% da sociedade (Por favor, me apresente alguém que esteja nesse 1%). O fato de termos que seguir a multidão nos deixa depressivos pra caralho. Estudar, nos formar, arrumar um trampo pra poder comer, alugar um AP, beber aos finais de semana, ter uma profissão, conhecer alguém, namorar, casar, passar o domingo na casa do sogro, ter 2 filhos… Isso talvez seja o sonho de várias pessoas, mas não o nosso. Esse é problema das pessoas intensas. O mundo inteiro ainda nos é pouco para tantos sonhos e planos que temos em mente. Esse filho da puta sonha em sair do país no próximo ano, e tenho certeza que vai conseguir. Será a primeira pessoa de coragem que irei conhecer na vida. Largar tudo e sumir do mapa? Porra! Que sonho… Mas sou covarde e ao que tudo indica continuarei me fudendo por aqui. O mestre Antônio Abujamra sempre perguntava ao final de suas entrevistas à seus convidados: “O que é a vida?”. Dos mais pequenos degraus da sociedade até as mentes brilhantes de filósofos renomados: Ninguém deu uma resposta convincente. Sabem porque? Nunca teremos acesso à essa resposta. Mas essa ânsia de querer fazer valer a pena essa passagem por aqui, nunca irá terminar (tomara que não). Queremos viver. Queremos ter a honra de sermos chamados de loucos. Já parou pra pensar que nesta mesma noite, essa merda que reveste teus órgãos internos poderá estar sobre uma mesa gelada de um necrotério, com dois ou três filhos da puta te cortando de cima a baixo só pra saber de que forma foste para o inferno? Que tal fazer valer a pena? Ao Marquinhos desejo sorte, e que não se prenda a esses padrões inúteis impostos pela sociedade. A podridão humana nos é jogada na cara diariamente pela televisão e pela internet. E é contra tudo isso que queremos que daqui 100 anos, algum velho bêbado diga em meio à vômitos e soluços em um bar qualquer, que éramos fodas pra caralho e que nossas vidas valeram a pena.

a solidão e o automatismo

A expressão “sermos nós mesmos” sempre me deixou com um ponto de interrogação na cabeça. Ser eu mesmo? Acho que se fosse pra ser eu mesmo ou seria morto ou seria preso. Isso quando eu cansasse de dormir 15 horas por dia, beber nas outras 5 e dormir novamente nas outras 4. Porém a sociedade nos obriga a seguirmos algumas regras. Obriga a mim e a outras bilhões de pessoas no mundo a não serem elas mesmas. E isso acostuma. Nos tornamos enfim, gado, meros vegetais que esqueceram de viver e fingem entender alguma coisa. Qualquer pessoa que fuja destas regras impostas pela sociedade há milênios, são chamadas de loucas, quando na verdade são as únicas pessoas que de fato vivem. Saio por aí e vejo dezenas de pessoas por dia mas quase nenhum ser humano. Um automatismo proposital. As pessoas que vivem na correria acabam se conformando e sempre têm a velha desculpa: “A gente se acostuma”. A correria, o automatismo, nada mais é do que uma fuga da realidade. A realidade costuma mastigar e engolir lentamente os que não estão muito preparados para a vida. Há pessoas que não suportam a possibilidade de passar um dia inteiro sozinhas em casa. O medo maior é de si mesmas. De suas dúvidas, inseguranças e frustrações, que só aparecem quando estamos sozinhos com nós mesmos. Só aparecem quando olhamos para o espelho mais nítido que existe: o espelho da vida. É neste espelho que vemos o reflexo do quão pequeno somos, do quão inúteis são as coisas que insistimos em continuar fazendo. Arthur Schopenhauer já nos alertava sobre isso há mais de 150 anos: “(…) Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.”