Um coração ferido transforma-se numa maldição,
numa eterna corrente de sofrimento.
Quem foi ferido, acabará ferindo também,
criando uma barreira,
anestesiará seu peito por um longo período.
Mesmo sem intenção,
haverá total ausência de culpas e remorsos,
as chances de machucar alguém triplicam.
Então, deixo-te um conselho:
Jamais se aproxime de um coração ferido,
a não ser que seja para curá-lo.
Jamais entre em um coração morto,
a não ser que seja para devolver-lhe a vida.
o silêncio necessário
Ficávamos semanas sem trocarmos uma só palavra,
sem discussões, sem barracos,
apenas nos afastávamos.
Era um tempo necessário,
algo que precisávamos para prosseguir.
Mas a cada volta, a cada recomeço,
era como se voltássemos para casa,
como após uma longa viagem,
finalmente retornássemos ao aconchego de nosso lar.
Acho que de fato somos o lar um do outro.
Somos a moradia perfeita,
moramos um dentro do outro.
Mas como toda moradia,
às vezes fica bagunçada,
e precisa de uma faxina.
Mas o alicerce principal nunca se move,
e o nosso principal alicerce sempre foi o amor.
você me faz bem
Sei que não é tua intenção,
nem mesmo a distância, te fazer bem.
Não é proposital,
que tua participação na minha vida
seja algo tão essencial pra mim.
Tudo isso é automático,
é mágico,
simplesmente acontece.
Então resta-me apenas agradecer,
por você existir,
por estar no mesmo planeta que eu,
por nossos caminhos terem se cruzado
na mesma época,
na mesma existência física.
Não,
não é minha imaginação,
é o meu coração,
que te reconhece de outras vidas,
e que, de tanta saudade,
é grato pelas batidas do teu.
só mais uma noite
É noite de uma terça-feira fria.
Inútil como todas as terças-feiras.
Inútil como todos os outros dias da semana,
como todos os outros dias do mês, do ano, da vida.
Chego em casa e ele já me espera,
meu fiel companheiro: o silêncio.
Quebro-o com o barulho das chaves,
da geladeira e da cerveja se abrindo.
Coloco música clássica no celular,
e de fato, eu estava a invocar os espíritos boêmios,
que, se de passagem por aqui,
talvez me fizessem companhia.
Talvez Bukowski me entenderia,
ou algum espírito agonizante
que não via luz alguma,
assim como eu.
Se não fosse a doçura de Ana me mandando mensagens,
contando como foi sua aula de música,
talvez eu tivesse me jogado do prédio.
Mas não.
Ainda quero ver até onde posso chegar,
até onde consigo ir com essa minha desesperança.
Vou pegar outra cerveja,
afinal, amanhã é quarta.
É só mais um dia.
angústia
Porque sozinha em teu silêncio,
sei que as lágrimas podem escorrer,
ao lembrar de nossos momentos,
do nosso pequeno mundo,
que criamos só para nós.
E esse foi o problema.
“Criamos” tudo.
Nada existiu de verdade.
Mas sei que teu perfume continua sendo o meu,
sei que, de alguma forma,
eu continuo vivo aí dentro de ti.
Embora esteja morto,
morto para mim,
morto em mim,
vivo em ti.
Algo morreu em mim
Que belo estrago tu fizeste, hein?
Jamais poderia imaginar isso.
Que, ao mesmo tempo em que te amava,
estava sepultando algo dentro de mim.
Aquilo que de mais puro havia aqui:
a leveza, a paz, e principalmente a esperança.
Tua crueldade marcou pra sempre minha vida.
Depois do furacão que recebeu teu nome,
tentei em vão outras aventuras,
rastejando por cima de camas,
sentindo o gosto de outras bocas,
o calor de outros abraços,
e a ternura de olhares puros.
Tentei, tentei, e tentei,
fracassei.
Nunca fui homem de uma só noite,
sempre tive sede de histórias duradouras.
Tentei iniciar algumas,
mas algo está me bloqueando.
Algo morreu dentro de mim,
e você é a principal suspeita do crime.
Como explicar que nada mais existe aqui dentro?
Como vou explicar a mim mesmo
que não sou mais capaz de amar?
Estou me tornando um covarde.
Estou me tornando igual a você,
justamente aquilo que eu mais condenava.
Permitindo que alguém se aproxime de mim,
mesmo sabendo o triste fim de cada mini-história.
Mesmo sabendo que não haverá correspondência alguma.
Acho que aprendi como surgem as pessoas frias.
De hoje em diante, irei respeitar os corações de pedra.
Pessoas frias não têm passados fáceis.
Ninguém se torna frio por querer.
Ninguém destrói sua sensibilidade de uma hora pra outra.
É uma junção de pequenos, terríveis e cruéis acontecimentos.
Não sei como será daqui pra frente.
Talvez eu me torne um velho rabugento,
no corpo de um cara de 24 anos,
ou um alcoólatra que não suporta a possibilidade de estar sóbrio.
Um inútil covarde que buscará nas mulheres apenas prazer,
nunca mais a essência do amor.
Nunca acreditei em ressurreição,
mas, se existisse, queria que renascesse em mim o que mataste.
Queria reencontrar a minha verdadeira essência,
que está sepultada em alguma vala comum,
em algum cemitério de sentimentos.
Mas finalmente aprendi.
Aprendi como se petrificam os corações.
Por falar nisso, por favor,
poderia devolver o meu?
feliz?
Ninguém é feliz vinte e quatro horas por dia.
É impossível.
A felicidade só pode ser sentida por alguns instantes,
raros e preciosos instantes.
A felicidade plena nunca existiu.
Existem fugas, enganos, ilusões,
comodismo e o “tanto faz”.
Quanto mais sensível, mais difícil é encontrá-la.
O mundo e as pessoas nos sufocam diariamente,
a humanidade nos rouba a esperança.
Tenho pena daqueles que, como eu,
sentem tudo à flor da pele.
Ninguém é feliz o tempo todo,
a não ser o idiota.
Na verdade, eu queria ser idiota.
Feliz é o ignorante,
que nada enxerga,
nada além do que está diante de seus olhos.
O meu problema é enxergar demais,
e sentir cada detalhe do que vejo,
como uma faca a dilacerar meu peito.
Na verdade,
eu sinto muito.
ela é má
Ela é cruel.
Sabe o poder que carrega nos olhos —
essa mistura de ternura e veneno,
capaz de acender paixões e silenciar guerras.
Move-se com a leveza do vento,
mas por onde passa,
deixa corações em ruínas,
como cidades após o fogo.
Não promete nada,
e mesmo assim todos acreditam.
Sabe seduzir com o silêncio,
fingir inocência no meio da tempestade,
e sorrir enquanto o mundo desaba a seus pés.
Encanta, domina, despedaça —
tudo em um mesmo gesto.
Não precisa gritar,
seu perfume já faz o estrago.
Ver alguém se arrastar por ela
é o espetáculo que mais aprecia.
Não por maldade —
mas por vaidade,
essa vaidade disfarçada de fragilidade.
Pobre mulher…
refém de si mesma,
presa à armadilha do próprio reflexo,
confundindo poder com amor,
e conquista com abrigo.
Ela é má.
E sabe disso.
Mas ignora o abismo que deixa para trás,
as almas que vagueiam perdidas,
as promessas que o vento leva —
sempre depois que ela parte.
Talvez agora eu compreenda
por que os furacões têm nomes femininos:
porque há mulheres que passam pela vida
como a força da natureza —
belas, indomáveis,
e absolutamente devastadoras.
o verdadeiro fim
Fazíamos sempre um escândalo nas brigas.
“ADEUS”, “te desejo felicidade”, “siga o teu caminho”…
Mas logo arrumávamos qualquer desculpa,
e lá íamos nós, tudo voltando à estaca zero.
Quando era assim, ainda havia algo ali.
Pequenos fragmentos de sentimentos que, mesmo quebrados,
faziam toda a diferença.
O verdadeiro “fim” não acontece dessa forma.
O verdadeiro término é lento.
Vamos perdendo o interesse,
sepultando os gestos, os olhares,
as lembranças… e, acima de tudo, os sentimentos.
O final mais triste e definitivo
é aquele sem barraco, sem palavras excessivas.
É o que vai acontecendo aos poucos,
quando os sentimentos são enterrados pela poeira do cotidiano.
Assim são os verdadeiros fins.
E, quando finalmente nos damos conta,
mais nada existe.
por onde andam as pessoas?
Às vezes, sinto uma vontade imensa
de chegar em qualquer lugar,
seja vazio ou repleto de gente,
e gritar:
“Caralho! Será que tem algum ser humano
de verdade nesse mundo?”
Mas sei que não haverá resposta alguma,
nem do silêncio do vazio,
nem da barulheira da multidão.