Olho com atenção para os meus semelhantes todos os dias. Reflito, observo cada gesto, cada movimento, cada palavra solta ao acaso. São justamente nas pequenas atitudes que faço um raio-X momentâneo da alma de quem cruza meu caminho. Não é ciência, tampouco filosofia — é uma espécie de defesa instintiva, um preconceito que carrego comigo como um escudo.
E a conclusão, invariavelmente, é sempre a mesma: todo mundo acredita ser eterno. Claro que ninguém acordaria disposto a enfrentar o dia se a primeira imagem da manhã fosse o próprio corpo estendido dentro de um caixão. Para que possamos viver em sociedade e representar com algum talento a farsa de sermos “pessoas normais”, precisamos construir ilusões diárias — e, mais do que construí-las, precisamos alimentá-las religiosamente.
Mas quando, por descuido, um lapso de lucidez nos atravessa como um raio, revelando a verdade nua e crua, corremos apavorados para as nossas zonas de conforto. Família, dinheiro, trabalho, religião. São muletas cuidadosamente erguidas, ainda que inconscientes, para não nos rendermos à tentação de apressar o fim com um tiro, uma garrafa ou um punhado de comprimidos.
Eu, por exemplo, nunca consegui me encaixar plenamente nesse teatro. Claro, também tenho minhas ilusões, mas se pudesse atender fielmente aos meus pensamentos mais íntimos — aqueles que vêm direto do porão da alma — mandaria tudo ao inferno sem pestanejar.
Tenho casa, carro, e gasto cada centavo que ganho. Não possuo reserva alguma, só um cofre de dívidas e a sensação de estar sempre à mercê de um país que é um assalto a céu aberto. O Estado brasileiro é a prova viva de que, além de nascer mortal e consciente disso, ainda tivemos o azar de nascer aqui. É o pacote de tragédias completo.
No fim, claro, todos encontramos nossas válvulas de escape. Eu também tenho as minhas fugas, ilusões e pequenas distrações. Mas a melancolia é persistente e sempre me puxa de volta para o chão. Como disse um poeta: “Felicidade? Somente em raros momentos de distração”. Deixo meu pensamento voar, mas ele sabe que, mais cedo ou mais tarde, terá que voltar para a gaiola. Rio das banalidades do cotidiano, mas no silêncio sempre me visita aquele aperto de realidade como um balde de água absurdamente gelado.
Se ao ler estas linhas você pensou: “Ele se acha melhor que todo mundo”, então não entendeu absolutamente nada do que eu quis dizer. A mensagem é justamente o contrário: não sou nada. E você também não. Daqui a algumas décadas — oitenta anos, talvez menos — este corpo que hoje enfeitamos com cremes caros, tinturas, barbas feitas na gilete ou sobrancelhas desenhadas, não passará de pó misturado à terra, carne apodrecida e ossos frágeis ao lado de pregos enferrujados. Todo o cuidado, toda a vaidade, todo o esforço em parecer algo… se dissolve na mesma lama que engole ricos, pobres, gênios e imbecis.
Os que se acham demais, que caminham olhando os outros de cima para baixo, só despertam em mim dois sentimentos: pena e desprezo. O teatro de ilusões deles é tão elaborado que supera de longe o meu. Tornaram-se atores de si mesmos, intérpretes convictos de uma farsa que acreditam ser realidade. Vivem tão mergulhados no papel que confundem máscara com rosto, ensaio com vida.
E, no fim das contas, só resta reconhecer: Rita Lee não errou uma vírgula. Da lista seleta da Forbes à relação vexatória de devedores da Prefeitura, do magnata que nada em champanhe ao mendigo que se afoga na sarjeta, do papa ao pecador — todos acabam iguais, reduzidos à mesma matéria orgânica. Tudo, inevitavelmente, vira bosta.
