Quem navegar pelas publicações deste blog encontrará o artigo “A Maior Dor do Mundo”, onde compartilho a história do repentino falecimento de minha mãe, Dona Neli, aos 57 anos, e minha jornada com a morte e a espiritualidade. Considerava aquele golpe o mais duro que a vida poderia me dar, mas o destino mostrou-se ainda mais implacável. Nesse artigo, relato também a perda de meu pai, Seu Ivo Rigon, aos 61 anos, nove meses após o falecimento de minha mãe, e como minha maturidade espiritual e minha visão da vida e da morte me ajudaram a atravessar esse período.

Meu pai sempre foi um trabalhador incansável. Sua infância e adolescência difíceis no campo moldaram sua força para os quase 30 anos seguintes trabalhando em uma madeireira. Sua determinação era impressionante. Acordava religiosamente às 5h30, fumava cerca de cinco cigarros até às 6h50, quando saía para o trabalho. Voltava por volta do meio-dia, tirava uma soneca e repetia o ritual à tarde. Às 18h, saía do trabalho para sua rotina noturna, que sempre incluía uma parada no Bar da Alemoa, onde tomava dois ou três sambas (coca-cola com cachaça). Essa foi sua rotina por décadas.

No início de 2021, sua saúde começou a declinar gradualmente. Ele reclamava de fraqueza nas pernas e não conseguia mais ir ao trabalho a pé. Em maio do mesmo ano, um golpe profundo afetou a todos nós: a morte de minha mãe. Apesar de separados, eles sempre mantiveram um vínculo emocional forte até o último momento. O casamento deles nunca foi fácil, com brigas constantes e uma convivência difícil. Cresci vendo discussões acaloradas, mas também momentos de amor.
Após a morte de minha mãe, a saúde de meu pai piorou. Ele parou de trabalhar, o que só contribuiu para seu declínio. A fraqueza nas pernas se intensificou nos meses seguintes, e em fevereiro de 2022, sua condição se agravou. Seus pulmões deram sinais de problemas, mas descobrimos que tudo começou com uma trombose nas pernas que levou ao entupimento de artérias importantes do coração.

Uma semana antes de partir, ele estava com dificuldades para respirar e caminhar por longos períodos. No último domingo que estive com ele, pediu que eu fosse comprar cigarros e uma garrafa de cachaça na vila. Brinquei com ele, dizendo: “Quer cigarros e o caixão também?”, devido aos seus problemas pulmonares. Ele riu. Comprei a cachaça, pois não encontrei os cigarros. Ele pediu que eu o levasse ao hospital na segunda-feira se não melhorasse durante a noite. Infelizmente, foi o que aconteceu.
O levei para o hospital, onde ficou internado recebendo oxigênio e passando por uma série de exames. Na quarta-feira, seu estado de saúde piorou. Ele recebeu uma sonda e outros equipamentos para monitorar seus batimentos cardíacos. Meu pai nunca tinha ficado internado antes, então vê-lo cheio de aparelhos foi assustador. Ele estava lúcido, mas com medo. Naquela altura, ele parecia prever o que estava por vir, falando sobre a morte e dando instruções caso não sobrevivesse. Eu e meu irmão, Diogo, nos revezávamos para cuidar dele. Estávamos otimistas até quarta-feira, quando sua condição se agravou. Lembro-me vividamente dele tentando tomar banho naquele dia, poucas horas antes de piorar. Olhava para ele e refletia sobre como a vida é imprevisível, lembrando-me da força que ele tinha e do sofrimento que estava enfrentando.
Passei a última noite ao seu lado. Cada momento daquela madrugada de 19 de fevereiro foi doloroso. No silêncio do hospital em Tuparendi, os apitos dos equipamentos contrastavam com o ambiente calmo. Ele quase não dormiu, mas estava relativamente bem, exceto pela falta de ar ao caminhar. Devo ter dormido por cerca de 10 minutos naquela noite. Sentado no sofá, refletia sobre a vida e pedia a Deus que o libertasse daquele sofrimento. O momento mais marcante foi quando as enfermeiras trocaram um equipamento e vi lágrimas em seus olhos, silenciosas, como um pedido a Deus para acabar com seu sofrimento. E Deus atendeu ao nosso pedido. Talvez não da forma como gostaríamos, mas o sofrimento dele terminou naquela manhã.
O dia amanheceu silencioso e frio. Eu estava prestes a sair para trabalhar na rádio, e meu irmão ficaria no meu lugar. Estava me despedindo quando ele pediu para eu esperar enquanto ele ia ao banheiro. Ajudei-o a se levantar e esperei pacientemente. Na volta para a cama, ele caminhava lentamente, seu olhar fixo no canto do quarto. “Chame as enfermeiras, estou me sentindo mal”, foram suas últimas palavras quase sussurradas. Chamei as enfermeiras e, ao voltar, testemunhei seus últimos momentos. Fiquei chocado do lado de fora, mas já esperava o pior. Tentaram reanimá-lo por alguns minutos, mas foi em vão. Logo depois, meu irmão chegou.
Eu e meu irmão não podíamos acreditar que, nove meses depois, estávamos passando pela mesma situação novamente. Nesses nove meses, me aproximei muito do meu pai. Inconscientemente, talvez o sofrimento nos uniu. Perder esse último elo com a minha infância, com a minha história, foi extremamente doloroso. Ao vê-lo na maca, sem vida, sussurrei em seu ouvido as mesmas palavras que disse para minha mãe nove meses antes: “Descanse em paz, o sofrimento acabou. Você irá para um lugar melhor, sem dor, sem sofrimento. Não se preocupe, nós vamos ficar bem.”

A perda de meus pais foi, sem dúvida, a maior tragédia que já enfrentei. Ambos jovens, sem doenças, sem aviso prévio, sem preparo. Se não fosse pela convicção de que a morte é apenas uma passagem, e não o fim, teria sido ainda mais difícil. Eles deixaram um legado de histórias e memórias preciosas, além de filhos e netos de caráter exemplar. Aprendi muito com esses golpes que a vida me deu, e levarei esses ensinamentos comigo para sempre. Além do sangue deles, levarei meus pais dentro de mim onde quer que eu vá, guiando-me e dando-me força. E, acima de tudo, aprendi que qualquer dor que eu enfrente a partir de agora será sentida de forma diferente, com base nas lições e aprendizados, e não apenas na dor em si. Seguir em frente foi difícil, mas não havia outra opção.
Para concluir, deixo minha mensagem de fé, comprometendo-me a viver plenamente, em honra àquilo que meus pais não puderam desfrutar por muito tempo: a vida.



