A Cerveja e Eu

A cerveja, em muitos momentos,
foi o motivo do meu riso.
O primeiro gole me faz voltar pra casa,
não pra um lugar —
mas pra mim.

Não bebo pra cair,
bebo pra me levantar das máscaras
que uso por obrigação,
pra suportar os egos inflados
que desfilam diariamente diante de mim.

Entre um trago e outro,
reorganizo o caos,
ponho as ideias em fila,
como quem tenta escrever um texto
sem saber por onde começar.

Quantas vezes, confesso,
foi ela quem guiou minha escrita,
quem deu coragem às palavras presas
no gargalo da alma.

Se estou a um passo de ser alcoólatra?
Talvez.
Mas também estou a um passo de ser eu mesmo.
Só preciso de um empurrãozinho —
amarelo, gelado,
com um pouco de espuma
e muito silêncio dentro.

Pós-escrito de mim mesmo

Quando eu não mais estiver aqui.
Não me venham com hipocrisias.
Estive a anos-luz de distância de ser um santo.
Fiz coisas das quais me envergonho profundamente —
comigo mesmo,
e com as pessoas que mais amei nesta existência.

Não falem de mim com carinho e gratidão.
Passei por aqui no automático,
errando, tentando, sobrevivendo.
E se fui gentil com alguém,
foi apenas um lampejo de humanidade
no meio do caos que sempre me habitou.

Não há como dispensar as flores,
mesmo que eu já não as veja.
Gosto muito delas
E nunca as ganhei em vida —
então, deixem-nas por mim.

Mas, por favor,
sem discursos em voz embargada.
Quero apenas o silêncio
de quem compreende que eu também lutei —
mesmo sem saber contra o quê.

Manual Prático de Sobrevivência no Lago das Fezes

Tenho um amigo chamado Joãozinho. Quase um irmão. Parecido comigo na sensibilidade à flor da pele e nessa maldição de enxergar o que os outros preferem ignorar. Por isso, é uma das raras pessoas que me entende sem precisar apertar a tecla SAP da alma.

Essa semana, num daqueles diálogos virtuais que começam banais e terminam existenciais, ele me confidenciou algo bonito: ainda tem esperança de que sua vida melhore. Num primeiro instante, respeitei. Admirei até. Que virtude nobre — essa capacidade de acreditar no amanhã. Pena que não nasceu comigo.

Mas meu silêncio durou o tempo de um mate cevado às pressas. Tive que, insensivelmente, jogar-lhe um balde de realidade — sem gelo, mas bem amarga.

Disse a ele que não carrego a mínima esperança de que minha vida vá melhorar. O que posso — e devo — trabalhar, com disciplina quase monástica, é a forma como a encaro. Essa, sim, precisa ser moldada, lixada, repintada a cada dia. Porque a vida em si é um projeto condenado de fábrica, mas a percepção pode ser customizada.

Claro, há exceções: uma herança perdida, uma mega-sena da virada, um golpe de sorte que descarrile o trem do destino. Mas como até jogando bolinha de papel no lixo eu erro o alvo, prefiro não gastar o pouco otimismo que me resta em apostas.

O que tentei dizer ao Joãozinho é que a vida é um longo e fedorento lago de fezes — com alguns animais mortos boiando de brinde — pelo qual todos temos de atravessar. Não há atalhos, não há botes, e o fedor é parte do pacote. O truque está em escolher a fuga correta: uma máscara contra odores, um pouco de Vick Vaporub nas narinas, respirar somente pela boca ou até mesmo a serenidade de quem sabe que o mau cheiro é universal.

A merda sempre estará lá.
Mas há quem afunde, e há quem atravesse com elegância — cuidando apenas para não abrir a boca no meio do caminho.

Moral — se é que há alguma: não espere que o lago deixe de feder. Aprenda só a respirar menos fundo.

O Veneno dos Afetos

Não tenha medo de seus inimigos.
Eles cumprem seu papel com excelência.
Tenha medo de seus amores —
dos tapas calorosos nas costas,
das mãos oportunamente estendidas.

As coisas mais absurdas, cruéis e doloridas
que já chegaram ao meu ouvido
não foram pronunciadas por inimigos.

Foram ditas por bocas que já me sorriram,
por olhos que juraram ternura,
por abraços que me prometeram abrigo.

São eles — os que te chamam de amigo —
que afinam a lâmina antes do beijo,
que te servem o vinho e esperam o tropeço.
O ódio é honesto.
A falsidade, disfarce de afeto.

E é por isso que hoje caminho só,
com a paz dos que já entenderam:
o perigo mora no abraço.
E o veneno… vem adoçado com amor.

Reflexãozinha dominical

Sinto, desde sempre, que minha caminhada por aqui será breve — embora eu não saiba o que significa “breve” num mundo onde cem anos ainda cabem dentro de um suspiro. É como se eu estivesse vivendo com uma lâmina encostada na pele: cada gesto, cada olhar, cada som entra fundo demais, como uma agulha afiada atravessando a carne. Talvez seja por isso que tento sorver tudo: degustar o tempo, os corpos, as emoções, como se cada instante fosse um gole raro e caro. Mas eis o paradoxo: o que é “pouco” para um ser humano? Morrer aos 31 ou aos 91? Até cem anos me parece ridiculamente insuficiente para explorar esse circo grotesco que chamam de mundo.

Os prazeres são tantos — carnais, emocionais, espirituais — e ainda assim parecem amostras grátis de um banquete infinito ao qual nunca teremos acesso completo. A “espiritualidade genuína”, se é que existe, deve rir de nós como uma velha empregada que observa o patrão tropeçar no tapete. Quero provar tudo antes de me tornar um corpo frio costurado por um legista mal-pago.

No fundo, pouco me importa o que vem depois. Provavelmente voltarei ao mesmo lugar onde estava em 1920 ou na época de Cristo — sabe onde? Pois é, nem eu. Mas o mundo girava, sem mim. As coisas aconteciam. Mesmo sem minha percepção de existência. Gira agora, com essa minha presença descartável. E vai continuar girando quando eu deixar de existir, com a mesma elegância desinteressada de um ventilador quebrado.

Talvez, depois, eu volte para esse lugar neutro, sem dor, sem lembrança, sem essa palhaçada chamada consciência. Um anonimato cósmico tão absoluto que nem sequer será “meu”. Quem sabe até eu já esteja lá agora, sonhando este sonho que vocês chamam de vida.

Mas enfim, é domingo. Reflexãozinha leve para abrir o apetite. Não deem bola. A vida é curta — ou longa demais. Difícil saber.

Poema sem título

Apelidaram de orgasmo o ápice de um corpo em êxtase,
Mas ainda não há nome para o que sinto contigo.
Porque “prazer” se alcança até sozinho,
E é muito pouco para definir.

É mais que pele,
É mais que carne.
É uma explosão que a boca não sabe pronunciar.
Até tenta,
Mas sempre resulta em gemidos indecifráveis.

Quando entrelaço meu corpo no teu,
Não é só sexo,
Não é só amor,
É a fusão dos dois —
O ápice de um e de outro.
Mas ainda falta o verbo
Que defina o delírio de nós dois.

O olhar que grita, a alma que responde,
O suor que se mistura, o corpo que já não sabe
Onde começa um e onde termina o outro.
É fome e sede,
É o gosto do instante,
Do agora,
Do impossível de se nomear.

Mas a pele, ah, a pele…
Com o toque que fere e salva,
Com o cheiro que se entranha
Como se o meu corpo fosse feito
Só para o teu.

É a união do corpo e da alma,
O vazio e o preenchimento,
A busca e o encontro.

Ainda não deram nome
Ao nosso amor insano,
Ao delírio que desafia a língua.
Mas, se um dia esse nome existir,
Que ele seja uma homenagem a ti —
Que te celebre em pelo menos duas sílabas,
E que seja cantado,
Gravado no coração da língua portuguesa.
E de língua entendemos bem não é mesmo?

Deem um nome a essa loucura, por favor!
Para que se eternize,
Não só em mim,
Mas em todo aquele
Que um dia ousou
Gozar e amar ao mesmo tempo.

Mantimentos

Vomitar palavras
até que se tornem algo —
um artesanato de sentidos
à beira da loucura ou da demência.

Há tanto a dizer
em infinitas combinações possíveis.
Imagine
enfileirar letras capazes de destruir
ou reconstruir alguém,
como quem maneja delicadamente um bisturi ou um pincel.

Afinal, o que importa mais?
O emissor ou o receptor?
Um poema de Machado,
Pessoa ou Clarice,
lido por alguém sem sensibilidade
é como lançar uma semente em chão árido:
não brota, não floresce,
mas guarda potencial em silêncio.

Enfim, continuo amando as palavras
mais do que tudo.
Elas me aliviam do peso da vida
e da sombra da morte.

E quando sou receptor,
leio poemas como quem se alimenta
e guarda mantimentos numa dispensa
para o resto da vida —
provisões de eternidade
para dias de fome interior.

Altar do Teu Céu

Teu cheiro me chama,
Sussurra-me por caminhos que não sei nomear,
Mas sei que me conduzem a algum lugar
Onde as palavras se perdem,
E onde os sentidos encontram abrigo.

Onde mora teu silêncio,
Lá, meu coração se inclina,
Porque é no vácuo das palavras
Que o mundo se revela em olhares,
Em gestos que falam mais que qualquer verso.

Teu cheiro me arrasta
Para algum lugar que não sei definir,
Talvez seja o que ousaram chamar de céu,
Mas já provei uma fresta dele no brilho do teu olhar,
Um aperitivo do infinito que me espera.

Sim, teu olhar é uma janela aberta para o eterno,
Um portal que me leva ao céu,
Ao paraíso —
Não pelo que rezam os homens,
Mas pelo altar que é teu corpo,
Onde me ajoelho e suplico
Para que a porta do teu céu
Nunca se feche diante de mim.

E se há melancolia na vida,
Que ela seja apenas sombra diante do teu clarão,
Porque amar-te é mergulhar no absoluto,
É arder no fogo que teu ser acende em mim,
É perder-se e, ao mesmo tempo, encontrar o infinito
Em cada curva tua,
Em cada respiro que rouba meu silêncio.

Teu cheiro me chama…
E eu sigo, cego e devoto,
Por caminhos que só teu amor ilumina,
Até que eu me perca de vez
No altar do céu que mora em ti.

A Hipocrisia da Hierarquia: O Homem e Seus Míseros Reflexos

Imagina, então, um homem envelhecido. Não importa a idade exata, mas ele beira os 80, e seu corpo arrastado pela vida reflete cada uma das escolhas que fez. Um boné amarelo e esfumaçado, a pele marcada pelos anos de sol e desleixo, um cheiro que denuncia o descaso — álcool misturado com a falta de banho, ou talvez com a falta de tudo, inclusive de consideração. Ele anda devagar, como se o peso da existência estivesse, por fim, dando-lhe algum tipo de vingança. Mãos calejadas, encardidas pelo contato com a madeira da madeireira onde passou a maior parte da vida, embriagadas pela mesma bebida que lhe dá conforto, mas o afasta da realidade. E, quem sabe, da humanidade.

Agora, você está na praça central da cidade. É domingo, a tarde quente, e o velho se arrasta por ali, sem direção, sem companhia, talvez sem esperança. Como você o trataria? Qual seria o seu olhar? O que diria a ele? Ou melhor, o que você pensaria enquanto o vê passar? Ele é invisível, não é? Não pela sua idade, mas pela condição em que se encontra. Qualquer vestígio de respeito que poderia receber evaporou há muito tempo. E o que se faz com quem não tem mais nada para oferecer? O que se faz com quem já não é mais um “alguém”, mas sim apenas um “qualquer um”?

Agora, imagine o mesmo homem. O mesmo boné, o mesmo odor, a mesma expressão que denuncia um sofrimento vivido, mas há algo diferente. Seu passado é outro. Ele fez história. Fez fortuna. Agora é o empresário aposentado, o político influente, o dono de uma vasta rede de imóveis na cidade. Ele era uma figura sempre presente nas reuniões de Rotary e Lions, na primeira fileira das grandes cerimônias. Todos os olhos estavam sobre ele, e todos o respeitavam — ou fingiam que o respeitavam. A conta bancária dele, com mais zeros do que um ser humano deveria ser capaz de contar, talvez fosse maior que o PIB de uma cidade pequena. Mas, ainda assim, seu comportamento é o mesmo: desleixado, imune às regras da civilidade, e, talvez, de uma humanidade mais profunda.

Agora me diga: seria o tratamento que você daria a ele o mesmo que você daria ao primeiro velhinho? Ou, no fundo, seu olhar seria diferente? Você falaria com ele de maneira igual? O tom de voz não mudaria? O sorriso no rosto não seria mais largo, mais falso, mais preocupado com a impressão que você deixa do que com a realidade do homem em si? Se sim, você, sem dúvida, é uma exceção. Uma raridade. Ou talvez uma ilusão de virtude que se desfaz ao encarar a profundidade da sua hipocrisia.

Porque no final das contas, a verdadeira medida de um ser humano não está em como ele trata quem pode lhe dar algo. Não está em como ele trata os seus pares, seus amigos, ou até mesmo seus filhos. A verdadeira medida de um ser humano está em como ele trata o porteiro, o garçom, o mendigo na esquina. Está em como ele conversa com quem não pode lhe oferecer nada, além de um sorriso, um gesto de respeito, ou um simples olhar de dignidade.

É fácil ser educado com quem pode fazer você subir na vida. Difícil é manter a compostura quando se trata de quem não tem nada a oferecer. E, quando queremos realmente conhecer alguém, a melhor maneira de o fazer é observar como ele trata os invisíveis — aqueles que estão à margem, aqueles que não importam, ou melhor, aqueles de quem ele não pode esperar nada. E é nesse ponto que se revela o verdadeiro caráter, o verdadeiro interesse.

Se você, ao ler isso, se sente desconfortável, talvez esteja mais perto da verdade do que imagina. Porque, como bem disse Friedrich Nietzsche: “Se você mata uma barata, você é um herói. Se você mata uma borboleta, você é mau. A moralidade tem critérios estéticos”. E, meu caro, não há mais nada estético na sociedade do que as hierarquias.

O incômodo da alegria alheia

Nunca foi meu objetivo parecer agradável, santo ou o bom samaritano. Se ao leres este texto achares que sou um poço de arrogância e prepotência, estás perigosamente próximo da verdade. Escrever sobre meus prós seria infinitamente mais confortável — um desfile de virtudes, benevolências e feitos dignos de palmas. Mas sempre preferi habitar meu lado obscuro, aquele subterrâneo onde deposito a podridão que carrego e que quase ninguém vê.

Hoje, por exemplo, resolvi confessar o incômodo que me causa a felicidade alheia. Sim, soa infantil, coisa de criança invejosa porque o coleguinha tem um doce e eu não. O sentimento é o mesmo — só que mais sofisticado, mais cínico, menos inocente. Nunca invejei nada de concreto: nem dinheiro, nem bens, nem amores alheios. Sempre achei que a felicidade nasce de dentro pra fora. Já vi milionários se suicidarem em apartamentos de luxo e mendigos cantarolarem desafinados debaixo de pontes. A equação nunca fecha.

Mas o excesso de felicidade… ah, isso sim me corrói. Talvez seja inveja, confesso — não da felicidade em si, mas da capacidade que alguns têm de ignorar deliberadamente a podridão do mundo. A ignorância, já dizia um poeta, é de fato uma dádiva. Quanto mais barulhenta a felicidade de alguém, quanto mais histérica sua capacidade de externar contentamento, menor costuma ser sua intimidade com a realidade. Essa frase é clichê, decorada, batida — todo ser alfabetizado já ouviu. Mas o detalhe que se perde é outro: a arte que alguns dominam de vestir personagens para anestesiar a própria consciência. Uma fuga teatral daquilo que realmente são.

Eu, ao contrário, não consigo. Tudo o que li, vivi, constatei, meditei e filosofei me impede de sustentar momentos de felicidade por mais de três minutos. A realidade está sempre à espreita, como uma arma engatilhada na nuca, pronta para disparar no instante em que ouso relaxar.

E então, ao ver os outros rirem alto, comemorarem efusivamente, publicarem suas doses diárias de euforia, o incômodo me atravessa. Não por desejar o que eles têm — mas por invejar a estupenda capacidade que possuem de acreditar nos próprios papéis. De encarnar caricaturas cuidadosamente montadas para fugirem de si mesmos. De serem felizes, mesmo que de mentira.

Talvez, no fundo, o problema não seja a felicidade deles. Talvez seja apenas eu, lúcido demais para me permitir ser feliz.