Imagina, então, um homem envelhecido. Não importa a idade exata, mas ele beira os 80, e seu corpo arrastado pela vida reflete cada uma das escolhas que fez. Um boné amarelo e esfumaçado, a pele marcada pelos anos de sol e desleixo, um cheiro que denuncia o descaso — álcool misturado com a falta de banho, ou talvez com a falta de tudo, inclusive de consideração. Ele anda devagar, como se o peso da existência estivesse, por fim, dando-lhe algum tipo de vingança. Mãos calejadas, encardidas pelo contato com a madeira da madeireira onde passou a maior parte da vida, embriagadas pela mesma bebida que lhe dá conforto, mas o afasta da realidade. E, quem sabe, da humanidade.
Agora, você está na praça central da cidade. É domingo, a tarde quente, e o velho se arrasta por ali, sem direção, sem companhia, talvez sem esperança. Como você o trataria? Qual seria o seu olhar? O que diria a ele? Ou melhor, o que você pensaria enquanto o vê passar? Ele é invisível, não é? Não pela sua idade, mas pela condição em que se encontra. Qualquer vestígio de respeito que poderia receber evaporou há muito tempo. E o que se faz com quem não tem mais nada para oferecer? O que se faz com quem já não é mais um “alguém”, mas sim apenas um “qualquer um”?
Agora, imagine o mesmo homem. O mesmo boné, o mesmo odor, a mesma expressão que denuncia um sofrimento vivido, mas há algo diferente. Seu passado é outro. Ele fez história. Fez fortuna. Agora é o empresário aposentado, o político influente, o dono de uma vasta rede de imóveis na cidade. Ele era uma figura sempre presente nas reuniões de Rotary e Lions, na primeira fileira das grandes cerimônias. Todos os olhos estavam sobre ele, e todos o respeitavam — ou fingiam que o respeitavam. A conta bancária dele, com mais zeros do que um ser humano deveria ser capaz de contar, talvez fosse maior que o PIB de uma cidade pequena. Mas, ainda assim, seu comportamento é o mesmo: desleixado, imune às regras da civilidade, e, talvez, de uma humanidade mais profunda.
Agora me diga: seria o tratamento que você daria a ele o mesmo que você daria ao primeiro velhinho? Ou, no fundo, seu olhar seria diferente? Você falaria com ele de maneira igual? O tom de voz não mudaria? O sorriso no rosto não seria mais largo, mais falso, mais preocupado com a impressão que você deixa do que com a realidade do homem em si? Se sim, você, sem dúvida, é uma exceção. Uma raridade. Ou talvez uma ilusão de virtude que se desfaz ao encarar a profundidade da sua hipocrisia.
Porque no final das contas, a verdadeira medida de um ser humano não está em como ele trata quem pode lhe dar algo. Não está em como ele trata os seus pares, seus amigos, ou até mesmo seus filhos. A verdadeira medida de um ser humano está em como ele trata o porteiro, o garçom, o mendigo na esquina. Está em como ele conversa com quem não pode lhe oferecer nada, além de um sorriso, um gesto de respeito, ou um simples olhar de dignidade.
É fácil ser educado com quem pode fazer você subir na vida. Difícil é manter a compostura quando se trata de quem não tem nada a oferecer. E, quando queremos realmente conhecer alguém, a melhor maneira de o fazer é observar como ele trata os invisíveis — aqueles que estão à margem, aqueles que não importam, ou melhor, aqueles de quem ele não pode esperar nada. E é nesse ponto que se revela o verdadeiro caráter, o verdadeiro interesse.
Se você, ao ler isso, se sente desconfortável, talvez esteja mais perto da verdade do que imagina. Porque, como bem disse Friedrich Nietzsche: “Se você mata uma barata, você é um herói. Se você mata uma borboleta, você é mau. A moralidade tem critérios estéticos”. E, meu caro, não há mais nada estético na sociedade do que as hierarquias.