Geralmente, quando alguém solta a frase “você nunca teve infância”, a intenção é ferir ou desmerecer o sujeito. Pra mim, soa quase como um elogio. Não que eu tenha me tornado um adulto infantilizado que coleciona carrinhos da Hot Wheels com 31 anos nas costas, nem aquele palhaço sem graça que se acha “engraçadão” por fazer piadas sobre tudo. Nada disso. Na verdade, o velho rabugento que hoje habita meu ser já morava em mim quando meu saco nem imaginava que um dia teria pelos.
A infância, aquela vendida nos comerciais de brinquedos com música alegre de fundo, iogurtes coloridos e crianças loiras pulando em câmera lenta, nunca foi minha. O que eu vi quando abri os olhos pro mundo foi bem diferente: brigas, silêncio pesado, portas batendo, a depressão crua da minha mãe e o cheiro de álcool e cigarro impregnado no hálito do meu pai. A trilha sonora era o som de copos quebrando e não risadas infantis.
Das poucas lembranças que consigo resgatar — borradas, como fotos reveladas com pressa — está eu, com um ônibus de brinquedo, sentado num banco velho. Ou empurrando a bicicleta porque ainda não sabia andar nela. Eu fingia que era um carro, dirigindo na estrada de terra. Era o que dava pra ter de “imaginação” ali. Chaves e Chapolin eram meu refúgio nas tardes da TV brasileira. Ou até mesmo as novelas do “Vale a pena ver de novo”.
Meus colegas faziam fila na porta da minha casa querendo brincar comigo. Eu sempre inventava uma desculpa, fingia dor de barriga, dizia que ia sair. Qualquer coisa pra evitar aquele teatrinho infantil. Nunca me atraiu. Eu achava uma perda de tempo. Enquanto eles brincavam de pique-esconde, eu escondia minha vontade de não estar ali.
Nunca fui diagnosticado com nada, nunca procurei. Talvez a psiquiatria tenha uma explicação bem embasada e um nome em latim pra isso. Mas a verdade é simples: eu nunca senti falta das coisas que se supõe que uma criança deveria gostar. Minha mente sempre esteve um passo à frente — e não é arrogância dizer isso. Eu só queria outra coisa. Algo mais denso, mais complexo, mais parecido com o que eu sou hoje.
O razoável sempre me deu sono. E mesmo quando era a única opção, eu preferia o silêncio. Que criança lê Fernando Pessoa escondido? Pois é. Ninguém espera que um pirralho recite Tabacaria. Mas eu lia. E gostava. Como se fosse um ensaio do que viria a ser o Maicon adulto.
No fim das contas, não ter tido infância nunca me doeu. Ao contrário: eu sempre quis ser velho. Adulto. Sóbrio. Isolado. Eu. E acho que consegui. Aos 31 anos, carrego uma alma que parece ter nascido aposentada.
No final das contas, não vejo a hora de chegar aos 70 e finalmente ter a credencial oficial para ser o velho rabugento que sempre fui — só que com respaldo social, desconto em farmácia e vaga exclusiva para estacionamento.