Nunca Tive Infância (E Ainda Bem)

Geralmente, quando alguém solta a frase “você nunca teve infância”, a intenção é ferir ou desmerecer o sujeito. Pra mim, soa quase como um elogio. Não que eu tenha me tornado um adulto infantilizado que coleciona carrinhos da Hot Wheels com 31 anos nas costas, nem aquele palhaço sem graça que se acha “engraçadão” por fazer piadas sobre tudo. Nada disso. Na verdade, o velho rabugento que hoje habita meu ser já morava em mim quando meu saco nem imaginava que um dia teria pelos.

A infância, aquela vendida nos comerciais de brinquedos com música alegre de fundo, iogurtes coloridos e crianças loiras pulando em câmera lenta, nunca foi minha. O que eu vi quando abri os olhos pro mundo foi bem diferente: brigas, silêncio pesado, portas batendo, a depressão crua da minha mãe e o cheiro de álcool e cigarro impregnado no hálito do meu pai. A trilha sonora era o som de copos quebrando e não risadas infantis.

Das poucas lembranças que consigo resgatar — borradas, como fotos reveladas com pressa — está eu, com um ônibus de brinquedo, sentado num banco velho. Ou empurrando a bicicleta porque ainda não sabia andar nela. Eu fingia que era um carro, dirigindo na estrada de terra. Era o que dava pra ter de “imaginação” ali. Chaves e Chapolin eram meu refúgio nas tardes da TV brasileira. Ou até mesmo as novelas do “Vale a pena ver de novo”.

Meus colegas faziam fila na porta da minha casa querendo brincar comigo. Eu sempre inventava uma desculpa, fingia dor de barriga, dizia que ia sair. Qualquer coisa pra evitar aquele teatrinho infantil. Nunca me atraiu. Eu achava uma perda de tempo. Enquanto eles brincavam de pique-esconde, eu escondia minha vontade de não estar ali.

Nunca fui diagnosticado com nada, nunca procurei. Talvez a psiquiatria tenha uma explicação bem embasada e um nome em latim pra isso. Mas a verdade é simples: eu nunca senti falta das coisas que se supõe que uma criança deveria gostar. Minha mente sempre esteve um passo à frente — e não é arrogância dizer isso. Eu só queria outra coisa. Algo mais denso, mais complexo, mais parecido com o que eu sou hoje.

O razoável sempre me deu sono. E mesmo quando era a única opção, eu preferia o silêncio. Que criança lê Fernando Pessoa escondido? Pois é. Ninguém espera que um pirralho recite Tabacaria. Mas eu lia. E gostava. Como se fosse um ensaio do que viria a ser o Maicon adulto.

No fim das contas, não ter tido infância nunca me doeu. Ao contrário: eu sempre quis ser velho. Adulto. Sóbrio. Isolado. Eu. E acho que consegui. Aos 31 anos, carrego uma alma que parece ter nascido aposentada.

No final das contas, não vejo a hora de chegar aos 70 e finalmente ter a credencial oficial para ser o velho rabugento que sempre fui — só que com respaldo social, desconto em farmácia e vaga exclusiva para estacionamento.

A Odisseia do Ser Imperfeito

Um dia, e provavelmente sob o feito do álcool, vou escrever um artigo no qual esmiúço a podridão que habita em meu ser. Porque é isso que as pessoas fazem, não é? Escondem seus monstros, suas falhas, por trás de um sorriso ensaiado e uma vida impecavelmente editada. Elas se preocupam em parecer quase santas, em cultivar uma imagem intocada. Eu, por outro lado, prefiro ir na direção contrária. Confessar as minhas infâmias, meus pecados. Um conjunto de falhas, de defeitos, de vacilos que formam esse monstro, na maior parte do tempo adormecido, que habita meu ser.

Não, não se assuste. Não são coisas cabulosas ao ponto de alguém bater na minha porta com uma ordem de busca, tampouco mereço o selo de “perigoso”. São condenações que fiz para mim mesmo. Talvez para alguns, isso seja nada. Para mim, é tudo. São erros que jamais poderei me perdoar, falhas que pesam em minha alma, mais do que eu gostaria de admitir.

Mas hoje, sem a ajuda do álcool, apenas reflito sobre isso: as pessoas têm uma necessidade quase patológica de parecer perfeitas. Mas a verdade é que todas, SEM EXCEÇÃO, carregam dentro de si, nem que seja uma pequena fagulha de pecado, de podridão. Algo que preferem esconder, jamais expor ou publicar. Eu, por outro lado, nunca fiz questão de esconder. Meus defeitos, quando não tão evidentes, os mantenho ali, em um canto escuro, apenas por preguiça. Porque, convenhamos, é mais fácil fazer de conta que tudo está sob controle. A velha história do “você jamais entenderia”.

Agora, “Poema em Linha Reta” talvez resuma toda essa conversa enjoada. Porque o que mais tenho feito é aplaudir os falhos, os descuidados, os que estão sempre um passo atrás da perfeição. Os que têm cicatrizes, as que não são apenas visíveis na pele, mas na alma. Os “perfeitos”, ah… esses me deixam completamente indiferente. Quero saber das tuas angústias. Das tuas dúvidas. Dos remorsos que fazem rolar lágrimas silenciosas, madrugada após madrugada, mesmo quando a luz do dia tenta apagar essas sombras. O ser humano é falho. Ele erra muito mais do que acerta. Mas, como bem sabemos, nada disso aparece nos stories de domingo.

Será isso um nojo? Pode ser. Nojo da perfeição forjada. Do puritanismo imposto. Da hipocrisia que se veste de roupa de grife. Do “certo” que todos tentam vender, mas que ninguém nunca parece viver. Não me venha com a farsa da vida imaculada. Estou mais interessado nas suas rachaduras, nos teus erros, nas falhas que te fazem real. Porque, no fim, a perfeição é só uma cortina de fumaça. E sempre detestei fumaças — nem fumar, que sempre achei elegante, consigo.

E talvez, um dia, eu beba demais e escreva isso de novo, só que de forma mais suja, mais crua. Porque, no fim, só quem é imperfeito pode entender a beleza do abismo. E eu? Bem, eu já estou lá.

Cartas do subsolo

Sim, eu sei exatamente onde você está.
Já morei aí — não de aluguel, mas de corpo inteiro.
Fui inquilino do caos,
respirei enxofre como quem busca ar,
e quer saber?
Talvez eu nunca tenha saído.

Só mudei o jeito de habitar o inferno.
Deixei de gritar.
Aprendi a andar em brasa com os pés descalços
e sorrir com a boca cheia de cinzas.
Virei a anedota do sapo fervido —
só que eu sabia que a água estava quente.
Fiquei mesmo assim.

Hoje, o inferno teme o meu nome.
É ele quem me deve noites.
É ele quem desvia o olhar.
Porque eu o conheço até onde ele próprio se perde.
Conheço o cheiro mofado das suas entranhas,
o timbre falso da sua promessa de alívio.
Sei que o fundo tem porão.
E já dormi lá.

Ele não tem mais trunfos.
Eu vi todos os seus disfarces —
inclusive aquele que usava o meu rosto.

Agora, rimos juntos.
Dividimos uma cerveja,
um gole de café requentado na amargura,
mas ele sabe:
a piada agora é sobre ele.

O problema de viver atolado na lama
é que a gente se habitua —
ao fedor, à textura,
ao calor insuportável da própria decomposição.

O problema de já ter cruzado os portões do abismo
é que o abismo também nos atravessa.
Um demônio cochila dentro de mim.
Não fala, mas respira.
Uma escuridão mora em silêncio,
fechada a cadeado num baú de ossos e promessas quebradas.
E às vezes…
às vezes é nesse baú que eu volto a morar,
quando o mundo aqui fora fica bom demais pra ser confiável.

Porque quem já conheceu o inferno
nunca volta inteiro.
Volta afiado,
volta sujo,
volta lúcido demais pra ser feliz.

Saudades do Que Nem Vivi (e Isso Me Irrita)

Deveria existir um CID exclusivo pra essa doença — se é que ainda não inventaram um. Algo entre nostalgia patológica e reencarnação mal resolvida. Sou, com orgulho e uma pontinha de desespero, um amante do passado. Talvez uma alma reencarnada pela milésima vez, fazendo turismo temporal por aqui, tentando entender que diabos é esse século XXI com seus emojis, stories e gente que acha que “vintage” é comprar camiseta desbotada por 300 reais.

Sou amante do passado em todos os sentidos. Música, roupas, vocabulário, objetos, hábitos, relações sociais, dramas existenciais que duravam mais que a bateria do celular. Entro num prédio antigo e minha vontade é de beijar o chão, abraçar a parede e sussurrar: “me conta tudo, seu lindo, me mostra o que esses olhos de concreto já viram.” Imagina as confissões que essas estruturas poderiam fazer, se tivessem boca ou, sei lá, uma conta no Instagram.

Quando vejo uma pessoa idosa, minha cabeça dispara um filme na velocidade da luz: penso nela ouvindo o Repórter Esso, assistindo ao homem pisar na Lua pela TV preto e branco, dançando com roupas esquisitas e fumando sem culpa em salões cheios de fumaça e jazz. Sinto inveja, sim, daquela presença de mundo que não tive — como se tivessem jogado spoilers da vida pra todo mundo, menos pra mim.

Me ressinto de não ter estado ali, suado em um show da Elis ou do Raul, ou simplesmente existido em um tempo onde Michael Jackson ainda era só um ser humano, não um holograma de saudade. Hoje a gente assiste tributos em 4K, mas o impacto é em 144p emocional.

No fundo, essa minha ladainha romântica é só um desabafo: eu realmente queria ter nascido antes. Ser mais velho. Mais vivido. Mais amarelado pelo tempo. Claro, não dá pra garantir que, se tivesse vindo ao mundo em 1930, eu teria o mesmo olhar apaixonado. Vai ver eu seria mais um homem amassado pela rotina, odiando a guerra, a censura e a falta de desodorante eficaz. Talvez eu nem notasse a beleza ao redor — assim como a maioria não nota hoje.

Vai ver é só uma crise dos 30 — versão existencial retrô. Talvez quando eu chegar aos 90, tudo que eu mais queira seja voltar pra época atual e dizer “nossa, 2025 era incrível e eu tava ocupado demais reclamando que nasci tarde.”

Mas, enquanto isso, sigo aqui, meio anacrônico, meio melancólico, tropeçando nesses pensamentos como quem caminha por uma rua de paralelepípedos: um pouco desconfortável, mas encantado por cada pedra que carrega o peso de passos que não dei — e mesmo assim insisto em sentir.

Herança invisível

Uma das maiores manifestações de honestidade que vivi vem de alguém que, ironicamente, carregava muitos defeitos visíveis: meu pai. Problemas com álcool, de temperamento difícil, pouco dado ao afeto — minha infância foi um terreno instável, permeado por silêncios desconfortáveis e uma constante tensão no ar. Mas, ao mesmo tempo, cresci observando, muitas vezes calado, que sob aquela casca áspera habitava um homem incapaz de trair um princípio que, de tão escasso, hoje virou quase relíquia: a honestidade.

A vida financeira aqui em casa nunca foi generosa. O dinheiro sempre contado, as dívidas sempre presentes, e as vontades sempre adiadas. Mas, justiça seja feita, nunca nos faltou o essencial. Ainda assim, ontem à noite, me vi diante de uma tentação moderna: recebi, por engano, um PIX. Não era uma fortuna, mas era o suficiente pra bancar uma daquelas pizzas gigantes com refrigerante e cerveja — e ainda sobrava pro delivery.

Não levou 30 segundos pra que eu já estivesse nas redes sociais caçando o nome do remetente. Sem sucesso. Foi então que descobri, no próprio aplicativo do banco, a opção de devolver o valor na mesma operação. Fiz isso sem hesitar. Sem pensar muito. Porque não precisava pensar.

Mais tarde, refletindo sobre o ocorrido (não por vanglória, porque devolver o que não é seu não deveria ser ato heroico), lembrei do meu velho pai. No velório dele — cena cinza que nunca mais saiu da minha cabeça — ouvi um comentário que me pegou de jeito. Foi do ex-patrão dele, com os olhos marejados:

“Teu pai vivia apertado. Às vezes pedia adiantamento do salário, mas eu, na correria, nem anotava. Na hora do pagamento, esquecia completamente. Mas ele não esquecia. Sempre vinha me lembrar e fazia questão de descontar direitinho. Ele nunca levou um centavo que não fosse dele.”

Na hora, engoli seco. Aquilo me comoveu de um jeito estranho, porque eu — que convivi tanto tempo com meu pai — jamais soube disso. Ele não fazia alarde, não esperava medalhas. Apenas era.

Não tive o pai ideal. Longe disso. Mas tive um pai que, mesmo com todos os seus erros e limitações, me ensinou com gestos silenciosos o que é ter caráter. E talvez isso seja mais raro — e mais valioso — do que qualquer infância perfeita.

O calendário da minha saudade

Existem músicas que ultrapassam o som. Elas nos atravessam. Raspam na alma. E doem bonito.

Há uma em especial que, nos primeiros três segundos de introdução — nem bem o tempo de um suspiro — já eriçam os pelos do meu braço, e parece que cada artéria do meu coração se retrai e pulsa diferente. Não, não é um hit pop, nem trilha sonora de filme algum. Muito menos coisa da moda. É uma canção romântica escondida nos corredores esquecidos da música gaúcha. Uma joia obscura, simples, quase tosca mas profundamente humana: “Calendário da Saudade”, de Sidney Lima.

Sidney, que partiu cedo demais — vítima de um acidente de trânsito em 1989, aos 40 anos — talvez nunca soubesse o tamanho da cicatriz que deixaria na memória dos que, como eu, foram tocados por sua voz. E por essa canção.

Não direi que é a música da minha vida, mas chega perto. Muito perto.

A primeira vez que a ouvi foi por tabela, ou quem sabe por destino. Eu tinha 10 ou 11 anos. Era madrugada ainda quando o rádio ecoou alto pela casa — volume ensurdecedor às 5h30 da manhã. Meu pai, como sempre, com o rádio ligado na antiga frequência AM 890 da Rádio Noroeste de Santa Rosa, onde ironicamente — ou poeticamente — eu viria a trabalhar anos depois.

Naquele dia, estávamos eu e minha mãe dormindo em outro quarto. Eles haviam brigado — mais uma vez. E quando brigavam, ela ia dividir o quarto comigo. Dormir? Difícil. Não apenas pelo volume proposital do rádio, mas pela dor que saturava o ar, densa como fumaça de cigarro. A fumaça dele, que ainda sinto às vezes, misturada ao cheiro úmido de tristeza da manhã fria.

E então, tocaram os acordes.

Não entendo bem de instrumentos, mas aquele som… uma mistura de sintetizador com órgão — ou talvez um lamento em forma de tecla — cortou o silêncio entre nós dois. Aqueles segundos iniciais se fixaram em mim como uma agulha em carne viva. Eram notas que diziam mais do que qualquer grito. A voz de Sidney Lima veio logo depois, carregada de uma dor tão elegante e tão crua que parecia cantar tudo o que eu ainda não sabia nomear.

A letra? Uma ode dramática ao amor perdido. Uma ferida aberta que sangra versos. Uma dor de cotovelo que virou arte. E ali estavam duas palavras que grudaram em mim e na minha mãe: “calendário” e “saudade”. Por anos, seriam as únicas pistas que teríamos para tentar reencontrar aquela canção fantasma.

E reencontramos.

Hoje, sempre que escuto Calendário da Saudade, é como se eu abrisse uma porta para aquele quarto abafado. A luz da fresta invadindo o escuro, a presença de minha mãe acordada em silêncio ao meu lado, a solidão do meu pai escondida atrás de uma canção colocada no último volume. E aquela criança no meio disso tudo, ouvindo pela primeira vez o que é amar e perder sem ter vivido nenhum dos dois.

Essa canção mora em mim. É parte da minha história, da minha mãe, do cheiro do cigarro e das rachaduras daquele lar. Não é só música. É memória viva. É dor antiga. É a trilha sonora de um tempo em que eu ainda não sabia que estava sendo moldado por sons e silêncios.

E por isso, talvez, seja mais do que uma canção.
Talvez seja o próprio calendário da minha saudade.

Silvio Santos morreu. E com ele, a última parte da minha infância.

Demorei quase um ano para escrever sobre isso, mas hoje tomei coragem. Não foi por falta de palavras — eu sempre as tive. Talvez medo de abrir uma ferida que, mesmo sem sangrar visivelmente, ainda pulsa. O que você está prestes a ler não é uma elegia comum. É um grito abafado. Um desabafo. Um luto íntimo. Um relato visceral de amor e perda. Não espero aplausos nem empatia — apenas um pouco de silêncio enquanto abro essa ferida que muitos talvez sequer compreendam.

A primeira imagem que tenho de Silvio Santos na TV remonta ao final dos anos 90. Eu tinha 4 ou 5 anos, talvez nem isso. Estava ali, hipnotizado diante da tela, vendo aquele homem de terno largo, gravata berrante e aquele microfone preso no peito. Era o “Topa Tudo Por Dinheiro”. E eu, como toda criança que se preza, fui sequestrado pelas cores, pelos sons e pela presença quase sobrenatural daquele apresentador que falava diretamente comigo. Não era a intenção da minha mãe, certamente. Mas não adiantava: eu já tinha opinião formada, gostos próprios e um ídolo inegociável.

Silvio virou minha religião particular. Um deus pagão da televisão. Se ele caía na água, eu pedia pra minha mãe encher a banheira pra repetir o batismo. Me vestia como ele, ajeitava o cabelo do mesmo jeito. Se ele desabotoava o paletó (e sempre era o do meio, depois dos anos 2000), eu fazia o mesmo. Não imitava a voz, porque não era sobre imitação — era sobre essência. Eu não queria ser parecido com Silvio. Eu queria ser ele.

E assim foi. Na escola, em casa, nos cadernos rabiscados, nas apresentações improvisadas com plateias de familiares resignados. Eu era o Silvio Santos mirim. Um mini-showman órfão da fama. Um devoto incansável, construindo um altar com cartolina e fita VHS.

Sem internet, o mito era mais saboroso. Não havia o desgaste da superexposição. Ver Silvio era um evento. Um presente semanal. Quando ganhei meu primeiro celular com câmera, comecei a registrar suas aparições como se fosse um paparazzo da memória. Eu queria arquivar tudo. Queria reter aquele homem. Fixá-lo no tempo, como se já pressentisse que um dia ele não estaria mais ali.

Com a chegada da internet na minha vida, entre 2007 e 2008, o fascínio virou obsessão. Descobri Silvio em fotos antigas, de férias, de bermuda, sem o personagem. Descobri o bastidor do mito. E em vez de quebrar a mágica, aquilo me fez amá-lo ainda mais. Não era só o comunicador que me atraía — era o homem, o pai, o patrão, o gênio. Um ser com múltiplas camadas que ainda assim era acessível, humano, brasileiro até o último fio de cabelo alinhado com laquê.

A vida foi passando, claro. A infância ficou em alguma gaveta, junto com os ternos infantis e os microfones de brinquedo. Vieram outros ídolos, outras responsabilidades. Mas Silvio nunca saiu de mim. Ele era a voz que me levou à comunicação. Era o estalo que me fez virar locutor de rádio. Era, e sempre será, o motivo pelo qual acredito no poder da palavra falada.

Então veio 19 de agosto de 2024. Um sábado. A data maldita.

Eu já sabia que ele estava internado, em estado delicado. Minha rotina de fã obsessivo seguia intacta: pesquisar todos os dias “Silvio Santos” no Google e aplicar o filtro “últimas 24 horas”. Naquele dia, nenhum resultado novo. Um falso alívio.

Horas depois, no trabalho, entrei no site da Globo e lá estava:
“Morre apresentador e empresário Silvio Santos”.

Frio. Simples. Cru.
Uma nota rasa demais para um homem tão profundo.

Eu queria mesmo era que o mundo parasse. Que a rotação da Terra tivesse sua velocidade alterada. Que os anjos cantassem um coral de “Lá lá lá lá”. Que um clarão dividisse o céu ao meio para anunciar sua subida. Mas não. Silvio era humano. E, como humano, seu coração parou de bater.

Meu coração gelou. As mãos tremeram. O ar sumiu. Já havia perdido pai, mãe e avô. Mas ali foi diferente. Aquilo doeu de outro jeito. Silvio não sabia da minha existência, mas era meu parente mais presente. Estava comigo aos domingos, depois diariamente. Me formou como nenhum professor jamais conseguiu.

A morte dele não levou só um comunicador. Levou meu último elo com a infância. Enterrou junto uma parte da minha alma.

O mais agridoce é que mesmo na dor, eu sentia honra. A honra de ter sido seu contemporâneo. De ter presenciado seu auge. De ver, em tempo real, o homem que reinventou a televisão brasileira com uma naturalidade singular.

Silvio Santos era sedutor. Seduzia com gestos, com silêncios, com sua voz inconfundível e seu olhar meio sapeca, meio calculista. Ele sabia o que fazia. Sabia manipular emoções como um maestro do absurdo. Era um showman nato. Um psicólogo de auditório. Um encantador de donas de casa e de sonhadores perdidos. Um bilionário com alma de camelô.

Agora ele se foi. E com ele, foi-se um pedaço imenso da cultura popular. Foi-se um Brasil que sabia rir de si mesmo, que ligava a televisão pra sonhar e não pra se indignar. Foi-se o último dos grandes.

Silvio Santos morreu. E são poucos os que compreendem o tamanho disso.

Hoje, só me resta agradecer.

Obrigado, Silvio.
Por tudo.

Lucidez: o Entorpecente Supremo

Frequentemente me flagro em silêncio, observando os detalhes mais inúteis — e por isso mesmo, indispensáveis — da vida e do mundo. Se me pedissem uma palavra que me definisse por inteiro, eu não hesitaria: observador. Em todos os sentidos. Um ser voltado para dentro, com as janelas do lado de fora sempre entreabertas, apenas o suficiente para que entre ar e não tumulto.

Sou introvertido. Calado. Silencioso. Não por timidez — essa já passou, se é que algum dia existiu — mas por pura preguiça mesmo. Preguiça de gastar palavras com quem não oferece sequer um pensamento que dure mais do que quinze segundos na minha cabeça. A maior parte das pessoas me parece uma longa pausa entre um vazio e outro. E eu não tenho mais saco pra isso.

Enfim. Voltando às observações: os últimos dias foram chuvosos por aqui. E numa dessas noites, estacionado dentro do carro, com o motor desligado e a cidade finalmente muda, fiquei ouvindo os pingos no teto e no para-brisa. Pensei: está tudo dentro da normalidade. E é lindo quando percebemos que o mundo não precisa de nós pra girar. Ele segue. Gira. Chove. Faz sol. Sem pedir licença. Sem se importar.

Essa mesma chuva — esse som de água se jogando no chão como quem se despede de algo — já caiu sobre milhões de cabeças ao longo da história. Desde quando o primeiro ser humano olhou pro céu e se assustou com um trovão, até hoje, quando olhamos para cima apenas para ver se estragou o tererê no Tape Porã. A humanidade é isso: a mesma cara de espanto com roupagens diferentes.

Olho para o céu e penso: as estrelas que vejo são as mesmas que viram Cristo andar por aqui, há dois mil anos. São as mesmas testemunhas dos primeiros símios que aprenderam a temer o fogo e a amar a fogueira. O céu — esse teto infinito — já encarou bilhões de olhos humanos. E nunca piscou de volta.

Sim, eu tenho essa mania boba de ver poesia em tudo. Olho para as pessoas e me pergunto: o que já testemunharam esses olhos? Quantas lágrimas carregam esses sorrisos? O que já suportaram esses ombros que hoje fingem leveza?

E o mundo… ah, o mundo. Se tivesse pensamento próprio, o que diria sobre nós? Sobre essa nossa mania de nos acharmos protagonistas num palco onde, claramente, somos figurantes? Qual é o propósito de tudo isso, se poderíamos, muito bem, não estar aqui? A presença humana nesse globo molhado não melhorou muita coisa, sejamos francos. Somos um ruído incômodo na orquestra da existência.

Pra encerrar esse devaneio — que, dependendo do ponto de vista, pode parecer um porre — deixo aqui uma constatação: esses pensamentos só me visitam quando estou sóbrio. Quando tomo meus latões de Budweiser, não reflito sobre a insignificância humana. Talvez porque, no fundo, eu saiba que o maior entorpecente já inventado não vem em lata. Chama-se lucidez.

O Prazer Duvidoso de Morrer em Vida

Manhã fria de domingo. Primeiro de junho de 2025. São exatamente 7h30. Faz 7 graus na minha cidade e eu já estou de pé desde as 4h da manhã, porque aparentemente meu cérebro decidiu que dormir até tarde é luxo de quem não tem pensamentos autodestrutivos demais para serem ignorados. Enquanto a maioria das pessoas normais ainda está em coma REM, eu estou aqui, tropeçando nas minhas angústias e batucando no teclado como se isso fosse me salvar de alguma coisa.

Tenho a sorte — ou a maldição — de trabalhar com algo que me permite escrever nesse intervalo insone entre a solidão e o chimarrão. Às vezes escrevo. Às vezes só fico encarando a tela como um zumbi emotivo, esperando que a inspiração me vomite alguma coisa no colo. E cá estou. Vomitando. Ou tentando.

Esse espaço aqui? Uma espécie de diário disfarçado de desabafo. Um confessionário eletrônico onde me iludo achando que é só pra mim mesmo, quando no fundo, torço sim pra que alguém leia e me aplauda como se eu tivesse acabado de inventar o conceito de humanidade. Ah, a hipocrisia. Ela nem sempre me encontra, mas quando aparece, senta no sofá da sala e toma um chimarrão comigo.

Hoje de manhã li uma frase do Carpinejar. Dizia que deveríamos atualizar nossa data de nascimento frequentemente. Finalmente algo que faz mais sentido do que qualquer manual de autoajuda vendido a 39,90 na livraria mais próxima. Eu, por exemplo, já morri tantas vezes que se minha certidão de nascimento fosse atualizada, precisaria de uma planilha do Excel só pra organizar. Estou enterrado em versões de mim mesmo que não faço questão de visitar nem no Dia de Finados.

Minha memória é um desastre completo — já escrevi isso aqui, mas vale repetir pra quem acabou de chegar no rolê. Se eu vejo vinte filmes por ano, lembro de dois. E olha lá. Um defeito de fábrica que, ironicamente, me ajuda a viver. Porque junto com as lembranças boas que evaporam, as dores também somem. Aquela dor lancinante que um dia me fez jurar que não viveria até o mês seguinte? Apagada. Enterrada junto com o idiota que eu era naquela época.

O problema é que a felicidade também sofre desse Alzheimer precoce. Tem momentos lindos que simplesmente escorrem pelo ralo da minha mente, como se nunca tivessem existido. E isso me faz pensar como será minha velhice — se eu tiver uma. Com 31 anos e já com lapsos de memória dignos de um episódio de “This Is Us”, imagina aos 80. Vou precisar de legenda até pra lembrar o meu nome.

Mas voltando ao Carpinejar.

Minha vida não foi feita só de funerais emocionais. Também nasci. Muitas vezes. Nasci ao conhecer gente que valia a pena. Ao ouvir conselhos que doeram na hora mas me salvaram depois. Ao tomar uma cerveja estalando num dia em que o calor me fazia querer desistir da humanidade. Nasci quando escrevi algo que prestava. Quando fui, sem querer, um alívio pra alguém. Quando modifiquei um dia ruim alheio com uma piada ou um gesto bobo. Entre esses renascimentos e enterros, sigo. Meio cínico, meio esperançoso, feito um sobrevivente de guerra que ainda tem munição emocional pra tentar de novo.

Um dia, claro, virá o nascimento definitivo. Ou a morte que não dá lugar pra mais nada. Mas até lá, quero morrer muitas vezes. Quero explodir versões antigas de mim como quem limpa o histórico do navegador antes de emprestar o computador. E nascer de novo. De preferência mais irônico, mais lúcido, mais eu.

Só peço aos deuses — ou ao algoritmo universal que rege esse caos — que não deixem morrer em mim essa vontade de renascer. Que minha existência, mesmo caótica, mesmo cínica, ainda tenha fôlego pra impactar alguém, deixar uma lasca de sentido em algum canto, mesmo que seja só num post perdido como esse.

Se for pra ser esquecido, que pelo menos seja depois de ter sido inesquecível por cinco minutos.

Trinta e Um Anos de Stand-by

Na semana em que completo 31 anos de uma existência que beira o modo avião, decidi brindar a ocasião com mais um daqueles desabafos autopiedosos que só interessam a mim mesmo — ou, com sorte, ao redator que um dia precisará escrever meu obituário e não souber por onde começar.

É tempo, portanto, de balanço: o que vivi? Pouco. O que senti? Tudo. O que valeu a pena? Quase nada. É esse o paradoxo indigesto que me acompanha: a impressão de ter experimentado todas as dores do mundo, mas não ter vivido nada que realmente importe. Uma espécie de rodízio emocional onde só servem a conta.

Talvez eu seja apenas mais uma alma velha — daquelas que voltam pra essa dimensão só pra pagar dívidas cármicas em carnê, sempre vencido. Quem sabe essa sensação crônica de tédio, desencanto e déjà vu seja só meu boleto espiritual se manifestando.

Dizem por aí que isso se chama “crise dos 30”. Mas cá entre nós: essa crise me acompanha desde os cinco. Eu não fui uma criança feliz, nem um adolescente luminoso. Aos 20, já tinha as rugas emocionais de um idoso cético. Se essa crise é um evento isolado, alguém esqueceu de me tirar dela. A verdade é que, ao contrário do que dizem, ela não chega aos 30 — ela só ganha crachá.

Já escrevi em outros carnavais (e velórios emocionais) que sou um melancólico de estimação, um ranzinza vintage, um pessimista convicto com talento para ironia de boteco. Não esperem de mim um post de gratidão, cheio de hashtags sobre a dádiva da vida. Agradecer por estar vivo seria como agradecer ao governo por me deixar gastar meu próprio salário. No máximo, posso admitir que sobreviver tem seus momentos cômicos — e nem todos são involuntários.

Mas, justiça seja feita: nesse filme arrastado, algumas cenas salvaram o roteiro. A chegada da Julia, por exemplo, que deu uma cor inesperada a esse cenário cinza que eu tanto cultivo. E também os incontáveis gestos de amor dos meus saudosos pais, Neli e Ivo — presenças eternas, mesmo na ausência, que ainda iluminam meus dias com aquela luz morna e teimosa de abajur antigo. Se não fosse por eles, talvez o protagonista já tivesse pedido pra sair nos primeiros episódios.

Olho para esses 31 anos e vejo um roteiro mal escrito, dirigido por um estagiário de quinta categoria. A história anda, mas não vai. Muita coisa aconteceu, mas nada de fato aconteceu. A ansiedade por chegar logo aos últimos capítulos talvez seja a única motivação legítima que me faz levantar da cama. Curiosidade mórbida, digamos. Porque, sejamos honestos: até agora, esse filme tá mais pra drama existencial do que qualquer outra coisa — e sem nem uma trilha sonora decente.

Mas sigo aqui, esperando o clímax ou, pelo menos, uma reviravolta digna de série ruim da Netflix que nunca ficou no TOP 10.