Antes que venham os insultos, fiquem tranquilos: não estou aqui para destilar ódio gratuito num ambiente que, ironicamente, ajudou a moldar minha infância — ainda que aos trancos, tropeços e com muito julgamento disfarçado de “preocupação cristã”. O que se segue é apenas um desabafo. Um grito mudo de quem mergulhou fundo na própria espiritualidade e emergiu com os olhos limpos, vendo tudo com muito mais clareza. Se isso ofende, sintam-se confortáveis para se ofender — é o mínimo.
Sempre me chamou a atenção a hipocrisia escancarada das pessoas do interior. Aquele tipo de hipocrisia que vem com cheiro de pão recém-saído do forno e sotaque carregado de santidade dominical. Homens e mulheres que fazem questão de estar nas primeiras fileiras da igreja, como se o lugar marcado garantisse assento VIP no céu. Mas bastam os primeiros passos até o corredor da comunhão para que comece o espetáculo mais tradicional dessas paróquias: a inspeção corporal alheia. Da cabeça aos pés. Olhar clínico, quase de raio-X — só falta o avental e a prancheta. O julgamento é silencioso, mas estrondoso. Uma espécie de revista íntima socialmente aceita. E o mais curioso é que há quem passe pano, dizendo: “Ah, coitadinhos… são ignorantes, não têm estudo.” Como se ignorância fosse escudo pra canalhice.
E sim, todo mundo que cresceu numa cidadezinha sabe: é exatamente assim. Em comunidades recheadas de descendentes de italianos e alemães que se acham a última bolacha do pacote (e nem é a mais recheada). Gente que se exala em arrogância como quem usa perfume importado: forte, enjoativo, e sem necessidade. Talvez se sintam superiores por terem algumas hectarazinhas de terra herdadas — que, convenhamos, no Mato Grosso não valem um cafezinho. Ou por possuírem tratores que foram lançamentos na época em que o Collor ainda era presidente. E claro, tem o grande diferencial espiritual: o dízimo gordo, em notas de cem, bem contadas, bem dobradas. Porque Deus, aparentemente, tem conta bancária.
E o que dizer daqueles senhores estrategicamente posicionados nas escadarias da igreja antes da missa começar? Um verdadeiro “Jornal Nacional da Fofoca” em versão agro. Durante vinte minutos, vomitam preconceitos com a mesma naturalidade com que comem pão e salame. Misoginia, racismo, homofobia e outros temperos que, por algum motivo misterioso, não anulam a santidade dominical de ninguém. Quando o sino toca, o personagem entra em cena: rosto compenetrado, mãos postas, olhar celestial. E a peça começa. Lá dentro, o julgamento continua, claro — às vezes nos olhos, às vezes num cochicho. Nunca falta uma sentença pronta. Deus, aparentemente, é só mais um nome na boca de quem já condenou o mundo inteiro com base no comprimento da saia ou na cor do cabelo.
Sério mesmo que essas pessoas acham que estão com a passagem carimbada pro paraíso? Que basta fingir por quarenta minutos todo domingo e tá tudo certo com o universo?
Eu, honestamente, não entro em igreja há anos. E mesmo assim, sinto dentro de mim uma espiritualidade mil vezes mais honesta do que a daqueles que recitam orações decoradas com a mesma emoção de quem recita a lista do supermercado. Não é sobre se achar melhor. É só que… talvez eu tenha parado de mentir pra mim mesmo — o que já me dá uma vantagem absurda.
Falo com Deus todos os dias. Do meu jeito. Sem ensaio, sem roteiro, sem precisar parecer mais puro do que realmente sou. Confesso meus erros, minhas falhas, minhas dores. Porque espiritualidade de verdade não precisa de platéia. E muito menos de plateia julgadora vestida de santo de ocasião.
Meu desprezo é reservado — e sem culpa nenhuma — aos hipócritas de missa e jaleco de moralidade. Aqueles que vestem o figurino do bom cristão por menos de uma hora por semana, mas passam os outros seis dias e 23 horas julgando a vida alheia. A ignorância, às vezes, merece compaixão. Mas essa… essa merece mesmo é julgamento divino. Um daqueles bem severos. E tomara que o Criador faça com eles o que eles fizeram a vida toda com os outros: julgue. Sem piedade. Sem entender o contexto. Sem ouvir defesa.
Porque justiça divina, meu caro, talvez seja só um espelho bem limpo.

