se eu morresse hoje

Se eu morresse hoje, morreria com muitas dívidas.
Com muitos abraços não dados e palavras não ditas.
Com muitos lugares não desbravados e paisagens não apreciadas.

Se eu morresse hoje, morreriam comigo todos os meus sonhos,
todas as minhas esperanças e expectativas.
Meu cheiro ficará pela casa por algumas horas, no máximo.
A cama, quem sabe, ainda amassada por algum tempo.
Quem sabe eu ainda deixe o banheiro molhado,
e a toalha estendida, um pouco úmida.

Se eu morresse hoje, ficaria um monte de coisas por fazer.
Meu corpo, já sem valor algum, existirá por mais alguns meses,
até que desapareçam todas as minhas marcas físicas,
que disseram que um dia eu passei por aqui.
Desaparecerá também a frequência das pronúncias do meu nome.
Em anos, poucos saberão da minha passagem por aqui.
Em mais anos, ninguém mais chorará por mim.

Mas e se eu nascesse hoje? O que faria diferente?
Se me fosse dada uma nova vida,
com o cronômetro zerado,
quais passos eu daria novamente
e quais caminhos jamais percorreria pela segunda vez?

Se me fosse dada uma nova chance,
eu viveria com mais cuidado.
Eu abraçaria os meus amigos com força
e ficaria madrugadas conversando sobre o sentido da vida.

Se me fosse dada uma nova chance,
e os relógios zerassem suas contagens,
eu jamais carregaria um no pulso.
Contaria o meu tempo pelos pores e nasceres do sol.

E, nesse intervalo entre um e outro,
faria de tudo para que, quando eu morresse,
deixasse para trás uma vida pela qual valesse a pena morrer.

Entrelinhas de um Poeta

Poesia não se explica, poesia se sente.
E o meu silêncio, herdeiro desse fato,
faz de ti um poema perfeito:
linhas, curvas e traços invisíveis,
que não cabem no alcance dos olhos.

Assim como a poesia escrita,
assim como os mais belos textos da humanidade,
deves ser lida com a alma,
decifrada em tuas entrelinhas,
nos enigmas sutis do teu existir.
És verso sem ponto final,
és página que nunca se fecha.

Já duvidei de mim,
se era ou não um poeta.
Hoje, graças a ti, sei que sou:
não pelo som rouco da velha máquina de escrever,
mas por decifrar as estrofes que o vento leva
em cada sorriso que me ofereces sem perceber.

Sou poeta porque és a carne da beleza,
o reflexo de tudo o que não pode ser inventado.
E eu não poderia ser outra coisa,
pois em teu olhar os versos já nasceram prontos.
Só precisei reconhecê-los,
senti-los como quem tateia um sonho,
e rabiscá-los em papéis famintos de eternidade.

Sou poeta, mas nada criei.
Apenas empresto palavras ao que sempre existiu,
apenas procuro sinônimos para os antônimos das minhas dores.
E compreendo, por fim:
mais do que ler ou escrever poesia,
o que verdadeiramente me consome
é estar cativo dentro de uma —
a tua poesia.

Tatuagem

Tatuagem não sai nunca mais.
É cicatriz intencional, cravada na carne,
na camada mais funda da pele —
aquela que o tempo não consegue polir,
que nem as lágrimas ou o sol sabem apagar.

O amor é parecido.
Marca invisível, mas igualmente eterna,
cravada na parte do peito
que o tempo não tem acesso.
Mas nem todo amor é assim.

Há tatuagens temporárias
que a água dissolve como mentira antiga,
e há amores que a dor
lava para fora com lágrimas.
Nem por isso deixam de ser amor —
apenas foram feitos para durar o tempo que precisavam.

Para tatuar, é preciso pensar duas vezes.
Para amar, não se pensa.
O amor chega como agulha sem aviso,
fura todas as defesas e
estampa na alma o que quer.

Raros são os amores-tatuagem,
esses que permanecem vivos
na mais funda camada do ser.
Alguns, no entanto, se parecem mais com cicatrizes —
marcas que carregam lições envenenadas,
histórias que juramos nunca repetir,
mas que, no fundo,
sabemos que um dia vamos.

Marcas

Fracassei na tentativa de te ter pra sempre aqui.
Na dor física da tua ausência, morri por dentro aos poucos.
Por fora, insistiram em sobreviver células e poros,
que, por várias noites, se afogaram no suor do teu corpo.

Hoje, revirei os quatro cantos da casa cinza e sem vida,
que um dia já foi o arco-íris dos meus entardeceres,
buscando uma marca dos tempos em que havia vida em mim.
Lembranças e imagens já não eram suficientes.

Ansiava por uma marca física, real, verdadeira:
um fio de cabelo, um perfume esquecido, uma peça de roupa…
Qualquer coisa que me trouxesse a saudosa sensação
de ainda escutar teus passos por entre os cômodos.
Qualquer objeto seria, para mim, uma relíquia.

Mas o tempo não perdoou os restos mortais da nossa história.
A poeira dos dias apagou qualquer possibilidade de nostalgia.
Nada mais restou da vida que jamais temi perdê-la,
e hoje me vejo implorando a Deus uma falha no tempo-espaço,
que, por um descuido, fizesse meus dias retrocederem.

Eu já estava desistindo da minha procura, quase fracassada,
quando, sem querer, vi meu vulto no espelho do roupeiro.
Cheguei mais perto e me autoanalisei de uma maneira profunda.
Vi meu olhar abatido, doente, de quem nada espera mais,
um embrulho de mau gosto da dor escondida por dentro.

Sentei na cama, pensativo, exausto, mas ainda com vida.
Me dei conta de que havia tido sucesso em minha busca:
eu queria uma marca tua e encontrei a maior de todas.
Porque nada traduz tão fielmente a tua passagem por mim,
do que o rastro de destruição que deixaste em minha alma.

poesia invisível

Quanto tempo perdido te mostrando a lua,
te falando das estrelas,
te falando dos meus poetas favoritos,
te falando da forma como te via,
da forma como eram mágicos nossos momentos.

Quanto tempo perdido te falando da magia,
que era magia só pra mim,
te falando da impossibilidade de medir o meu amor,
e de como era incrível esse amor,
aumentando a cada dia.
De como a rotina e a poeira do cotidiano
nunca abalaram as estruturas do meu sentimento.

Quanto tempo perdido te falando de mim,
das minhas dúvidas,
da forma como via o mundo, as pessoas,
das minhas crenças, dos meus medos.
Você nunca quis saber,
nunca quis entender,
você nunca me ouviu,
e, se ouvia, ouvia apenas com os ouvidos.

Quanto tempo perdido,
quanta vida perdida,
quanta energia gasta em vão.

Pelo menos me tornei especialista na arte de amar sozinho.
O que me dói de verdade são os desperdícios.
Foi como mergulhar no vazio,
foi como tentar colocar o oceano que habita em mim
no copo d’água da tua indiferença.

Eu escrevi com um lápis branco
em um papel em branco
a mais bela de todas as poesias.

eu sou o meu mundo

O aprendizado que tive com nossa história
faculdade nenhuma no mundo me ensinaria.
Tive que descobrir tudo na marra, sem anestesia.
Haviam momentos em que a dor parecia insuportável,
as indiferenças, as palavras que machucavam,
a metralhadora que acionava cada vez que abria a boca.
Tudo aquilo me matava por instantes,
mas nunca matou a vontade de insistir,
insistir em algo que já havia terminado há tempos.

Até que um dia, por um descuido qualquer,
alguma força maior fez com que uma brisa de lucidez
tomasse conta do meu peito,
como se um balde de água gelada fosse despejado
sobre o castelo de ilusões que eu mesmo criei.
E em meio à lama da realidade que se formou,
percebi o quão benéfica foi pra mim a tua crueldade.
Ela acabou por destruir um “eu” que não existe mais,
um personagem que eu interpretava,
pensando que era eu mesmo, mas não era.

A minha essência estava escondida,
aprisionada dentro da submissão, do conformismo, da comodidade,
do “aceitar tudo” pra evitar uma briga,
de acreditar que a culpa era sempre minha,
do meu silêncio que sempre gritou,
mas você nunca soube ouvir.

Enfim, a lucidez chegou a tempo.
Quando a droga do amor já não fazia mais efeito,
descobri, em meio a tombos, quedas e moradas em fundos de poços,
que a coisa mais importante do mundo pra mim sou eu mesmo.
Demorou, mas consegui.
Agora sou eu quem está falando,
mas eu, de verdade,
e já não preciso mais de ti pra ser eu de fato.
O molde que construíste ao redor de mim se quebrou para sempre.

Desejo de coração que as lembranças dos nossos momentos bons
te acompanhem até teu último dia,
não em forma de remorso ou arrependimento.
Jamais desejaria mal à pessoa que mais amei na vida.
Mas pra que saibas que, por algum tempo,
tiveste o mundo nas mãos — o meu mundo.
Ao invés de torná-lo seu também,
não o agarrou com força suficiente,
não deu a ele a devida importância.
E eu serei eternamente grato por isso.

amor: uma droga lícita

A vida deu-me uma ordem de restrição,
não posso chegar nem perto do amor.
Fujo dele como o diabo foge da cruz.
Jamais irei perdoá-lo pelo que fez comigo.
Eu até já acreditei nele,
não posso dizer que não existe.
Eu vi, vivi e senti,
cada fase de sua passagem por mim.
Mas o rastro de destruição que ele deixou
me fez odiá-lo mortalmente.

Com essa experiência desastrosa,
restou-me apenas uma reflexão:
aqueles que já nascem com o coração de pedra
são verdadeiros sortudos.
Fogem de qualquer possibilidade de encontro com o amor,
sem remorso algum, sem culpa, sem dores no peito.
Pois não conhecem outra coisa a não ser a indiferença,
a frieza, a insensibilidade.

Triste mesmo é quando já se acreditou,
quando foi construído e depois destruído,
quando ainda restam escombros de histórias não terminadas,
sombras e visões de algo que um dia foi a melhor coisa do mundo.

Há tempos fujo do amor.
Mas, embora eu tente manter essa postura de durão,
de incrédulo e pessimista,
dentro de mim ainda mora uma partícula do que um dia fui.
E por mais que firmemos um pacto,
de não nos aproximarmos um do outro,
sei que ele me observa silenciosamente,
esperando a hora certa de dar o bote.
Quem sabe eu seja envenenado mais uma vez
e, propositalmente, não corra atrás de antídotos.

Pois quem um dia conheceu o amor,
por mais que o demonize e se blinde dele,
sabe que ele voltará com tudo.
E não adianta mudar de endereço,
ele já morou aqui,
já decorou o caminho.

Quem um dia conheceu o amor,
sabe que, no fundo, ele é bom e viciante.
E depois do prazer de mergulharmos nele,
age como toda e qualquer droga:
nos mata lenta e dolorosamente.

Por que aceitamos migalhas?

Chega de explicações idiotas pra essa pergunta. Chega de “baseado no estudo tal”, “com base nas pesquisas da universidade da mãe Joana”, “estudo revela que 50% dos homens e o caralho a quatro”. Um balde de água fria as vezes faz bem, e principalmente, nos mostra que não estamos sozinhos no barco. A verdade é só uma e precisa ser dita:

Aceitamos migalhas porque é infinitamente mais confortável estarmos ao lado de quem amamos do que distante. Mesmo que não haja correspondência. Aceitamos migalhas pois não temos o mínimo de amor próprio e estamos anestesiados pelo efeito dessa droga chamada “amor”. Aceitamos migalhas pois amamos como criança e não somos “doentes” como a maioria diz. Sentimos com pureza e com verdade. Nenhuma dor se assemelha a de ser rejeitado por quem mais amamos. Ou de não ser correspondido a altura. Ou pior, receber em troca da vida que entregamos, desprezo e indiferença. Mas apesar de passarmos por tudo isso. A pessoa ainda está ali, do nosso lado. Ou seja: nem tudo está perdido. Acreditamos que a dor da presença pode até ser terrível, mas a da ausência não permitiria sobrevivência. Poetizamos, romantizamos o sofrimento. Afinal: “É uma honra sofrer por quem amamos”. Sabemos que estamos errados. E não é que não podemos mudar. Na verdade não queremos. Não queremos sentir menos. Não queremos nos diminuir pra caber dentro de alguém. Somos alma, fogo, amor. Colocamos a pessoa em primeiro lugar. Não por esquecermos de nós. Mas se praticamente não existíamos antes dela, nada mais justo do que idolatrarmos uma presença que nos fez renascer. Aceitamos migalhas pois o que sentimos é puro, intenso e sincero. Somos masoquistas. Vamos, aos poucos, morrendo por dentro. Aos poucos. Talvez isso seja o pior. É uma morte consciente. Como o fumante, que sabe que seu vício é capaz de matá-lo. Sabemos que a medida em que entregamos o mundo ou a vida a alguém, perdemos um pouco de nós a cada instante. Sabemos de tudo isso e continuamos. Afinal, se na ausência a sobrevivência é absolutamente incerta, na presença, também incerta, morremos aos poucos. E pra encerrar: Aceitamos migalhas pois também somos movidos pela esperança. Pela esperança de que um dia sejamos amados na mesma proporção. Esperança de que um dia também sintam nossa falta e nos amem verdadeiramente. Afinal, o amor em excesso, o “sentir” intenso e verdadeiro, o “não conseguir viver sem” somente é considerado dependência emocional, quando vem de apenas uma parte. Se fosse das duas seria apenas uma rara história de amor que deu certo. Portanto, não nos preocupemos com os nomes, rótulos. E aceitemos de uma vez por todas, que um amor correspondido na mesma proporção, é como saber o número exato de quantos grãos de areia há no globo terrestre.

Não quero te amar menos

Não quero te amar menos.
Por mais que os especialistas em relacionamentos me encham de sugestões mirabolantes.
Por mais que no fundo eu saiba que estão certos.
Por mais que minha cabeça implore ao meu peito pra fazê-lo.
Não. Não quero diminuir meu sentimento pra caber dentro de ti.
Por mais que me falem em “dependência emocional”.
Não quero cortar pela metade o que de mais precioso há em mim.
O que trago no peito por ti é o que de mais valioso possuo.
Não quero me desfazer disso. Em hipótese alguma.

Por mais que meus sentimentos te sufoquem,
por mais que te sintas pressionada ou com a responsabilidade enorme sobre os ombros,
permita-me apenas que eu sinta.
E te entregue, todos os dias, uma parcela disso tudo.
Não quero que sintas o mesmo por mim. Imagina.
É humanamente impossível. É completamente impossível.
Mas não corte o meu barato.
Permita-me que eu cuide de ti.
Deixa eu te embalar em meus braços, mexer no teu cabelo,
te possuir em minhas mãos como a descoberta de um tesouro.

E, se de fato não houver outra saída,
me impeça apenas de te entregar isso tudo, mas não de sentir.
Afinal, sou especialista na arte de amar sozinho.