Se eu morresse hoje, morreria com muitas dívidas.
Com muitos abraços não dados e palavras não ditas.
Com muitos lugares não desbravados e paisagens não apreciadas.
Se eu morresse hoje, morreriam comigo todos os meus sonhos,
todas as minhas esperanças e expectativas.
Meu cheiro ficará pela casa por algumas horas, no máximo.
A cama, quem sabe, ainda amassada por algum tempo.
Quem sabe eu ainda deixe o banheiro molhado,
e a toalha estendida, um pouco úmida.
Se eu morresse hoje, ficaria um monte de coisas por fazer.
Meu corpo, já sem valor algum, existirá por mais alguns meses,
até que desapareçam todas as minhas marcas físicas,
que disseram que um dia eu passei por aqui.
Desaparecerá também a frequência das pronúncias do meu nome.
Em anos, poucos saberão da minha passagem por aqui.
Em mais anos, ninguém mais chorará por mim.
Mas e se eu nascesse hoje? O que faria diferente?
Se me fosse dada uma nova vida,
com o cronômetro zerado,
quais passos eu daria novamente
e quais caminhos jamais percorreria pela segunda vez?
Se me fosse dada uma nova chance,
eu viveria com mais cuidado.
Eu abraçaria os meus amigos com força
e ficaria madrugadas conversando sobre o sentido da vida.
Se me fosse dada uma nova chance,
e os relógios zerassem suas contagens,
eu jamais carregaria um no pulso.
Contaria o meu tempo pelos pores e nasceres do sol.
E, nesse intervalo entre um e outro,
faria de tudo para que, quando eu morresse,
deixasse para trás uma vida pela qual valesse a pena morrer.