apego

E se o segredo for “não se apegar”?
A absolutamente nada:
pessoas, coisas, lugares…
Aprendi que qualquer tipo de apego traz consigo a dor,
o sofrimento que vem como consequência.

Nada é eterno,
mas passei tanto tempo sem realmente pensar nisso.
Inconscientemente acreditava que tudo permaneceria do mesmo jeito,
para sempre, até o fim.
Mas não,
tudo acaba.
As pessoas se afastam,
os amores se vão,
as histórias ficam.

Na memória e no coração.
— As que merecem.

fazer valer a pena

Tenho um amigo chamado Marquinhos. Volta e meia nos reunimos e nos embebedamos madrugada a dentro. Um de nossos maiores questionamentos (até mesmo antes do porre), é: Que merda estaremos fazendo daqui 10, 20 ou 30 anos? E quando estivermos com 60 ou 70? Ou já fudidos com 80 ou 90? (Deus me livre viver até lá). Acredito que a tão conturbada fase dos vinte e poucos nos leva à um certo “desespero”. São muitas as inseguranças acerca do que está a nos esperar lá no futuro. Temos algo em comum: a ânsia por uma vida verdadeira, uma vida intensa, onde não estejamos aqui somente como vegetais esperando pela morte e fazendo algumas coisas inúteis até que ela não chegue. Temos um medo tremendo de entrar no tão temido “automatismo”, e virar gado como 99% da sociedade (Por favor, me apresente alguém que esteja nesse 1%). O fato de termos que seguir a multidão nos deixa depressivos pra caralho. Estudar, nos formar, arrumar um trampo pra poder comer, alugar um AP, beber aos finais de semana, ter uma profissão, conhecer alguém, namorar, casar, passar o domingo na casa do sogro, ter 2 filhos… Isso talvez seja o sonho de várias pessoas, mas não o nosso. Esse é problema das pessoas intensas. O mundo inteiro ainda nos é pouco para tantos sonhos e planos que temos em mente. Esse filho da puta sonha em sair do país no próximo ano, e tenho certeza que vai conseguir. Será a primeira pessoa de coragem que irei conhecer na vida. Largar tudo e sumir do mapa? Porra! Que sonho… Mas sou covarde e ao que tudo indica continuarei me fudendo por aqui. O mestre Antônio Abujamra sempre perguntava ao final de suas entrevistas à seus convidados: “O que é a vida?”. Dos mais pequenos degraus da sociedade até as mentes brilhantes de filósofos renomados: Ninguém deu uma resposta convincente. Sabem porque? Nunca teremos acesso à essa resposta. Mas essa ânsia de querer fazer valer a pena essa passagem por aqui, nunca irá terminar (tomara que não). Queremos viver. Queremos ter a honra de sermos chamados de loucos. Já parou pra pensar que nesta mesma noite, essa merda que reveste teus órgãos internos poderá estar sobre uma mesa gelada de um necrotério, com dois ou três filhos da puta te cortando de cima a baixo só pra saber de que forma foste para o inferno? Que tal fazer valer a pena? Ao Marquinhos desejo sorte, e que não se prenda a esses padrões inúteis impostos pela sociedade. A podridão humana nos é jogada na cara diariamente pela televisão e pela internet. E é contra tudo isso que queremos que daqui 100 anos, algum velho bêbado diga em meio à vômitos e soluços em um bar qualquer, que éramos fodas pra caralho e que nossas vidas valeram a pena.

a solidão e o automatismo

A expressão “sermos nós mesmos” sempre me deixou com um ponto de interrogação na cabeça. Ser eu mesmo? Acho que se fosse pra ser eu mesmo ou seria morto ou seria preso. Isso quando eu cansasse de dormir 15 horas por dia, beber nas outras 5 e dormir novamente nas outras 4. Porém a sociedade nos obriga a seguirmos algumas regras. Obriga a mim e a outras bilhões de pessoas no mundo a não serem elas mesmas. E isso acostuma. Nos tornamos enfim, gado, meros vegetais que esqueceram de viver e fingem entender alguma coisa. Qualquer pessoa que fuja destas regras impostas pela sociedade há milênios, são chamadas de loucas, quando na verdade são as únicas pessoas que de fato vivem. Saio por aí e vejo dezenas de pessoas por dia mas quase nenhum ser humano. Um automatismo proposital. As pessoas que vivem na correria acabam se conformando e sempre têm a velha desculpa: “A gente se acostuma”. A correria, o automatismo, nada mais é do que uma fuga da realidade. A realidade costuma mastigar e engolir lentamente os que não estão muito preparados para a vida. Há pessoas que não suportam a possibilidade de passar um dia inteiro sozinhas em casa. O medo maior é de si mesmas. De suas dúvidas, inseguranças e frustrações, que só aparecem quando estamos sozinhos com nós mesmos. Só aparecem quando olhamos para o espelho mais nítido que existe: o espelho da vida. É neste espelho que vemos o reflexo do quão pequeno somos, do quão inúteis são as coisas que insistimos em continuar fazendo. Arthur Schopenhauer já nos alertava sobre isso há mais de 150 anos: “(…) Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.”

a covardia sentimental

Os covardes sentimentais fogem de tudo —
de qualquer possibilidade real de se envolver.
Criam personagens, se escondem atrás de máscaras escolhidas a dedo.
Esse personagem tem pose de durão,
porque sentimento, para eles, é sinal de fraqueza.

Mas por trás da fachada, há um mar de cicatrizes,
maquiadas pela rotina,
escondidas sob camadas de indiferença.
São almas carregadas de histórias mal resolvidas,
de amores não correspondidos,
de experiências que deixaram feridas abertas.

Escondem tudo isso sob o tapete,
não suportam a ideia de admitir suas próprias fraquezas.
Parecem invencíveis,
intocáveis,
mas são, na verdade, quase inexistentes —
fantasmas presos a uma armadura vazia.

Mas quando o amor toca,
não há pose que resista por muito tempo.
O amor nos desnuda,
nos joga de volta para a infância,
nos tira os rótulos, os diplomas, as riquezas —
e nos revela a essência pura.

O amor tem o poder de nos transformar —
mas, principalmente, de nos devolver a nós mesmos.

essa espera

Uma das piores dores?
Quando nada mais pode ser feito.
Quando tudo já foi dito, exposto, gritado,
e não sobra mais nada para prender na garganta.

Mas no coração… ah, no coração,
uma tempestade de amor permanece —
amplo, voraz, esperando para ser entregue.

Mas sem permissão.
Sem licença para sair.

É uma das piores dores:
amar demais e ser impotente,
não poder entregar,
não poder arrancar esse fogo do peito.

Tudo borbulha, ferve, queima silencioso —
uma chama presa no tempo,
alimentada pela espera que destrói.

E essa espera maldita —
a espera que corrói, que dilacera,
que tortura com o silêncio do que não pode ser,
essa é a dor que não se explica,
a dor que não morre,
porque não pode.

a derradeira mensagem

Se eu pudesse voltar àquele dezembro,
não mudaria nada.
Faria tudo de novo —
cada passo, cada suspiro, cada olhar.

Percorreria a mesma estrada só para te encontrar mais uma vez,
vestindo aquela blusa listrada, exalando aquele perfume que arrancava meus suspiros.

Não tens culpa por não sentir nada por mim —
meu coração também não.
Aliás, ele tem um gosto impecável:
teve o sentimento certo, pela pessoa certa.

Em poucos meses, descobri a grande mulher que és —
aquela que poucos conseguem enxergar além do sorriso de menina.
Mas eu vi.
Vi essa mulher no primeiro instante, nas primeiras palavras.

Você mudou minha vida, mocinha.

Nunca culpe teu coração por não termos ficado juntos.
Não controlamos esses desígnios.
E se pudéssemos, pediria ao meu para te escolher mil vezes mais.

Aprendi tanto contigo.
Quem sabe, um dia, nossas almas se reencontrem —
e, no primeiro olhar, se reconheçam
mais maduras, firmes e resistentes,
com menos dúvidas e medos,
e uma vontade infinita de recomeçar.

Deixo-te um último pedido:
não entregues teu coração a qualquer um
que não saiba perceber sua beleza profunda.

Entrega-o a alguém que, como eu, viu tua alma antes do teu corpo,
que leu teu coração através dos teus olhos,
que captou tua essência na tua voz.

Entrega-o a quem deseje desvendar teus mistérios,
que respeite teus medos e inseguranças,
que, após identificá-los, queira curar tuas cicatrizes.

Alguém que queira caminhar ao teu lado para sempre,
que nunca solte tua mão, nem nos bons nem nos maus momentos.

Eu soltei a tua mão — é verdade —
mas não foi por escolha.
Foi o teu pedido que me afastou,
e por amor, eu respeitei.
Por amor, me afastei.
Por amor, deixei você ir.

Te guardarei num lugar muito especial dentro de mim,
onde repousam as pessoas que mudaram minha história para sempre,
onde conservo as melhores lembranças —
e onde, mesmo em silêncio, continuarei a revivê-las.

Você veio para ficar.
Infelizmente, não ao meu lado, como sonhei,
mas dentro do meu coração —
e nele, com todo carinho e respeito,
eternamente te guardarei.

perfume ou veneno?

PERFUME OU VENENO?

Ontem, comprei teu perfume.
Sim — talvez o gesto mais masoquista e covarde que já cometi contra mim mesmo.
Eu queria, nem que fosse por um lapso cruel, te sentir aqui outra vez.

As moças da perfumaria não perceberam,
mas enquanto o borrifo tocava minha pele,
uma lágrima traiçoeira me escapou,
misturada ao cheiro que um dia foi aconchego,
e hoje é navalha.
“É esse mesmo que eu procurava…”,
murmurei para a vendedora,
com a voz trincada,
os olhos marejados
e a sensação de que meu coração estava sendo esmagado
como se fosse um papel sujo, pronto para o lixo.

Em segundos, nossa história inteira explodiu na minha mente —
um curta-metragem de felicidade e ruína,
o retrato mais fiel do amor mais fundo
que já ousou morar em mim.

Se aquelas moças soubessem que cada gota desse perfume
é uma gota de veneno para o meu peito,
teriam chamado a polícia,
não me vendido.

Desculpa, mas foi a única forma de trapacear a mim mesmo,
de enganar o cérebro e dopar o coração.
Por instantes, eles juraram que você estava aqui.

Agora, com esse frasco,
posso sustentar a ilusão do teu corpo ao meu lado —
não apenas alojado dentro de mim,
como sempre esteve,
mas materializado no ar,
fazendo do meu oxigênio
uma mistura letal de perfume e saudade.

alívio

Num desses encontros aleatórios, perdidos nas esquinas tortas da vida,
nossos caminhos se cruzaram de novo.

Pela primeira vez, não senti nada.
Surpreendi-me comigo mesmo —
sem gaguejos, sem suores frios, sem tremores.
Nada aconteceu dentro de mim.

Quando você partiu, mergulhei numa autoavaliação profunda,
e, naquele instante, algo diferente brotou —
um alívio puro, a sensação clara de missão cumprida.

Era a tradução exata do que chamam de “superação”.

Como é bom saber que não resta mais nada de ti aqui dentro.
Não pense que é mágoa ou vingança —
longe disso.

Foi apenas que, assim como me ensinaste a amar,
aprendi, contigo, a esquecer —
lentamente,
e finalmente, para sempre.

aproximação

Não sei o que acontece comigo quando te aproximas,
como se uma tempestade invisível invadisse meu peito.
Tua presença traz uma energia feroz, quase dolorida,
e meu corpo traça poemas que só se traduzem em
suores gelados, gagueiras que denunciam o caos,
mãos que tremem como se fossem fragmentos de um medo bom.

Sei que as palavras que meu coração tenta dizer
são as mais bonitas e sinceras que já existiram —
mas elas escapam, sufocadas pela intensidade do instante.

Quando estás perto, meu coração grita em êxtase,
uma explosão de felicidade tão pura que quase dói.
É a segurança que jamais encontrei,
o lugar certo, na hora certa,
o melhor lugar do mundo — e não é um lugar,
é estar contigo, no silêncio que só nós entendemos.

E isso tudo só de sentir tua aproximação.

Quando finalmente nos abraçamos,
tudo muda — o mundo congela, o tempo se rende.
Até os deuses parecem fazer uma pausa,
os anjos se curvam em silêncio reverente,
e a certeza ecoa no universo:

aqui na terra,
o amor ainda existe —
e ele é nós.

teu olhar, meu lugar

Era uma noite qualquer de primavera,
uma terça-feira comum perdida no tempo.
Tu vestias uma calça jeans — cor que não guardo —
e uma blusa azul, se não me engano.

Costumo notar detalhes,
mas naquele dia, meus olhos se recusaram a prestar atenção em qualquer coisa que não fosse você.
Percorriam teu rosto como quem tenta guardar um segredo,
rápido, furtivo, desesperado para não perder nada daquele espetáculo silencioso.

Aquele instante se cravou em mim,
uma tatuagem invisível, um incêndio mudo.

Quando finalmente percebeste minha presença,
já era tarde demais —
eu não estava mais ali.

Meus pensamentos me arrastaram para um lugar onde o tempo parava,
onde nada mais fazia sentido além de ti.

Eu, que pouco viajo,
me recusei a voltar.

Conheço poucos lugares no mundo,
mas o mais belo deles,
já havia encontrado em ti.