perfume ou veneno?

PERFUME OU VENENO?

Ontem, comprei teu perfume.
Sim — talvez o gesto mais masoquista e covarde que já cometi contra mim mesmo.
Eu queria, nem que fosse por um lapso cruel, te sentir aqui outra vez.

As moças da perfumaria não perceberam,
mas enquanto o borrifo tocava minha pele,
uma lágrima traiçoeira me escapou,
misturada ao cheiro que um dia foi aconchego,
e hoje é navalha.
“É esse mesmo que eu procurava…”,
murmurei para a vendedora,
com a voz trincada,
os olhos marejados
e a sensação de que meu coração estava sendo esmagado
como se fosse um papel sujo, pronto para o lixo.

Em segundos, nossa história inteira explodiu na minha mente —
um curta-metragem de felicidade e ruína,
o retrato mais fiel do amor mais fundo
que já ousou morar em mim.

Se aquelas moças soubessem que cada gota desse perfume
é uma gota de veneno para o meu peito,
teriam chamado a polícia,
não me vendido.

Desculpa, mas foi a única forma de trapacear a mim mesmo,
de enganar o cérebro e dopar o coração.
Por instantes, eles juraram que você estava aqui.

Agora, com esse frasco,
posso sustentar a ilusão do teu corpo ao meu lado —
não apenas alojado dentro de mim,
como sempre esteve,
mas materializado no ar,
fazendo do meu oxigênio
uma mistura letal de perfume e saudade.

alívio

Num desses encontros aleatórios, perdidos nas esquinas tortas da vida,
nossos caminhos se cruzaram de novo.

Pela primeira vez, não senti nada.
Surpreendi-me comigo mesmo —
sem gaguejos, sem suores frios, sem tremores.
Nada aconteceu dentro de mim.

Quando você partiu, mergulhei numa autoavaliação profunda,
e, naquele instante, algo diferente brotou —
um alívio puro, a sensação clara de missão cumprida.

Era a tradução exata do que chamam de “superação”.

Como é bom saber que não resta mais nada de ti aqui dentro.
Não pense que é mágoa ou vingança —
longe disso.

Foi apenas que, assim como me ensinaste a amar,
aprendi, contigo, a esquecer —
lentamente,
e finalmente, para sempre.

aproximação

Não sei o que acontece comigo quando te aproximas,
como se uma tempestade invisível invadisse meu peito.
Tua presença traz uma energia feroz, quase dolorida,
e meu corpo traça poemas que só se traduzem em
suores gelados, gagueiras que denunciam o caos,
mãos que tremem como se fossem fragmentos de um medo bom.

Sei que as palavras que meu coração tenta dizer
são as mais bonitas e sinceras que já existiram —
mas elas escapam, sufocadas pela intensidade do instante.

Quando estás perto, meu coração grita em êxtase,
uma explosão de felicidade tão pura que quase dói.
É a segurança que jamais encontrei,
o lugar certo, na hora certa,
o melhor lugar do mundo — e não é um lugar,
é estar contigo, no silêncio que só nós entendemos.

E isso tudo só de sentir tua aproximação.

Quando finalmente nos abraçamos,
tudo muda — o mundo congela, o tempo se rende.
Até os deuses parecem fazer uma pausa,
os anjos se curvam em silêncio reverente,
e a certeza ecoa no universo:

aqui na terra,
o amor ainda existe —
e ele é nós.

teu olhar, meu lugar

Era uma noite qualquer de primavera,
uma terça-feira comum perdida no tempo.
Tu vestias uma calça jeans — cor que não guardo —
e uma blusa azul, se não me engano.

Costumo notar detalhes,
mas naquele dia, meus olhos se recusaram a prestar atenção em qualquer coisa que não fosse você.
Percorriam teu rosto como quem tenta guardar um segredo,
rápido, furtivo, desesperado para não perder nada daquele espetáculo silencioso.

Aquele instante se cravou em mim,
uma tatuagem invisível, um incêndio mudo.

Quando finalmente percebeste minha presença,
já era tarde demais —
eu não estava mais ali.

Meus pensamentos me arrastaram para um lugar onde o tempo parava,
onde nada mais fazia sentido além de ti.

Eu, que pouco viajo,
me recusei a voltar.

Conheço poucos lugares no mundo,
mas o mais belo deles,
já havia encontrado em ti.

passou e levou tudo

Quando lembro de ti,
quando a sombra do “nós” que não existe mais me assombra,
é que percebo o que realmente sou:
não um quebrado qualquer,
mas um sobrevivente de guerra.

Segui em frente, mesmo carregando
pedaços espalhados de mim,
fragmentos que o tempo não conseguiu juntar.

Mesmo sem as partes mais essenciais,
aquela que eu amava com loucura,
aquela que dava sentido à minha respiração,
que alimentava minha crença,
que fazia meu coração pulsar esperança —
essa parte se foi contigo.

Mas aqui estou.
De pé.
Mesmo que falte o que me fazia inteiro,
mesmo que eu seja só sombra daquilo que fui,
ainda resisto.

Porque, no fundo,
sobreviver sem o que mais amei
é a maior prova de força que tenho.

quando vier pra ficar, saiba identificar

O verdadeiro amor chegará sorrateiro,
sem alarde, sem promessas vazias,
despido de expectativas sufocantes.

Ele vai chegar devagar, quase furtivo,
como um sussurro na escuridão da tua vida,
nascerá lento, imperceptível,
crescerá na calada,
até que, sem pedir licença,
destrua para sempre
a tua antiga noção de “amor”.

Esse amor não vai te afogar em pressa ou cobranças,
não vai te sufocar com dúvidas.
Ele te dará respostas —
uma segurança brutal,
uma plenitude que te desarma,
e, principalmente,
a paz que há tanto tempo fugia de ti.

O verdadeiro amor vai deixar pistas,
mas só para quem tiver olhos para ver.
Ele vai surgir do nada,
do lugar onde jamais imaginaste,
quando menos esperares,
quando já não resta mais esperança.

E quando ele chegar,
apagará com fogo todos os amores passados —
sem espaço para um próximo,
porque esse será o último.

você não merece isso

Vejo nos teus olhos a insatisfação,
e até um desespero contido
que tua discrição não consegue disfarçar.
Teus olhos falam —
aliás, gritam.
E eu entendo cada palavra não dita.

Algumas coisas simplesmente não nasceram para dar certo.
Algumas pessoas não foram feitas para se encaixar,
não importa o quanto tentem.
Eu sei… é cruel aceitar isso.
Dói abandonar algo que um dia nos fez sorrir,
dói deixar para trás o que parecia amor.

Mas se tivermos coragem de soltar,
nos pouparemos de lágrimas inúteis
e do peso sufocante
de borboletas mortas no estômago.

Nunca coloque tua vida nas mãos de outra pessoa.
Nunca dê a ninguém a obrigação
de ser responsável pela tua felicidade.
Esse dever é só teu.

Cria novos planos.
Novos desejos.
Novos sonhos.
O que importa é fechar esta porta
sem deixar frestas para o passado entrar.

Aprende com o que viveu,
cultiva tua autoestima como um escudo,
e, acima de tudo,
vence o medo de caminhar sozinha.
Porque seguir em frente
não é perder.
É finalmente começar.

quando palavras já não fazem sentido

Vem.
Encosta tua cabeça no meu peito
e deixa o mundo lá fora ruir sozinho.
As coisas, as pessoas, o caos —
nada disso importa agora.

Temos um ao outro.
Temos o suficiente para chamar de felicidade
sem pedir mais nada ao universo.

Vem…
Fica aqui.
Ouve.
Sente meu coração batendo como um tambor cerimonial,
celebrando a grandeza silenciosa deste instante.

Fiquemos assim, imóveis,
como se o tempo tivesse esquecido de nós.
Sem palavras — elas seriam apenas ruído.
Que nossas respirações sejam a música de fundo,
nossos corações, a orquestra
aplaudindo o privilégio de estarmos juntos.

E então, um desejo único nos atravessa:
que o sol se atrase,
que o universo cometa um pequeno erro,
que a noite se estenda mais do que deveria,
só para nos dar a chance
de permanecer eternamente
neste momento suspenso
em que o amor parece infinito.

intensa

Ela é diferente.
É especial.
Não vive de migalhas,
não sobrevive de restos emocionais.
Quer um coração inteiro — pulsando, verdadeiro.

Exigente? Não.
Apenas lúcida demais para se deixar seduzir
por um corpo vazio,
por um olhar que não carrega alma.

Não perde tempo com paixões de vitrine,
nem com noites que evaporam ao amanhecer.
Ela sabe o valor do que tem para entregar:
um coração inteiro, limpo, pronto para ser lar.

Quer alguém cuja alma caminhe ao lado da dela,
cujos olhares não precisem de legenda,
cujos sorrisos não sejam ensaiados.

Dispensa palavras bonitas, frases prontas,
promessas de vento.
Quer atitudes.
Quer maturidade que traga segurança,
respostas que afastem as dúvidas
que já a consumiram tantas vezes.

Será pedir demais?
Talvez.
Mas depois de tantas decepções,
ela aprendeu que o amor certo
não é o mais fácil,
é o que apaga todas as histórias ruins
e, acima de tudo,
impede que exista uma próxima.

um encontro de almas

Não tenho dúvida alguma.
Quando te vi naquele dia,
no nosso primeiro encontro,
não era apenas mais um rosto na multidão.
Era como se o mundo tivesse parado para me devolver algo
que eu nem sabia que tinha perdido.

Na verdade, foi muito mais que um encontro —
foi um retorno.
Um eco vindo de muito antes desta vida,
algo que nenhuma lógica ousa explicar.

Aprendi que existem conexões
que não cabem no corpo,
nem se deixam decifrar pela mente.
Elas se revelam no território secreto da alma,
no silêncio cúmplice dos olhares,
no toque invisível que costura duas existências.

Foi assim contigo.
O que tivemos não foi mero contato físico,
mas uma colisão de almas reconhecendo-se no abismo do tempo.
Enquanto nossas bocas diziam “muito prazer”,
nossas almas, trêmulas e famintas,
sussurravam num idioma antigo:
“até que enfim”…
“que saudade”.